Competitividade e diversificação: o que indústria calçadista brasileira espera do acordo UE-Mercosul

Acordo UE-Mercosul deve alavancar setor calçadista brasileiro; entenda Importante destino do calçado brasileiro, a União Europeia deve se tornar um parceiro comercial ainda mais estratégico com a concretização dos termos do acordo de cooperação com o Mercosul. Graças a uma esperada isenção tarifária para 27 países, em 15 anos, as exportações devem crescer 62%, segundo um estudo de impacto realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Além de um ganho de competitividade, com produtos mais baratos para os compradores de fora, grandes polos como Franca (SP), Vale dos Sinos (RS) e Nova Serrana (MG) podem se beneficiar de uma exportação mais diversificada, com a queda nos impostos não só para os artigos de couro, mas também para aqueles fabricados com outros materiais, hoje menos relevantes para os negócios internacionais. Faça parte do canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp "Esses mercados detêm 40% de todos os calçados importados no mundo. É um bloco de significância muito grande", afirma Priscila Linck, economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). Assinado provisoriamente em 17 de janeiro no Paraguai, o acordo discutido há anos prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação e estabelece regras comuns para áreas como bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios. Para entrar em vigor, o termo ainda precisa ser aprovado por cada país do Mercosul. No início do mês, o presidente Lula encaminhou o documento para o Congresso Nacional. A seguir, entenda a importância das relações com a União Europeia para o calçado brasileiro. Qual é a importância da União Europeia para o calçado brasileiro? Em 2025, o Brasil faturou US$ 105,2 milhões com a exportação de 17,5 milhões de pares de calçados para a União Europeia. Franca, Portugal, Itália, Alemanha e Espanha são os principais destinos. Em volume financeiro, o bloco econômico corresponde a 10% de todas as exportações de sapatos do país. "Naturalmente com os últimos anos um próprio desaquecimento do mercado internacional, a gente acabou perdendo um pouco de espaço em alguns países da União Europeia, (...) mas a gente acabou alocando maiores volumes para outros destinos ou até na Europa, abrindo outros mercados com mais força, como a Espanha", analisa Priscila. Imagem da assinatura do acordo do Mercosul-UE Reprodução/YouTube De tudo o que Brasil exporta nesse segmento, 44% é de couro, mais de 47% é de material sintético e 8% é têxtil. Além da atuação com marcas próprias, o calçado brasileiro chega ao mercado europeu por meio de contratos de "private label" [marca privada], ou seja, em que uma empresa responde pela promoção, marketing e distribuição de um produto fabricado por um terceiro. Pelo potencial de compra, o mercado europeu se torna estratégico e uma alternativa forte para o Brasil, diante das restrições impostas pelos Estados Unidos, ainda hoje o maior importador de calçados do mundo. "É um mercado que importa um produto de couro, mais tradicional, de maior valor agregado. Então acaba sendo uma boa alternativa para o setor se inserir no mercado externo. (...) Acaba sendo também um formato de negociação não só das marcas brasileiras, mas a gente conseguiu inserir o produto brasileiro com marcas dos clientes." Fábrica de calçados em Franca, SP Reprodução/EPTV Quais os ganhos para a indústria calçadista? Um dos pontos mais importantes estabelecidos no acordo entre União Europeia e Mercosul é a isenção gradativa de impostos de importação dos dois lados. No caso dos países da América do Sul, os calçados, com uma taxação de 3,5% a 17%, terão isenção total em até dez anos. Para a economista da Abicalçados, um dos efeitos mais importantes é o aumento da competitividade dos calçados de couro, hoje taxados em 7%, que entrariam sem tarifas em território europeu dentro de sete anos. Segundo ela, isso pode representar inclusive uma maior força diante dos concorrentes asiáticos, também presentes na Europa. "O principal produto que a gente já exporta para o mercado vai ter um prazo de desgravação mais rápida. Isso é positivo para que a gente consiga alavancar as exportações desse segmento para os países europeus." Empresas apostam em vendas online e no alto valor agregado de calçado brasileiro para garantir mercados interno e externo. Lindomar Cailton/EPTV Ainda que com um prazo maior para a isenção e hoje mais tarifados que o couro, os produtos feitos com outros materiais, como os sintéticos e têxteis, passariam a ocupar mais espaço nas exportações, o que levaria uma diversificação dos negócios calçadistas. "Ou seja, se abre um espaço de oportunidade para a gente consolidar ainda mais os nossos embarques de calçados de couro, mas também de diversificar e entrar com mais força em outros segmentos como os calçados de material sintético, plástico, borracha e também de material têxtil." Com isso, Priscila destaca o fortalecimento de toda a cadeia produtiva, com uma maior demanda e contratações nas fábricas, além de um ganho na desburocratização dos processos. "Tanto a Abicalçados quanto as entidades representantes de todos os membros do Mercosul, quanto a Câmara Europeia de Calçados sempre tiveram esse envolvimento muito de perto de negociar em conjunto, de construir um acordo que fosse viável para ambas as partes. (...) No âmbito do calçado, ele foi muito bem construído em conjunto. Houve essa interlocução durante as negociações", diz. Além disso, a economista espera uma maior previsibilidade nas negociações internacionais em tempos de incertezas econômicas e políticas. "É um impulso para que a gente consiga alavancar as nossas exportações para esses mercados, ou seja, de a gente conseguir alternativas para alavancagem da nossa exportação frente a um cenário de instabilidade." Rio Grande do Sul é responsável por 46% das exportações de calçados no país Reprodução/RBS TV Por tudo isso, Priscila analisa que o acordo deve surtir efeito positivo nos diferentes polos calçadistas do país. Em Franca, por exemplo, o equivalente a 5% dos US$ 64,6 milhões exportados em 2025 - US$ 2,7 milhões - foi com negócios firmados com a União Europeia. Em anos anteriores, como em 2005, o volume exportado já foi de US$ 21,5 milhões para o bloco. "Além de estar reduzindo tarifa de um produto que a gente já tem predominância em exportar, que é o calçado de couro, e aí Franca, parte do Rio Grande do Sul no feminino, principalmente, se beneficiam muito porque são regiões com uma concentração grande de produtos de couro, claro, são beneficiados nesse sentido. Mas, ao mesmo tempo, os outros polos se beneficiam também justamente por a gente abrir um espaço de oportunidade em alguns segmentos que têm uma tarifa hoje maior." Quais os pontos de atenção do setor com o acordo? Para os calçadistas, o principal ponto de atenção na concretização do acordo UE-Mercosul é com relação à origem dos sapatos que venham a ser comercializados com o Brasil. Isso porque o setor teme que essa abertura de mercado seja utilizada como uma brecha para a entrada de produtos asiáticos, por meio de uma triangulação. Produção de sapatos em Franca (SP). Lindomar Cailton/EPTV "O que é isso? Um produto asiático entrar no Brasil via União Europeia, como se fosse um produto europeu com isenção tarifária, mas ele não foi produzido na Europa. Acho que o maior risco que, desde o início foi mapeado, é esse e não com relação ao produto europeu", afirma Priscila. Por isso, segundo ela, o acordo de cooperação prevê alguns termos para certificar a origem dos produtos em comercialização. "O produto europeu, mesmo que a gente tenha um processo de elevação da importação aqui no Brasil, ele complementa os nossos produtos, não teria um efeito, por exemplo, de deslocar a nossa produção. O nosso maior risco de fato é com relação a produtos de terceiros que não são europeus, por isso foram construídas regras de origem que de alguma forma tentam atenuar esse risco." Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região