Como filmar um longa-metragem em um dos marcos culturais mais famosos do planeta? Essa foi uma das grandes questões enfrentadas pela equipe de Hamnet, indicado oito vezes ao Oscar 2026, um relato ficcional da vida familiar de William Shakespeare em Stratford-upon-Avon e de sua vida profissional no The Globe Theatre, em Londres. O filme é baseado no romance premiado de Maggie O’Farrell. Diferentemente de cinebiografias recentes sobre ícones das artes como Bruce Springsteen, Maria Callas ou Bob Dylan — cujas casas não são museus —, a equipe de produção precisou recontar a história de Shakespeare em locais de enorme importância histórica, como o próprio Globe e a casa de Anne Hathaway, esposa do dramaturgo. Falo como britânica: é impossível fechar o Globe, ainda extremamente lucrativo, para filmagens. Nunca. Não vai acontecer. Nem mesmo com Paul Mescal escalado para viver o bardo. Uma imagem externa antiga do Globe às margens do Tâmisa Getty Images E ainda assim, como conta a diretora de arte Fiona Crombie à Condé Nast Traveler, encontrar locações substitutas não foi tão difícil quanto se poderia imaginar. Figurinista e designer de produção especializada em dramas históricos britânicos — Crombie foi indicada ao Oscar por A Favorita —, ela vive no Reino Unido há mais de uma década e não se intimidou com o desafio. Aqui, ela compartilha os locais mais marcantes de Hamnet. Agnes (Jessie Buckley) com seu irmão Bartholomew (Joe Alwyn) passeiam por Stratford-upon-Avon, filmado neste caso em Weobley, Hereford Divulgação Brilley, Herefordshire, Fronteira com o País de Gales A história começa sob o ponto de vista de Anne Hathaway. Também chamada de “Agnes”, ela se tornaria esposa de Shakespeare e mãe de seus três filhos: a primogênita Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet. Hamnet morreu aos 11 anos, vítima da peste bubônica, e o livro de O’Farrell explora a teoria de que a peça mais famosa de Shakespeare, Hamlet, foi moldada por essa perda. O’Farrell também apresenta Agnes como uma curandeira herbal que cresceu em uma fazenda, com profundos laços emocionais com a natureza e a floresta. A casa real de Agnes, a fazenda Hewlands, nos arredores de Stratford-upon-Avon, hoje é uma atração turística conhecida como Anne Hathaway’s Cottage. Por isso, a equipe filmou em Cwmmau, em Herefordshire — uma casa de fazenda medieval disponível para aluguel por temporada via National Trust. “Nossa gerente de locações estava indo visitar uma casa histórica que diziam ter potencial, mas ninguém atendeu à porta”, conta Crombie. “Ela continuou dirigindo e encontrou essa casa listada, que nunca havia sido filmada antes. Foi um achado incrível. A fachada era perfeita, mas como era um imóvel de aluguel, o interior havia sido modernizado. Tivemos que reverter temporariamente todas essas modernizações antes de começar a filmar.” As flores de lilás nos prados fora de Weobley, que serviu como um importante centro de produção de Hamnet Getty Images Weobley, Hereford À medida que o relacionamento entre Agnes e William se aprofunda, o filme mostra a vida paralela dele na Stratford-upon-Avon do século XVI, trabalhando para o pai, que era fabricante de luvas. Para isso, a equipe usou Weobley como locação — apelidada de “a vila em preto e branco” por seus edifícios Tudor impecavelmente preservados. “É uma área lindíssima”, diz Crombie. “Não consigo não amar essa cidade. Há coisas que comprei no mercadinho local pelas quais eu faria tranquilamente uma viagem de oito horas de ida e volta desde Londres.” (Vinagre de maçã com cúrcuma, em especial.) Weobley dedicou sua rua principal à produção de Hamnet por semanas, fechando comércios e restringindo o acesso dos moradores durante o verão de 2024. “Eles foram incrivelmente acolhedores”, acrescenta Crombie. “Um agradecimento especial ao café The Green Bean, que nos manteve muito bem alimentados. O café da manhã inglês completo deles era disputadíssimo pelo elenco e pela equipe.” Quando Agnes engravida, o casal se casa rapidamente, e a pequena igreja de Weobley foi usada para essa cena. Já a cena do parto de Susanna — quando Agnes dá à luz junto a uma árvore ancestral impressionante — foi filmada em outro local. “Essa floresta faz parte da propriedade Lydney Park Estate, em Gloucestershire”, explica Crombie, a cerca de 90 minutos de carro ao sul de Weobley. Felizmente para os fãs de Hamnet, os jardins estão abertos ao público, e vários edifícios da propriedade — incluindo uma antiga casa de bombas e um celeiro — foram transformados em acomodações de temporada. “Lembro de ter ficado muito triste no nosso último dia em Lydney, achando que talvez nunca mais voltasse. Esses lugares se tornaram muito queridos para nós.” Cwmmau, em Herefordshire, foi usado como a casa dos Shakespeares — aqui, Agnes está no sótão vazio. Divulgação Rio Tâmisa, Londres Determinado a seguir carreira como dramaturgo, William se muda de Stratford-upon-Avon para Londres, deixando a jovem família para trás. “Todas as sequências ambientadas em Londres foram filmadas na Charterhouse”, conta Crombie. Esse extraordinário conjunto histórico no coração da City de Londres tem mais de 600 anos de história e já foi mosteiro, hospital e escola para meninos. Hoje, funciona como um almshouse — uma residência beneficente para idosos — e recebe visitantes em visitas guiadas e eventos como corais de Natal e caminhadas à luz de velas. A única exceção é uma cena em que William reflete sobre seu futuro ao entardecer, sentado às margens do Tâmisa. “A lua ditou todo o nosso cronograma em Londres”, lembra Crombie. “Havia apenas uma noite com lua cheia e maré alta de primavera, que revelaria a faixa de areia e nos daria tempo suficiente para filmar. Foi uma cena extremamente complexa.” Quem quiser ver essa rara “praia” londrina pode ir até Durham Wharf, entre Greenwich e a Barreira do Tâmisa. The Globe The Globe Getty Images A precisão histórica jogou a favor de Crombie na recriação do teatro construído para Shakespeare e sua companhia em 1599. “O The Globe que construímos nos Elstree Studios replica o primeiro Globe real”, explica. Esse teatro original foi destruído por um incêndio em 1614, reconstruído em 1615 e demolido novamente em 1644. O Globe que existe hoje em Londres é uma reconstrução da segunda versão, mais ornamentada. “Acho que muita gente vai assistir ao filme e dizer: ‘Esse não é o Globe que eu conheço’ — e ainda assim, é exatamente o Globe que um jovem Shakespeare conheceu”, observa Crombie. “Pesquisamos muito e descobrimos que ele foi construído com madeira reaproveitada e até materiais roubados. Para a nossa história em Hamnet, esse teatro tem uma relação especial com a floresta, então essa versão mais rústica e bruta funcionou perfeitamente.” William Shakespeare (Paul Mescal) no palco do Globe como era em sua época, recriado nos estúdios Elstree, nos arredores de Londres Divulgação Mais em Globo Condé Nast Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!