Daniel Radcliffe queria uma pausa da Broadway. Então ele leu esta peça

O jovem Daniel Radcliffe tinha algumas coisas favoritas. Bart Simpson. “Um maluco no pedaço.” Castelos infláveis. Batatas fritas com vinagre na praia. — Praias inglesas — ele esclarece —. Então, “praias” pode estar entre aspas. Isso foi antes de se tornar um dos atores mais famosos do mundo, antes de adotar Nova York como lar, antes de se tornar pai. Mas ultimamente ele tem pensado em pequenos prazeres enquanto se prepara para seu próximo papel na Broadway, interpretando um homem que, quando criança, começa a anotar razões para amar a vida na tentativa de animar sua mãe suicida. O fato de Radcliffe, de 36 anos, estar retornando à Broadway é uma surpresa, pelo menos para ele. O ator ganhou seu primeiro Prêmio Tony em 2024 por seu último papel, em uma remontagem transformadora de “Merrily we roll along”. Tendo passado dois anos nesse projeto, decidiu dar um tempo do teatro. Ele tem um filho pequeno, um novo programa de TV e um projeto de escrita em desenvolvimento. Isso parecia suficiente. Mas um diretor empreendedor colocou o roteiro de “Every brilliant thing (“Todas as coisas maravilhosas”) nas mãos de Radcliffe. Ele nunca tinha visto a peça, mas foi tomado pela constatação que tem guiado sua carreira sinuosa: parecia arriscado, então deveria fazer. Daniel Radcliffe (ao centro), Lindsay Mendez (à esquerda) e Jonathan Groff no musical "Merrily We Roll Along" no Hudson Theater em Nova York, em 6 de outubro de 2023. Radcliffe ganhou um Tony em 2024 por sua atuação. Sara Krulwich/The New York Times — Às vezes, sinto que estou ficando um pouco confortável demais, como se já tivesse passado muito tempo desde que fiz algo assustador — disse em uma de nossas várias conversas. — Tenho visto uma citação de David Lynch circulando por aí, que sempre que ele aprendia algo na vida, era fazendo algo novo, e acho que é isso que vai acontecer comigo. O desafio está em Radcliffe ser o único membro do elenco, mas não o único ator: a peça é um monólogo interativo que envolve uma participação significativa, porém voluntária, da plateia. O ator que passou uma década interpretando Harry Potter no cinema, despertando emoções intensas em milhões de pessoas que nunca conheceu — adoração, com certeza, mas também familiaridade, proteção e admiração —, mistura improviso e dramatização com estranhos oito vezes por semana. — Pode ser complicado. Algumas pessoas enlouquecem com famosos — disse. — Mas acho que há um sentimento geral de carinho em relação a Harry Potter e a mim. Espero que isso contribua para que as pessoas estejam dispostas a embarcar nessa jornada comigo. “Todas as coisas maravilhosas” é uma meditação de 85 minutos sobre gratidão, luto, superação e conexão. E música. Duncan Macmillan encenou um breve monólogo que funcionava como um prelúdio para o espetáculo há 20 anos, na Inglaterra. Macmillan trabalhou com o comediante Jonny Donahoe para expandir a peça para um formato completo, apresentado pela primeira vez em 2013. O espetáculo foi encenado em 66 países e 44 idiomas. Phoebe Waller-Bridge o apresentou em uma tenda em um festival de música. Minnie Driver o apresentou no West End. Em Bangladesh, uma atriz o encena em salas de estar de casas. Na Argentina, 11 atores já o interpretaram. Donahoe, que já apresentou o espetáculo mais de 400 vezes, estrelou uma produção off-Broadway em 2014, disponível na HBO Max. Radcliffe nunca viu a peça — ele quer encontrar sua própria interpretação. Mas leu as 73 notas de rodapé do roteiro, que são o catálogo sempre atualizado de dicas e curiosidades de produções anteriores de Macmillan. (São feitas adaptações para cada artista e local; para Radcliffe, um fã incondicional de “Os Simpsons”, há uma homenagem a Bart.) 'Homem comum' Radcliffe apresentará a peça no Hudson Theater. Com 975 lugares, será o maior espaço onde o espetáculo já foi encenado — além de ser o mesmo teatro onde “Merrily” foi remontada. Encontramo-nos para uma entrevista em um salão do teatro, e quando estávamos prestes a nos sentar, Radcliffe se viu em uma foto do elenco na parede. — Ah, não, não embaixo disso — ele riu, e nos fez mudar de lugar. Radcliffe tem limites claros na conversa, mas é paciente e despretensioso, muito autoconsciente e reflexivo sobre sua carreira e sua arte. Conversamos bastante sobre a fama, que me interessa pela forma como pode afetar um espetáculo solo com interação entre o artista e o público. Onde quer que Radcliffe vá, as pessoas querem se aproximar, interagir, desabafar. Ele é gentil, mas é muita coisa para administrar — quando sai de casa, costuma usar chapéu e máscara, e disse que um dos benefícios desta fase da vida é que seus amigos se sentem mais à vontade para socializar em casa. Enquanto assistia a um ensaio, me ocorreu que, dado o tema do espetáculo, algumas pessoas viriam até a porta dos fundos do teatro determinadas a compartilhar suas próprias tristezas e dificuldades. — Elas fazem isso de qualquer maneira, acontece há anos — diz Radcliffe. — Estou acostumado com interações muito intensas, às vezes adoráveis, e há vezes em que digo: “Você deveria conversar com outra pessoa sobre isso.” — Ele tem um quê de homem comum — disse Herrin. — Um certo otimismo e uma resiliência inerentes. O ator Daniel Radcliffe em Nova York, em 4 de fevereiro de 2026. O vencedor do Tony retorna aos palcos em “Every Brilliant Thing”, um monólogo interativo com uma mensagem de esperança “que pode ser vital para alguém ouvir”. Lucia Bell-Epstein/The New York Times Jeremy Herrin, que codirige a temporada da Broadway com Macmillan, disse que Radcliffe traz para o papel algo que ninguém mais ofereceu: o público se lembra do ator quando criança, o que pode adicionar uma camada de intensidade ao assistir ao personagem falar sobre infância. — Me identifico muito, tanto na forma como a tristeza o atinge quanto na maneira como ele encontra alegria — disse. Radcliffe descreveu a escolha de um personagem diferente. Radcliffe também estrela ao lado de Tracy Morgan uma nova sitcom da NBC, “The fall and rise of Reggie Dinkins”, sobre um jogador de futebol americano envolvido em um escândalo (Morgan) que contrata um cineasta decadente (Radcliffe) para ajudá-lo a se reerguer. Morgan elogiou seu novo colaborador, chamando-o de humilde, gentil e engraçado. Mas, afirma, há um benefício adicional: — Trabalhando com Radcliffe me tornei um pai legal. A imprevisibilidade da prolífica carreira de Radcliffe após Harry Potter virou uma característica marcante. — Poucas pessoas conseguiram fazer essa transição tão suavemente quanto ele — disse Bryan Cranston, outro ator que transitou entre as telas e os palcos. — E ele está focado no teatro, que é um ótimo veículo para ele. Mesmo antes do lançamento do último filme de Harry Potter, em 2011, Radcliffe fez sua estreia na Broadway em “Equus” (2008). A peça exigiu que ele ficasse nu, enquanto no cinema ele já interpretou um cadáver flatulento (“Um cadáver para sobreviver”). — Ele está fazendo escolhas que não são necessariamente financeiras, mas criativas — disse Robert Carlock, um dos criadores de “Reggie Dinkins”. — Parece que está se divertindo muito. Radcliffe sabe que tem o raro privilégio de escolher seus projetos com base em um único critério: bom gosto. — Um dos meus pontos fortes como ator é ter uma boa noção do que sou bom e do que não sou — disse. — Qualquer coisa que se situe numa zona entre o doce e o bondoso, mas também um pouco estranha ou um pouco sombria, é um lugar onde gosto de estar. E por que trabalhar, quando não se precisa? — Trabalho desde os 9 anos. Não sei o que é a vida sem isso. Todos nós precisamos fazer algo para nos distrair até morrermos, e atuar é uma ótima e divertida maneira de fazer isso. Novos compromissos A paternidade complicou a tomada de decisões: — O nível de exigência para me afastar da minha família aumentou. Isso também o levou, finalmente, a parar de fumar: O ator Daniel Radcliffe em Nova York, em 4 de fevereiro de 2026. Lucia Bell-Epstein/The New York Times — Já fazia tempo demais. Comecei a ter pensamentos intrusivos sobre a própria morte e sobre não estar presente para o crescimento dele. Inicialmente, ele recusou uma oferta para fazer “Todas as coisas maravilhosas” em Londres porque mora em Nova York com sua namorada, Erin Darke, e o filho deles. Mas estava aberto a fazer a peça na Broadway. Trabalhar principalmente à noite permite que passe tempo com o filho durante o dia: — Ele é uma bola de alegria, tão feliz, engraçado e doce, o que acho lindo e doloroso ao mesmo tempo. Fico muito protetor e entendo todos os instintos que todo pai tem de educar o filho em casa e se mudar para o meio do mato. Seu filho ainda é muito pequeno para entender que o pai é ator, ou para ter ideia de quem é Harry Potter. Radcliffe pretende ler os livros de Potter para ele? — Se ele se interessar, com certeza. Mas não acho que vou precisar incentivar, ele vai esbarrar com eles. Ele contou que já considerou, não com pesar, a ideia de que seu filho conheceria Potter por uma futura série da HBO, em vez dos filmes: — Tomara que eu possa colocar a série para ele assistir, e ele não precise me ver nela. Isso seria o ideal. O ator Daniel Radcliffe em Nova York, em 4 de fevereiro de 2026. Lucia Bell-Epstein/The New York Times E as divergências de Radcliffe com J.K. Rowling sobre identidade de gênero afetaram seus sentimentos em relação à franquia Harry Potter? Sem comentários: — No minuto em que começar a falar sobre isso, vai ofuscar qualquer outra coisa. Ele tem apresentações agendadas de “Todas as coisas maravilhosas” até 24 de maio. E espera que “Reggie Dinkins”, que é filmado na região de Nova York, se torne uma série de longa duração. Ele está comprometido com um thriller sobre a Guerra do Vietnã, “Trust the man”. E quer fazer seus próprios filmes: — Dirigir é o que eu adoraria fazer. Não no teatro, porque não tenho um entendimento instintivo de como fazer as coisas funcionarem no palco. Mas se a regra de Malcolm Gladwell for verdadeira, já tenho milhares de horas de experiência em sets de filmagem, então devo ser capaz de descobrir como administrar um set. Ele está escrevendo um roteiro “há tempos” e agora está revisando: — Sempre quis que a primeira coisa que dirigisse fosse algo que eu tivesse escrito. Se estragar tudo, pelo menos estarei estragando meu próprio material.