Numa dessas cambalhotas improváveis que a música dá, veja só, metade da obra de Gil, agora, é de Jiló. Um dos mais prolíferos compositores do Brasil, com mais de 800 canções lançadas em cerca de 40 álbuns de estúdio, muitos deles cravados entre os mais representativos da história da nossa música, Gilberto Gil vendeu 50% do seu catálogo no início do ano. Quem assinou o cheque e efetuou a compra foi o Nas Nuvens Group, empresa brasileira encabeçada por Liminha, o maior produtor musical em atividade no Brasil. E que chegou a fazer uma dupla com Gil nos idos dos anos 1960, Gil e Jiló, primeira de muitas aventuras que viveriam juntos. A operação, feita pelo Nas Nuvens em parceria com a Primary Wave Music, americana expert do ramo que detém catálogos de nomes como Bob Marley, Prince, James Brown, The Doors, Whitney Houston e Ray Charles, entre muitos outros, é classificada por seus protagonistas como “uma das mais relevantes no mercado musical da América do Sul”. E mostra que o Brasil não ficará de fora de um movimento que tem sido global. São cada vez mais frequentes as notícias de grandes artistas que vendem parte ou a totalidade dos seus catálogos. Num exemplo mais recente, Britney Spears vendeu os direitos de todo o seu catálogo musical, em dezembro, por um valor estimado em torno de US$ 200 milhões (mais de R$ 1 bilhão, na cotação atual). A negociação envolve a transferência dos direitos de exploração econômica das músicas, como royalties de streaming, rádio e vendas, além do uso em filmes, séries, publicidade e a administração editorial das composições. A compradora foi a Primary Wave. Liminha conta que já estava “com a antena ligada” neste mercado de aquisição de catálogos desde que Bob Dylan vendera o dele, em 2020, por cerca de US$ 300 milhões. Na pandemia, a Primary Wave estava buscando um parceiro no Brasil, de olho nos catálogos daqui, como o dos Mutantes. Liminha, ex-baixista dos Mutantes, foi procurado por Ricardo Queirós, executivo paulistano veterano do showbiz que fazia a intermediação. Com um aporte significativo da Starboard, um fundo de investimento interessado no mercado de direitos autorais, todos esses players decidiram criar, em 2021, o Nas Nuvens Group, que tem como um de seus acionistas a Primary Wave. Hoje, o Nas Nuvens detém parte ou a totalidade de mais de 80 catálogos, de artistas variados como Carlinhos Brown, Chorão (Charlie Brown Jr.), Arlindo Cruz, Zeca Baleiro, Vanessa da Mata, Celso Fonseca, Kiko Zambianchi, Sombrinha, Renato Teixeira, Raimundos e Nelson Ned. Agora, tem o de Gilberto Gil também. Jason Eliasen e Ricardo Queirós, do Nas Nuvens Music Group Gabriel Reis / Valor — Nosso santo superbateu, mas a gente colocou uma condição: gostaríamos de montar não só um fundo de aquisição de direitos autorais, mas sim uma empresa de música que trabalhasse em prol dos artistas. E a gente sabe que é superdifícil lidar com o direito autoral, então a gente queria que fosse uma empresa de música que trabalhasse essas duas frentes — diz Queirós, diretor artístico do Nas Nuvens Music Group. Jason Eliasen, COO (chief operating officer) e CFO (chief financial officer) do Nas Nuvens, ajuda a explicar o modelo de negócios do grupo: — A gente gosta de comprar uma parte do catálogo e deixar a outra com o artista, porque aí a gente entra como sócio, parceiro do artista. Nosso trabalho é beneficiar não só a gente, obviamente, como empresa, mas também o artista, focando na organização do catálogo, gestão, auditoria, e isso tudo é muito complexo. E a parte artística fica pensando em novos projetos para impulsionar esses catálogos. Um exemplo do que Eliasen conta são os projetos em torno da obra de Arlindo Cruz, administrada pelo Nas Nuvens. Liminha está produzindo “Elas cantam Arlindo”, disco em que o sambista, morto no ano passado, terá suas canções revisitadas por cantoras como Ivete Sangalo, Duda Beat e Agnes Nunes. E há em curso a produção de um documentário sobre o compositor, com previsão de estreia este ano, no Globoplay. Desta maneira, diz o trio, o legado do artista segue preservado, movimentado, e os alcances com seus direitos rendem mais. Bom para todo mundo. Os sócios não revelam os números em torno da venda do catálogo de Gilberto Gil. Mas contam que o catálogo do baiano tem cerca de 840 músicas que, com regravações, versões ao vivo e participações, se desdobram em mais de dois mil fonogramas. Gil tem mais de 3,3 milhões de ouvintes mensais no Spotify. — O Spotify paga no Brasil R$ 0,006, na média, por stream — explica Eliasen. Amigo íntimo Liminha posa para foto no estúdio Nas Nuvens, que fundou com Gil no Jardim Botânico Ana Branco / Agência O Globo O Nas Nuvens Group leva este nome, é bom dizer, em alusão ao estúdio lendário que Liminha mantém no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, desde os anos 1980. E que ele fundou com Gilberto Gil, que patrocinou a compra daquele casarão que já abrigou o consulado da Holanda no Rio. É lá que Liminha recebe o GLOBO, cercado de discos de ouro e de platina, as paredes cheias de história e assinaturas de mais de meio mundo da música brasileira. Não é exagero dizer que o Nas Nuvens, dos estúdios que ainda estão de pé, é o mais simbólico e importante da música brasileira. Liminha é o CEO do Nas Nuvens Group, mas, antes de tudo, é também músico e compositor, e depõe como tal: — Paul McCartney estava fazendo um movimento para melhorar o que se paga com o streaming. E é o Paul McCartney. Direito autoral é um dinheiro que parece que cai do céu. Mas quem tem o controle são as plataformas. Eu nunca fui lá conferir pra ver se estava certo mesmo o que eu estava recebendo. E a maioria dos compositores não faz isso também, porque é algo muito sofisticado. Não tem como o artista e o empresário tomarem conta de tudo. Você tem que ter uma equipe grande. A gente tem uma equipe de 40 pessoas enfiadas no computador microscopando tudo para ver qualquer vírgula fora do lugar. Como Gil e Jiló, Liminha e o parceiro baiano fizeram um único show, quando defenderam, no Festival da Record, em 1968, a canção “Dois mil e um”, de Tom Zé e Rita Lee. Foram se reencontrar anos depois, quando Liminha foi produzir na Warner (Gil tinha acabado de sair da Polygram) o disco “Luar”, de 1981. Foi o primeiro dos 14 discos de Gil que Liminha produziu. — Gil sempre me deu a maior força, assim, para experimentar coisas, sabe? Tinha até uns patrulheiros que falavam “ah, o Gil não sei o quê”, reclamavam um pouco, uns puristas da MPB, mas Gil não queria nem saber, cara. Foi quem me deu muita força para trabalhar, muito apoio. Aprendi muito de música com ele, né? Porque Gil tem uma cultura musical enorme, um cara que conhece muito Luiz Gonzaga, conhece bossa nova, João Gilberto, Jackson do Pandeiro, tudo, a música da Bahia. E, além disso, é uma pessoa maravilhosa, né? — diz o produtor musical. Foi Liminha quem produziu grandes clássicos de Gil, como “Palco”, hit absoluto do baiano e uma das joias da disco music brasileira. — Foi a primeira vez que a gente usou metrônomo numa gravação. Era uma coisa que tinha um efeito subliminar. Ninguém usava na época. Eu me lembro que, uma vez, um cara que estava no estúdio da Transamérica, ouvindo “Palco”, viu a luz de uma máquina de 24 canais piscando e falou: “Vem cá, aquela luz piscando tem a ver com essa música? Porque senti uma perfeição no andamento.” Liminha também foi baixista da banda de Gil, com quem excursionou pelo mundo em palcos internacionais. Compuseram, juntos, “Vamos fugir”, marco da fase reggae de Gil, precursor do gênero no Brasil. Os dois, inclusive, gravaram com The Wailers, a banda de Bob Marley, no lendário estúdio Tuff Cong, na Jamaica (na foto da capa). Histórias que não acabam mais. Há no ar, portanto, um sentimento de que a obra de Gil está em boas mãos, quiçá nas melhores possíveis. — Gil já tem um consumo internacional, mas a ideia é criar mais projetos internacionais. Por exemplo, a Primary Wave tem o catálogo do Bob Marley, né? Gil e Liminha, juntos, foram lá para a Jamaica gravar com The Wailers. Imagina fazer uma parceria entre Gil e os filhos do Bob Marley? A ideia aqui é muito mais sobre o legado, e o Gil tem um legado incrível — finaliza Jason Eliasen. (Ricardo Ferreira)