Já imaginou sair de Londres e tomar um café em Paris menos de meia hora depois? Essa é a promessa de um projeto ferroviário futurista que vem sendo testado no norte da Holanda e que tenta transformar radicalmente a forma como as pessoas viajam pela Europa. Em Veendam, uma pequena cidade industrial, funciona o Centro Europeu do Hyperloop, um campo de testes dedicado a essa tecnologia. A ideia é simples no conceito e complexa na prática: cápsulas de passageiros viajariam dentro de tubos quase sem ar, suspensas por levitação magnética e alcançando velocidades superiores a 965 km/h. Nesse cenário, trajetos hoje longos poderiam encolher drasticamente, como a rota entre Paris e Amsterdã, que atualmente leva mais de três horas de trem. Segundo Kees Mark, diretor do centro de testes, a tecnologia pode mudar a própria percepção de distância. Em entrevista ao The Telegraph, ele afirmou que a possibilidade de estar em outra capital europeia em menos de uma hora representa “uma mudança enorme de mentalidade”. Um desafio técnico que pode mudar o transporte A ideia do hyperloop ganhou notoriedade em 2013, quando o empresário Elon Musk publicou um documento defendendo o conceito. Desde então, empresas e universidades passaram a desenvolver protótipos. Parte desses esforços ocorreu nos Estados Unidos, onde a Virgin Hyperloop chegou a realizar um teste com passageiros, mas encerrou as atividades em 2023 após o aumento dos custos. Na Europa, porém, os testes continuaram. O centro inaugurado em 2024 conta com um tubo de cerca de 400 metros onde cápsulas são suspensas por ímãs, em um sistema semelhante ao de trens de levitação magnética. Uma das vantagens, segundo engenheiros, é a ausência de contato físico com trilhos, o que reduz desgaste mecânico. Recentemente, os pesquisadores afirmam ter resolvido um dos principais obstáculos técnicos: como fazer as cápsulas mudarem de rota dentro do tubo. Em dezembro, engenheiros realizaram no local uma troca de faixa sem partes móveis, usando apenas o controle dos ímãs para redirecionar o veículo. O teste ocorreu a 88 km/h e foi considerado um passo importante para tornar o sistema viável em redes maiores. Custos, dúvidas e corrida global Apesar dos avanços, especialistas afirmam que os desafios ainda são grandes. Manter o vácuo em tubos extensos e evitar vazamentos é uma das dificuldades técnicas. O financiamento também pesa: construir linhas longas o suficiente para provar a segurança do sistema exigiria investimentos bilionários. Projetos de hyperloop já foram anunciados em países como Emirados Árabes Unidos, Índia e Itália. A China também investe na tecnologia e realizou testes de aceleração rápida com veículos de levitação magnética, além de operar uma pista experimental de quase dois quilômetros. Outro ponto de debate é a capacidade de transporte. Críticos argumentam que as cápsulas atuais são pequenas — um dos protótipos europeus leva apenas cinco passageiros — o que poderia manter as tarifas elevadas. Defensores da tecnologia respondem que o objetivo é operar centenas de cápsulas autônomas, circulando sob demanda e coordenadas por sistemas digitais dentro dos túneis. Enquanto engenheiros trabalham para transformar a ideia em realidade, o contraste ainda é evidente. Do lado de fora do centro de testes na Holanda, trens convencionais continuam passando pelos trilhos ao lado do túnel experimental — lembrando que, por enquanto, o futuro das viagens ultrarrápidas ainda está em fase de teste.