Passado o carnaval, que venham os ovos da Páscoa

Nem terminou a dispersão das campeãs e os anúncios já começam a entrar no meu celular: ovos de Páscoa, é claro. Como eles sabem para quem mandar? Quem entregou o meu perfil? Os fabricantes são ardilosos: deve ter algo na minha cara que me entrega para a inteligência artificial e seus capangas: “esse aí só precisa de um empurrãozinho”, sussurram entre eles. São matreiros. Um apagão carnavalesco: teve um baile na minha sala; a dúvida é se não acordei ou se participei Eis a questão: o que é a inteligência artificial perto da malandragem natural? O que os algoritmos não sabem é que, se tenho um fraco por doces, também tenho um, ainda maior, por pragmatismo. Talvez mesquinharia seja a palavra mais adequada. Já percebi há tempos que, dias depois da Páscoa, os ovos ficam bem mais baratos. Se esperar duas ou três semanas, é capaz de conseguir pela metade do preço. É só ter paciência. Não cometam o erro de comprar no próprio domingo. Isso é coisa de amadores. Os fabricantes sabem que o domingo de Páscoa é a apoteose da culpa: lá estão os que esqueceram da data ou, pior, os que receberam um ovo de presente e não tinham outro para retribuir. Quem nunca? São os que metem um “também comprei um para você, mas esqueci no carro, já vou pegar” e saem velozes & furiosos para o shopping mais próximo. Só vão conseguir aqueles do fundo da prateleira, tortos e quebrados. Diante da indisfarçável desolação de quem foi pego de surpresa e não quer ficar com fama de ingrato, o vendedor vai cobrar o dobro, ainda por cima fazendo aquela cara de “bem-feito, quem mandou?”. A questão é que falta mais de um mês para a Páscoa e tenho que atravessar esses dias sem cair em tentação. Puxado isso. Estou pensando numa megadose de Ozempic, ou Mounjaro. Ou talvez bloquear o meu cartão para qualquer estabelecimento que tenha cacau ou chocolate no nome. Um exílio temporário nas Cagarras não seria má ideia. Acontece algo parecido com os panetones no Natal: lá para outubro, novembro, os melhores, aqueles que vêm numa lata bonita, cheios de laços, custam cem, duzentos reais. Chega a segunda quinzena de janeiro e são vendidos pelo preço de duas mariolas. O problema é que todos nós juramos na virada entrar numa dieta sinistra e pega mal quebrar a promessa já no começo do ano. Muito cedo para admitir o fracasso. De qualquer maneira é um suplício ver aqueles panetones de bobeira, por vinte ou trinta reais e só ficar olhando. Poderíamos até colocar uma alfacezinha por cima, uma rúcula por baixo e dizer que é salada, mas até autoengano tem limite. Com o ovo de Páscoa é um pouco diferente. A promessa da dieta sinistra já foi esquecida e só nos resta a luta entre a gula e a pão-durice. De um lado o “que se dane”, o “vamos enfiar o pé na jaca” e o profético “só se vive uma vez”. Do outro o “deixa de ser otário”, o “é só esperar um pouco e pagar a metade” e o ainda mais profético “esse dinheiro pode te fazer falta no futuro” E aí, quem ganha essa guerra civil interior? No meu caso, os dois: acabo me rendendo no sábado, véspera da Páscoa, e pagando uma fortuna por um ovinho ridículo. Depois, culpado, nem olho as ofertas das semanas seguintes, para não me sentir ainda mais otário pelo que paguei. Taí, na luta entre o desejo e o pragmatismo, quem vence sempre é a culpa. Esta sim é sorrateira. E todo mundo sabe o que acaba com qualquer culpa: sim, um sorvete. De chocolate, de preferência. Mas tem que comer o pote inteiro, senão não funciona.