O esforço do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), para se manter com chances de disputar uma vaga no Senado Federal nas eleições de outubro tem colocado em risco os esforços por uma solução célere para o rombo bilionário nas contas do BRB, provocados pela fraude nas carteiras de crédito adquiridas do Banco Master. Master: Primeiras medidas de Mendonça reforçam PF e colocam Congresso em alerta Leia também: Vorcaro articula nos bastidores venda de hotel luxuoso em SP O banco estatal de Brasília corre contra o tempo para encontrar uma fórmula para salvar seu caixa. Na avaliação de aliados do próprio Ibaneis, se até o final de março, quando publicar seu balanço, o BRB não tiver alinhado uma solução para cobrir o rombo provocado pela compra das carteiras fraudulentas do Master, vai ser difícil escapar da intervenção ou da federalização. Antes mesmo da compra do Master ser rejeitada pelo BC, o BRB injetou R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito que depois se revelaram fraudadas. Ocorre que o GDF não tem dinheiro para aportar no banco, pelo contrário, fechou as contas de 2025 com um déficit de R$ 900 milhões. E o projeto enviado para a Câmara Distrital nesta terça-feira (24) sugere que o rombo já é de pelo menos R$ 6,6 bilhões – valor do empréstimo que seria concedido por um consórcio de bancos coordenados pela Caixa Econômica Federal, tendo como garantia imóveis do governo do DF. STF: Críticos de Código de Ética, Moraes, Gilmar e Toffoli não informam cachê de palestras Veja também: BRB tem dificuldades para convencer Faria Lima a comprar ativos entregues por Vorcaro Em Brasília, há quem calcule que o rombo pode vir a atingir R$ 15 bilhões, nas previsões mais pessimistas. Só que nem os imóveis ofertados seriam suficientes para cobrir o crédito e nem o governo de Ibaneis parece estar interessado em – ou ter condições de – aprová-lo agora no Legislativo distrital. Governador do RJ: A ofensiva de Cláudio Castro diante do risco de ser cassado pelo TSE E ainda: Os planos do partido de Bolsonaro ao entrar com ação no TSE contra desfile de Lula Do lado do governo federal, de onde virá o dinheiro, tem partido recados ao governador de que ele precisa “vestir as sandálias da humildade” e não só conceder mais garantias como assumir responsabilidade pelo prejuízo e aprovar o quanto antes a autorização dos parlamentares. Quanto mais demora para encontrar uma solução, mais cresce o rombo do BRB, o que aumenta as chances de o Banco Central decretar uma intervenção. De acordo com fontes próximas ao governador, nos bastidores ele já deu sinais de que preferia empurrar a definição sobre o rumo do banco para meados de abril. Assim, escaparia de assinar uma espécie de confissão de culpa bilionária pelo desastre financeiro provocado pelo negócio com o Master. Novo relator: Os recados de Mendonça no púlpito dias antes de assumir o caso Master E ainda: Senado se recusa a informar registros de entrada de Daniel Vorcaro Ibaneis pretende disputar uma das duas vagas a serem abertas no Senado em outubro e vem tentando deixar o abacaxi para a vice, Celina Leão (PP), descascar a partir de abril, quando ele vai se desincompatibilizar e ela vai assumir o governo do Distrito Federal. Só que Celina também é candidata nesta eleição, ao Palácio do Buriti, e já avisou que não aceita receber essa herança. No início da semana, deputados distritais ligados a ela sinalizaram que não votariam a favor do projeto de Ibaneis, assim como integrantes do PL de Jair Bolsonaro. Análise: Reações de Toffoli e Alexandre de Moraes no caso Master expõem o fosso entre o STF e a sociedade E mais: Operação da PF contra vazamento de dados de ministros do STF tem estranhezas e pontos obscuros Ibaneis, que costuma aprovar seus projetos com folgada maioria, recuou, enquanto o presidente do BRB, Nelson de Souza, corria atrás de dinheiro em Brasília para salvar o banco. O farto acervo de declarações públicas a favor da compra do Master pelo BRB pode representar uma tremenda dor de cabeça para o governador em um cenário já congestionado pelas pré-candidaturas de Michelle Bolsonaro (PL), Bia Kicis (PL) e Leila do Vôlei (PDT). Master: O valor no mercado do jato de luxo usado por Daniel Vorcaro Leia também: Voo de jatinho e contratos da ex-mulher de Toffoli aparecem em mensagens de Vorcaro O investimento foi defendido publicamente por Ibaneis em diferentes ocasiões sob o argumento de que o negócio, uma vez confirmado, renderia dividendos bilionários e nacionalizaria o banco estatal de Brasília. Para ele, o negócio não era um risco e sim uma “oportunidade”. “O BRB passará a estar, a partir desta fusão, entre os grandes bancos do país”, declarou o governador em agosto de 2025 ao sancionar a aprovação da Câmara Distrital para a compra da instituição privada. Após a deflagração da Operação Compliance Zero da Polícia Federal (PF) e a liquidação do Master, Ibaneis alegou que problemas podem ter existido nas negociações por conta de um “excesso de confiança” no então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que comandou as negociações. Ainda assim, saiu em defesa do aliado, que já tinha sido afastado pela Justiça. Bastidor: A aliados, Toffoli atribui a Lula entrega de relatório da PF sobre celular de Vorcaro ao STF Veja mais: Saída de Toffoli do caso Master complica situação de Alexandre de Moraes Em depoimento à PF no fim de dezembro, Vorcaro disse ter mantido “conversas institucionais” com o governador do DF na presença de outras pessoas a respeito das negociações para vender seu banco ao BRB. Ainda segundo o banqueiro, ele e o emedebista se visitaram em diferentes ocasiões. Ibaneis, por sua vez, afirmou que só esteve com Vorcaro uma vez e disse que não discutiram detalhes do negócio. Desde então, o governador é alvo de pedidos de impeachment no DF e sua pré-candidatura ao Senado tem sido colocada em dúvida por antigos aliados na direita. Na última terça-feira, Kicis anunciou uma chapa pura com a ex-primeira-dama na corrida para as duas vagas da Casa em uma composição com Celina. Choque entre narrativas: Vorcaro e Zettel discutiram pagamentos a Toffoli três anos após venda de cota em resort Toffoli: Relatório da PF tem ligações com Vorcaro, convite para festa e conversas sobre pagamento Como mostramos no blog na semana passada, o BRB fez uma força-tarefa na Faria Lima com o objetivo de compensar o rombo bilionário provocado pelas fraudes nas carteiras oferecidas pela instituição privada. Embora tenha conseguido vender algumas de suas próprias carteiras de crédito para recompor a liquidez, arrecadando R$ 5 bilhões, os emissários do BRB têm encontrado ceticismo e desconfiança em relação aos ativos deixados pelo Master. Além disso, o valor que teria sido prospectado não seria suficiente para resolver o problema, já que o BRB vem consumindo caixa desde que o Master foi liquidado e os executivos do BRB foram substituídos. Master: PF investiga suspeita de vazamento da ordem de prisão de Vorcaro Artigo: Alcolumbre aposta em aliados para escapar de mais um escândalo no caso Master Se tudo ocorrer conforme Ibaneis espera, a batata quente ficará por conta de Celina Leão, que por ora lidera as principais pesquisas da corrida pelo Palácio do Buriti. O negócio que o BRB vem oferecendo ao mercado é a compra de um pacote que mistura produtos mais atraentes, como as carteiras do Credcesta, pelos quais o banco de Brasília quer R$ 9 bilhões, com outros flagrantemente ruins — como R$ 2 bi em títulos de direitos creditórios da Tirreno, empresa que fraudou as carteiras vendidas ao BRB. Na lista estão também participações em empresas ligadas a Nelson Tanure envolvidas, como Ambipar, Oncoclínicas, Aliança e Liga, entre outros papéis que pouco animaram o mercado.