STF está ‘envolvido em um vasto escândalo’, escreve The Economist

A relação dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o Banco Master já repercute fora do país. “Começou com um banqueiro que gostava de supermodelos e jatos particulares”, inicia o artigo da revista britânica The Economist, publicado nesta terça-feira, 24, que aponta os vínculos do banqueiro Daniel Vorcaro com com “os juízes mais graduados do Brasil”. Segundo a revista, o tema ganha relevância diante do contexto eleitoral. “Candidatos de direita devem conquistar ampla vitória no Senado nas eleições gerais de outubro” e podem alcançar número suficiente de cadeiras para abrir processos de impeachment contra ministros do Supremo, diz o artigo. + Leia mais notícias da Imprensa em Oeste A direita, diz a The Economist, mantém “especial animosidade” contra a Corte por seu papel na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, sentenciado a 27 anos por suposta tentativa de golpe. A revista avalia que a Corte “tornou-se mais suscetível a críticas" e, por vezes, "tratou questionamentos a seus membros como ataques à própria democracia”. Toffoli deixa caso Master depois de revelação de negócios com família de Vorcaro — Brasília (DF), 2/2/2026 | Foto: Ascom/STF O foco recai especialmente sobre o ministro José Antonio Dias Toffoli. Designado por sorteio para relatar o caso Master, ele foi controverso desde o início. A revista lembra que, ao assumir o processo, viajou em jato particular com um advogado do Banco Master . Depois, reduziu prazos para testemunhas e restringiu o acesso de peritos da Polícia Federal ao material apreendido — decisão que seria revertida. Posteriormente, revelou-se que Vorcaro havia investido em um resort pertencente aos irmãos de Toffoli, empreendimento do qual o próprio ministro participa. O episódio ganhou novos contornos quando a Polícia Federal, depois de acessar o celular do banqueiro, entregou relatório confidencial ao presidente do STF apontando possível conflito de interesses . Depoimentos de Daniel Vorcaro à PF revelam sua versão sobre imóveis nos EUA, relações políticas e a crise do Banco Master | Foto: Reprodução/Jornal Grande Bahia O documento mencionaria ligações telefônicas, reuniões e mensagens sobre transações de 20 milhões de reais destinadas a empresa ligada ao ministro. Toffoli nega irregularidades e afirma que as acusações de parcialidade se baseiam em mera “especulação”, sustentando que os pagamentos foram declarados ao Fisco. Diante da pressão, afastou-se do caso. Outro nome citado é o do ministro Alexandre de Moraes. Diante de indícios de que sua mulher teria recebido contrato considerado incomum para representar o Banco Master, Moraes determinou investigação contra servidores da Receita Federal por suposto vazamento de dados. A operação incluiu buscas, uso de tornozeleiras eletrônicas e restrições de viagem. STF já era questionável antes do Master, avalia The Economist A revista questiona o uso do "inquérito das fake news ”, conduzido por Moraes desde 2019. "Diferentemente de grande parte das atividades da Corte, esse inquérito tramita sob sigilo", diz o texto. "À época de sua criação, justificou-se a medida pela gravidade das ameaças associadas ao ex-presidente Bolsonaro e seus apoiadores. No entanto, é difícil conciliar o uso do inquérito para investigar servidores fiscais." Contrato de R$ 129 milhões com mulher de Moraes e silêncio do casal sobre o caso são apontados como golpe na reputação do Supremo | Foto: Shuttterstock O texto recorda episódios anteriores em que o alcance do inquérito foi ampliado, como em 2019, quando Moraes o utilizou para encerrar investigação da Receita Federal sobre diversas autoridades, inclusive ministros do STF. No mesmo ano, Moraes determinou a retirada de uma reportagem da revista Crusoé sobre ligações entre Toffoli e o então presidente da Odebrecht. "Posteriormente, Toffoli anulou todas as multas aplicadas à Odebrecht, apesar de executivos da empresa terem admitido a existência de um departamento dedicado ao pagamento de propinas a políticos, no valor de US$ 800 milhões", frisou a revista. "A interação entre empresários e o Supremo é frequente", prossegue o artigo. A The Economista citou o evento anual promovido por Gilmar Mendes em Lisboa — apelidado de “Gilmarpalooza” — que reúne políticos, magistrados e empresários, alguns com processos no STF. A universidade ligada ao ministro teria recebido recursos da J&F, holding controladora da JBS. Reportagem censurada por Moraes | Foto: Reprodução/Crusoé O artigo destaca também a recorrência do nepotismo. A revista cita dados do jornal O Estado de S. Paulo , segundo os quais há 1.860 processos no STF ou no Superior Tribunal de Justiça em que parentes próximos de ministros do Supremo atuam como advogados principais. Em 70% dos casos, a atuação começou depois da nomeação do familiar à Corte. "A mulher de Moraes, que dirige um escritório de advocacia com o casal de filhos, ilustra essa dinâmica", diz a The Economist. Antes de Moraes ser nomeado ao STF, em 2017, o escritório tinha 27 processos no STF e no STJ. Diante do desgaste, o novo presidente do STF, Edson Fachin, propôs a adoção de um código de ética, com participação da ministra Cármen Lúcia na elaboração. A ideia é estabelecer diretrizes sobre conflitos de interesse, transparência financeira e conduta pública. Ainda assim, Toffoli e Moraes consideram a medida desnecessária. O post STF está ‘envolvido em um vasto escândalo’, escreve The Economist apareceu primeiro em Revista Oeste .