Expurgos de Xi no alto comando militar levantam dúvidas sobre prontidão da China para conflito, apontam estudos

A campanha anticorrupção conduzida pelo presidente da China, Xi Jinping, atingiu o mais alto escalão das Forças Armadas e já afastou mais de 100 oficiais desde 2022, segundo dois importantes centros de pesquisa internacionais. A dimensão da ofensiva levanta dúvidas sobre a prontidão operacional do Exército de Libertação Popular (PLA, na sigla em inglês), especialmente em cenários complexos como um eventual conflito envolvendo Taiwan. Entre expulsões e sumiços de generais: expurgos de Xi Jinping deixam vácuo no alto comando das Forças Armadas chinesas 'Salvar o futuro': veja vídeo em mandarim divulgado pela CIA para recrutar militares chineses insatisfeitos como espiões Um relatório publicado nesta semana pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS), com sede em Washington, aponta que 36 generais e tenentes-generais foram oficialmente expurgados desde 2022, enquanto outros 65 oficiais aparecem como desaparecidos ou potencialmente afastados. Ao considerar cargos atingidos mais de uma vez, 52% das 176 principais posições de liderança do PLA foram afetadas. “Esse número é impressionante e extraordinário, demonstrando a profundidade da campanha de Xi e a rotatividade sem precedentes na liderança do PLA”, escreveu M. Taylor Fravel, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), um dos autores do estudo. Já o relatório anual Military Balance, do International Institute for Strategic Studies (IISS), sediado em Londres, afirma que os expurgos deixaram “deficiências sérias” na estrutura de comando e provavelmente afetaram a prontidão das forças em processo acelerado de modernização. Contexto: reestruturação militar na China pode prejudicar ambições de Xi Jinping em relação a Taiwan “Do ponto de vista organizacional, até que as vagas sejam preenchidas, o PLA está operando com deficiências sérias em sua estrutura de comando”, diz o IISS. De acordo com o instituto, a ofensiva atingiu a cúpula da Comissão Militar Central, comandos regionais, setores de aquisição de armamentos e até a academia militar. A reestruturação ganhou força após investigações contra dois dos mais graduados generais do país. Zhang Youxia, aliado próximo de Xi, foi colocado sob investigação em janeiro. Antes dele, He Weidong foi expulso do cargo em outubro do ano passado. A ofensiva reduziu o comando militar supremo de sete integrantes a apenas dois: o próprio Xi e o vice-presidente da Comissão, Zhang Shengmin. Embora o combate à corrupção seja uma marca do governo Xi desde que assumiu o poder, há mais de uma década, a nova onda de expurgos atingiu inclusive aliados próximos e oficiais nomeados por ele. Sistema de médio alcance: Japão anuncia envio de mísseis à ilha próxima de Taiwan até 2031 e amplia tensão com China Segundo informações divulgadas pela CNN e pela Reuters, os comunicados oficiais geralmente citam violações da “disciplina e da lei”, mas analistas destacam a dificuldade de avaliar os reais motivos das decisões em uma instituição historicamente opaca. Impacto operacional Segundo o CSIS, a extensão das punições a escalões intermediários pode obrigar o governo a promover oficiais com menos experiência de comando e nenhuma vivência real em combate. Entre os cinco comandos de teatro do PLA, o expurgo de 56 vice-comandantes reduziu em mais de 33% o grupo de oficiais aptos a assumir essas posições. A analista Bonny Lin, coautora do estudo, observa que exercícios militares conduzidos pelo PLA ao redor de Taiwan demoraram mais a ser implementados em 2025 — 19 e 12 dias — em comparação com apenas quatro dias no ano anterior. Para ela, os expurgos podem ter impacto direto na prontidão. O IISS também alerta que, caso promoções anteriores tenham ocorrido por conexões pessoais e contratos militares tenham gerado falhas em armamentos, o efeito de curto prazo pode ser significativo. Ainda assim, o instituto descreve o impacto como “temporário” e avalia que a modernização das Forças Armadas deve continuar em ritmo acelerado. Initial plugin text O relatório ainda destaca que os gastos militares chineses vêm crescendo acima da média asiática, elevando a participação da China no total regional para quase 44% em 2025, ante uma média de 37% na década anterior. Taiwan no centro das preocupações De acordo com o estudo do CSIS, a escala da reorganização militar levanta questionamentos sobre a capacidade do PLA de conduzir uma invasão “incrivelmente complicada e arriscada” de Taiwan nos próximos anos, especialmente diante de esforços de dissuasão por parte dos Estados Unidos e do Japão. O Partido Comunista Chinês reivindica Taiwan como parte de seu território e não descarta o uso da força para assumir o controle da ilha. Para John Culver, pesquisador sênior da Brookings Institution, a aparente falta de confiança de Xi em seus comandantes pode ter efeito dissuasório. Em meio a ofensivas de Trump: Chanceler alemão Merz chega à China para discutir comércio e segurança “A demonstrada falta de fé no Exército é positiva, sob a perspectiva dos Estados Unidos e de Taiwan, para evitar uma invasão”, escreveu. Ainda assim, os relatórios ressaltam que o PLA mantém capacidade significativa. Operações menos complexas, como um bloqueio naval, poderiam ser executadas sem exigir coordenação altamente sofisticada. Analistas também alertam para outro risco: o ambiente de medo pode levar oficiais recém-promovidos a evitar transmitir más notícias à liderança. Relatório: China supera EUA na construção de submarinos e pressiona equilíbrio naval global “Isso é perigoso para a gestão de crises, pois pode tornar Xi irrealisticamente confiante nas capacidades militares em futuras contingências”, escreveu Thomas Christensen, do CSIS. Apesar das incertezas de curto prazo, especialistas apontam que, até o fim da década, novos comandantes podem ganhar experiência com equipamentos modernos e consolidar maior coesão interna. Nesse cenário, a campanha de “limpeza” promovida por Xi poderia resultar em um aparato militar mais alinhado ao líder e potencialmente mais confiante. Em discurso recente às Forças Armadas, Xi classificou o último ano como “incomum e extraordinário” e afirmou que o Exército passou por uma “forja revolucionária” na luta contra a corrupção, sinal de que a ofensiva, longe de arrefecer, segue no centro da estratégia política e militar de Pequim.