Análise: Moraes diz que milícia deu o recado com a 'decretação' de Marielle, ou seja, execução na 'linguagem miliciana'

O relator da ação penal que julga os réus acusados dos homicídios de Marielle Franco e Anderson Gomes, ministro Alexandre de Moraes, foi detalhista e incisivo na leitura de seu voto. Quem não conhece a milícia do Rio de Janeiro passou a conhecê-la em profundidade: seus tentáculos na política, na administração pública e na polícia — e, sobretudo, as entranhas de seu preconceito e de seu desprezo pela vida. Caso Marielle: traficantes ocupam região que ex-PM diz que receberia pelo assassinato da vereadora Análise: Advogados dos réus do caso Marielle tentam incriminar Cristiano Girão como possível mandante Ao se referir a um trecho da delação do assassino confesso Ronnie Lessa — “Ela (Marielle) está decretada” —, Moraes explicou: “É o decreto de morte na linguagem miliciana”. O fato de Marielle ser o obstáculo, a “pedra no caminho”, como definiu o relator, levou os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) e ex-deputado federal, respectivamente — a retirá-la do cenário político. O motivo seria seu crescimento na região de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, área de influência do clã Brazão. Por ser “mulher pobre e preta”, como destacou Moraes, Marielle teria sido considerada alvo mais vulnerável do que o então deputado Marcelo Freixo, à época do mesmo partido. Foi Freixo quem a projetou politicamente: ela iniciou sua trajetória em seu gabinete e tornou-se a quinta vereadora mais votada da capital nas eleições de 2016. O relator reforçou que a parlamentar foi executada em um episódio marcado por violência de gênero e motivação política. Se o interesse das milícias — verdadeiras organizações criminosas armadas com atuação política — era eliminar Marielle para enviar um recado não apenas ao PSOL, mas a qualquer força que se opusesse à expansão de seu poder territorial e institucional, o voto de Moraes eixa claro que o crime teve finalidade política: preservar domínio e influência. Não por acaso, onde a milícia atua, a lei do silêncio costuma prevalecer. O julgamento, nesse contexto, também carrega um simbolismo institucional — o de afirmar que a democracia reage. Vamos esperar o recado do Supremo Tribunal Federal.