Caso Marielle: após o julgamento, família de vereadora chora e os Brazão reclamam de injustiça

O julgamento que condenou os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes terminou sob forte comoção. Após a proclamação do resultado, familiares e amigos das vítimas se abraçaram e choraram no plenário, em um desfecho carregado de simbolismo político e pessoal. Caso Marielle: STF condena por unanimidade irmãos Brazão a 76 anos e três meses de prisão pelo assassinato da vereadora Análise: 'Esse processo me faz mal', diz ministra Carmén Lúcia sobre o caso Marielle Assim que a sessão foi encerrada, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, abraçou os pais, Marinete e Antônio, e a sobrinha, Luyara. A cena foi acompanhada por lágrimas e um sentimento de alívio. Fernanda Chaves, assessora de Marielle que sobreviveu ao atentado, também foi cercada por abraços de parentes e amigos que acompanharam o julgamento. A mãe de Marielle sorriu no momento em que as penas foram fixadas. Antes, ela chegou a ter um pico de pressão e precisou ser atendida pelos brigadistas do STF. Também passaram mal o pai de Marielle e a filha da vereadora. — A gente sai daqui com o coração acalentado. A gente tem hoje uma resposta, e eu agradeço muito, muito profundamente — disse Marinete. —Quero dizer que é possível, sim, acreditar em uma instituição séria, com dignidade, com respeito, com uma democracia plena. Porque, se não fosse isso, nós também não estaríamos aqui. Do lado da acusação, o vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateubriand, responsável pela denúncia da PGR que resultou nas condenações, desceu da área reservada aos ministros para cumprimentar os parentes das vítimas. Familiares dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, condenados como mandantes do crime, também acompanharam o julgamento, mas deixaram o plenário logo após o encerramento. Durante a fixação das penas, Pedro Brazão começou a chorar, ficou com o rosto visivelmente vermelho e foi consolado pela esposa. Ao longo da leitura dos votos dos magistrados, Anielle e Luyara seguraram terços e ouviram atentamente as argumentações. No momento do voto da ministra Cármen Lúcia, tia e sobrinha concordaram com a ministra quando ela mencionou a ideia de que o país não pode naturalizar “corpos descartáveis”. Já o irmão dos Brazão passou quase todo o julgamento com as mãos unidas, como se estivesse rezando, e segurando um escapulário. Também na plateia, o ex-deputado Marcelo Freixo, hoje à frente da Embratur, reagiu a citações que um dos advogados fez sobre o depoimento do miliciano Beto Bomba. — Orlando Curicica não pode e Beto pode? — rebateu Freixo. As defesas haviam contestado os relatos de Curicica, também apontado como miliciano. Em outro momento durante o voto, Moraes afirmou que os envolvidos “acharam que (o crime) não teria repercussão”. Na plateia, foi possível ouvir Freixo comentar: — Acharam que não teria consequência. Covardes. Após o julgamento, Anielle afirmou que a decisão representa um recado: — Isso também é um recado para uma parcela da sociedade que debochou da minha irmã. A violência política de gênero e raça precisa ser parada. Antes de pensarem ou falarem qualquer coisa sobre a índole de Marielle, vão ter que lidar com os fatos. E os fatos são os que vocês viram aqui: todas as condenações, os mandantes sendo condenados, e, acima de tudo, a memória da família, o legado de Marielle e a luta, que para a gente não para aqui. Viúva de Marielle, Monica Benicio publicou uma foto com a vereadora nas redes sociais e escreveu: “Temos as respostas sobre sua morte. Agora temos toda a sua vida como inspiração”. Repercussão à direita Diferentemente do que ocorreu entre lideranças da esquerda, não houve manifestações públicas nos perfis de políticos de direita. Nem mesmo o deputado estadual Rodrigo Amorim (União), que em 2018 exibiu sobre um palanque uma placa em homenagem a Marielle partida ao meio, comentou. A família de Domingos e Chiquinho Brazão, por outro lado, se posicionou ao longo dos dois dias de julgamento. Manoel Brazão, irmão mais velho dos réus, foi um dos mais ativos nas redes sociais, assim como Stephany Brazão, nora de Chiquinho: “Não é possível que nosso país virou uma ditadura, onde ele decide o que fazer com a vida das pessoas. Isso não existe”, publicou Stephany. Montagens com imagens dos ministros da Primeira Turma do STF e a mensagem “Injustiça com os irmãos Brazão” foram compartilhadas.