'A cobrança imposta aos homens, de que eles têm de ser durões e viris, é tóxica', diz Gianecchini, que estreia peça no Rio

Uma parada militar que reuniu milhares de pessoas nas ruas de Roma em maio de 1938 para comemorar a aliança política entre Benito Mussolini e Adolf Hitler é o pano de fundo para um encontro transformador entre um radialista gay antifascista e uma dona de casa oprimida e pró-sistema em “Um dia muito especial”, que estreia amanhã no Teatro Claro Mais, em Copacabana, após duas temporadas que reuniram mais de 25 mil espectadores em São Paulo. Estrelada por Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall, a montagem é uma adaptação do clássico de 1977 do cineasta italiano Ettore Scola, protagonizado pelos astros Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Veja a programação: Theatro Municipal abre temporada 2026 com concerto em homenagem a Mozart Ingressos à venda: 'Carmina Burana ballet', que une dança e tecnologia, chega ao Rio Com direção de Alexandre Reinecke, que adaptou a obra a partir da tradução de Célia Tolentino, esta é a segunda montagem brasileira do texto — em 1986, José Possi Neto dirigiu Tarcísio Meira e Glória Menezes para contar a história de uma amizade inesperada entre vizinhos de prédio. Desta vez, o projeto ganha cara nova, menos literal. — Tenho essa peça na cabeça há uns 20 anos, e sempre pensei que deveria ser feita só com o casal, Gabriele e Antonietta, e a zeladora, uma personagem muito pontual (interpretada por Carolina Stofella), mas que representa o fascismo, a submissão, o recalque — conta o diretor, que procurou ressaltar o lado cômico de algumas cenas. Cena do filme "Um dia muito especial", de Ettore Scola Divulgação A ideia sempre foi trabalhar com Gianecchini, que topou a empreitada mesmo em meio a um período de descanso na Itália. — Eu o convidei e ele disse: “Olha, se eu me apaixonar pela peça, eu volto”. No dia seguinte, ligou me xingando porque ia ter que voltar, e resolvemos produzir juntos — lembra Reinecke. Para Maria, o convite para participar do projeto surgiu no momento ideal. Dando um tempo da atuação desde a pandemia, a atriz queria voltar aos trabalhos no palco, e com uma peça que tocasse em temas urgentes. — O fascismo estava muito mais longe quando o filme nasceu, porque existia um consenso de que aquela era uma página horrorosa da História que nunca mais deveria voltar. Se formos pensar que hoje a gente tem um cara como o Trump ocupando o lugar de poder mais importante na geopolítica mundial, vemos que estamos quase no mesmo lugar de quando a história se passa. Então a peça serve como uma ferramenta de manutenção da memória, mas também dialoga com o momento atual — reflete a atriz. Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall em cena de 'Um dia muito especial' Divulgação/Priscila Prade A potência do encontro Na trama, enquanto a personagem de Maria, Antonietta, começa o dia servindo o marido e preparando os seis filhos para a passeata fascista, Gabriele, que acaba de ser demitido por conta da sexualidade e teme ser preso pelo regime, está deprimido e cogita o suicídio. Tudo muda quando o pássaro dela foge e vai para o apartamento dele, dando início ao encontro entre os vizinhos que nunca tinham se visto. Durante uma tarde inteira, os dois trocam confidências, sonhos e afetos, e desenvolvem uma cumplicidade tão intensa quanto improvável. Para Gianecchini, este é o trunfo da trama: — O que mais me comove na peça é a relação entre esse homem e essa mulher que são completamente opostos naquele contexto sociopolítico. A tendência é um não ouvir o outro, um julgar o outro, e eles não fazem isso, eles se acolhem e se ouvem para além dos preconceitos e estereótipos. Eles se conectam com o lado humano um do outro. Do diálogo entre os personagens surge uma paixão, que começa platônica e evolui ao longo das cenas, o que abre margem para reflexões sobre as relações afetivas. — A sexualidade também passa por afetos, pode vir de vários lugares. E também é contraditória, como tudo no ser humano. Na peça, eles vivem um apaixonamento que dura apenas um dia, mas que vem do envolvimento profundo naquela conexão — comenta Gianecchini, que se identifica com a ideia de sexualidade fluida. Maria Casadevall e Reynaldo Gianecchini em cena da peça "Um dia muito especial" Divulgação/Priscila Prade Para Maria, é a partir dessa paixão que Antonietta, uma mulher subjugada ao marido, pouco instruída e sexualmente reprimida, poderia começar um processo de transformação. — A gente vê a violência simbólica, física e psicológica que ela sofre através do corpo dela, reprimido, limitado. E o momento de libertação vem a partir desse encontro. Ela coloca tudo em risco para viver aquilo e tenho certeza que aquela tarde a transforma. Ela pode continuar no mesmo lugar, mas com certeza já é com outra consciência — reflete a atriz. Do lado de Gabriele, a conexão com Antonietta, uma mulher com valores tão distintos e experiências tão limitadas de vida, também o liberta de certas amarras. Em certo momento, o personagem faz um discurso catártico, em que exprime a pressão a que os homens, especialmente os fora do padrão, estão sujeitos na sociedade patriarcal, ainda mais repressora nos anos 1930. — Essa cobrança que a sociedade sempre impôs aos homens, de que eles têm de ser durões e viris, e que não podem ser vulneráveis, é muito tóxica. É uma cobrança de performance que está atrelada a um modelo machista de sociedade, que é ainda muito opressora. Isso é um ponto que eu divido bastante com o Gabriele. Quando faço essa cena, sempre mexe comigo — diz Gianecchini. Serviço Onde: Teatro Claro Mais, Copacabana. Quando: sex, às 20h. Sáb e dom, às 17h. Até 29 de março. Estreia sexta (27). Quanto: de R$ 120 a R$ 200. Classificação: 12 anos.