Os quatro ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que formam a Primeira Turma da Corte votaram, nesta quarta-feira, pela condenação dos cinco réus julgados por envolvimento no caso Marielle Franco, vereadora morta no Rio, em março de 2018. Presidente da turma, Flávio Dino, por exemplo, mencionou que colaborações premiadas foram mal aplicadas, no geral, mas ressaltou que as usadas no caso — de Élcio de Queiroz e Ronnie Lessa — convergem, rebatendo questionamento feito pelas defesas dos réus. Esse foi um dos trinta pontos de corroboração citados pelo magistrado, que, em seu voto, elencou dez deles. Análise de Vera Araújo: STF não tolerará que outras “Marielles” e “Andersons” sejam assassinados pela ação de uma milícia organizada Mortes de Marielle e Anderson: STF condena por unanimidade irmãos Brazão a 76 anos e três meses de prisão pelo sassassinatos — A colaboração premiada tem valor absoluto? Não. De outro lado, a colaboração premiada tem desvalor absoluto? Não (...) Nós somos chamados, na verdade, a fazer um juízo de corroboração a partir dos fatos narrados pelos colaboradores — disse Dino, afirmando que essa seria a "essência" de seu voto. Depois de afirmar ter lido e relido as duas colaborações, Dino analisou que Élcio descreveu a dinâmica do dia do crime, enquanto Lessa fez uma "narrativa mais ampla" por "estar um degrau acima na cadeia de mando". 'Um dos assassinatos mais chocantes': Imprensa internacional repercute condenação de irmãos Brazão no caso Marielle e cita 'submundo da política' no Rio Entre seus pontos, o ministro lembrou ainda que Edmilson Oliveira da Silva, o Macalé, é "colocado na cena" por Lessa e Élcio, o que, para o presidente da Primeira Turma do STF, traz uma "credibilidade adicional" aos relatos dos dois. Além disso, diz que "não há nenhuma dúvida" dos "liames subjetivos" entre os irmãos Brazão, Macalé e Robson Calixto, o Peixe, ex-assessor de Domingos, condenado por organização criminosa. —Não são uma construção mental. Imaginemos que o colaborador tivesse dito que o mando teria partido de uma autoridade religiosa, um bispo (...). Ora, os liames subjetivos estariam provados? Não, e isso obviamente retiraria o peso da corroboração. O que confere peso às colaborações é a corroboração dos liames subjetivos que estão exaustivamente provados, inclusive com atos publicados nos diários oficiais — argumentou Dino, rebatendo uma fala do advogado Cléber Lopes, que defende Chiquinho Brazão, que tratou a delação de Lessa como uma "criação mental" na véspera. Flávio Dino foi o último ministro da Primeira Turma a votar no julgamento dos réus do caso Marielle Brenno Carvalho / Agência O Globo 'Queima de arquivo, misoginia e racismo': as frases do voto de Moraes no julgamento do caso Marielle O ministro elencou também o depoimento do miliciano Orlando Curicica como algo válido, mesmo como integrante da organização criminosa: — Quem estuda a literatura da Operação Mani Pulite na Itália, ou do desbaratamento das organizações mafiosas na Itália, sabe que há intensamente a participação dos próprios integrantes do bando no fornecimento de elementos de convicção para atuação das autoridades estatais — disse Dino, que ainda criticou a investigação do caso Marielle como "falha", "lenta" e "negligente", graças a "elementos de muito poder": — Não existe crime perfeito. Existe crime mal investigado. Eu diria que esse crime foi pessimamente investigado. E foi pessimamente investigado, no começo, de modo doloso — completou. Cármen vota para condenar irmãos Brazão: 'Quantas Marielles o Brasil vai deixar que sejam assassinadas?' 'Quadro estarrecedor' mostrado pelas provas Durante a sessão, o ministro Cristiano Zanin afirmou que o acervo de provas revela "um quadro estarrecedor" de captura do Estado por uma rede criminal complexa, com profunda penetração nos poderes públicos nas esferas municipal e estadual. Segundo o magistrado, essa organização "controla a exploração imobiliária, as atividades de segurança, o fornecimento de serviços básicos e o direcionamento de votos sob a mira de fuzis". — O acervo probatório desses autos, assim como em ações penais conexas de outras investigações, desvela o quadro estabelecedor de captura do Estado por uma rede criminal complexa, com profunda penetração nos poderes públicos do Estado e também do município do Rio de Janeiro — disse Zanin. Já o relator do caso, o ministro Alexandre de Moraes, afirmou que as declarações de Ronnie Lessa, junto com as provas que confirmam os relatos, se mostraram "compatíveis com a dinâmica objetiva dos fatos”. — A colaboração mostra, e a partir disso a Polícia Federal seguiu nas investigações, a motivação do crime e a forma de pagamento. E se nós analisarmos em conjunto, elas estão totalmente interligadas — afirmou Moraes. Initial plugin text