Fúlvio Stefanini tem dificuldade em pôr a régua sobre o tempo. O ator reconhece — mezzo indiferente, mezzo conformado — que cultiva uma carreira teatral “grande e vasta”. Mas ele logo desfaz as teias do passado, sem se ater a cálculos milimétricos acerca de seus passos pregressos, para avisar que prefere mirar o futuro. O que será que será? Aos 86 anos de vida e sete décadas de carreira, o artista responde que está “sempre com um plano aqui e outro ali”. É isso, aliás, o que o mantém com fôlego, como sublinha. Desabafo: Bianca Bin detalha guinada em carreira na TV após crise de burnout: 'Estou nadando contra a corrente' 'Credores': Grupo Tapa rompe hiato de dez anos sem se apresentar no RJ com longeva montagem de August Strindberg — Eu não paro. A verdade é esta: nunca parei. Por isso, os 70 anos de carreira passaram muito rapidamente. Nem percebo muito bem o tempo, sabe? — analisa. — O importante, para mim, é continuar, não desistir e ter uma determinação com o trabalho. Sempre fiz isso na vida. E vou continuar a fazer até onde der. O teatro é a minha paixão. Galerias Relacionadas Encerradas as filmagens do longa inédito “Os corretores”, com direção de Andrucha Waddington e roteiro de Fernanda Torres (também no elenco) — comédia que chegará à telonas no segundo semestre —, Fúlvio está feliz da vida em encenar no Rio de Janeiro, pela primeira vez, um de seus maiores sucessos nos palcos. Initial plugin text Em cartaz desde 2016 em São Paulo, com pausas na pandemia, o espetáculo “O pai” é definido pelo artista como “um prêmio que caiu no meu colo” — e ele nem se refere ao fato de ter sido laureado, por esse papel, com o troféu de melhor ator no Prêmio Shell, há dez anos. Baseada no texto do francês Florian Zeller, que adaptou e dirigiu o filme homônimo protagonizado por Anthony Hopkins em 2021, a peça acompanha as agruras de uma mulher às voltas com um impasse depois de o pai ser diagnosticado com Alzheimer: entre cuidar da figura paterna em tempo integral e consumar o plano de viver junto a um novo amor, o que fazer, afinal? Cena da peça 'O pai', estrelada por Fúlvio Stefanini João Caldas Filho/Divulgação A montagem — que estreia na próxima sexta-feira (27) no Teatro TotalEnergies, na Glória, em temporada até 22 de março — tem o “dramalhão” como espinha dorsal da trama, mas não abre mão da leveza e do bom humor. Completam o elenco Lara Cordula, Fulvio Stefanini Filho, Deo Patricio, Carol Mariottini e Leo Stefanini, que assina a direção. — Meus dois filhos (frutos do relacionamento com Vera Stefanini, com quem é casado desde 1968) estão comigo no palco. É quase uma reunião familiar em cena — conta Fúlvio. — E é tão bom fazer um personagem interessante para um ator da minha idade. Desperta emoção, comoção... E a plateia fica muito envolvida. Longe da TV Afastado da televisão desde 2013, quando participou da novela “Amor à vida”, da TV Globo, ele lamenta que artistas de sua geração recebam cada vez menos propostas para papéis de destaque em folhetins. Em dezembro de 2025, juntou-se a nomes como Ana Lúcia Torre, Nathalia Timberg, Suely Franco e Stenio Garcia, entre outros, na campanha “Eu quero veteranos na TV”. Embora afaste qualquer traço nostálgico de sua personalidade, Fúlvio defende que se manter ativo significa também fortalecer a memória da cultura do país. — A nossa história, minha e de colegas de idade parecida, é importante em relação ao que vem pela frente. Somos um elo com a nova geração? Não sei... Acho que sim, né? Deveríamos ser — hesita. — Sinto que o Brasil precisa se preocupar mais com a manutenção de suas memórias. A história de tudo no país ficaria mais rica assim. Em 'Alma gêmea' (2005), Fúlvio Stefanini deu vida ao personagem Osvaldo: patriarca e dono de pensão Divulgação/TV Globo Com mais certezas do que dúvidas a esta a altura da profissão, o ator se surpreende com a ascensão instantânea de celebridades da internet ao posto de atores em grandes produções. Ele até entende a lógica que impulsiona tal prática. Mas não concorda. — Agora tudo é rede social! Então, estão aí pegando os chamados “influenciadores”. Como que chamam mesmo? São influencers, né? — complementa. — Só estão colocando nas novelas porque essas pessoas demonstram ter uma grande penetração entre o público. Mas o objetivo, no fim das contas, é apenas comercial. Do ponto de vista artístico, o resultado é zero. As escolhas ficam em cima de quantos seguidores alguém tem. Isso é pobre. Galerias Relacionadas Rosto, corpo e voz para tipos memoráveis em novelas — do sedutor Tonico Bastos, de “Gabriela” (1975), ao patriarca e dono de pensão Osvaldo, de “Alma gêmea” (2005), da TV Globo—, ele afirma que sente saudade, sim, dos estúdios televisivos. Ao lembrar da rotina “industrial” de gravações, porém, logo faz uma ressalva: — Estou com uma idade avançada, e novelas exigem um processo longo e exaustivo — reflete. — Quando participei da campanha a favor dos veteranos, não foi nem pensando em querer voltar à TV. Aderi correndo à iniciativa só porque acho que a gente precisa mesmo manter a memória da arte viva. Se não for assim, daqui a pouco não saberemos nem onde tudo começou. Início como figurante Filho de um italiano que ganhava o pão como propagandista de laboratórios farmacêuticos e de uma dona de casa brasileira de ascendência italiana, Fúlvio se interessou pelas artes cênicas na adolescência, quando era fã declarado de Oscarito e Grande Otelo e “maratonanista” de todos os filmes da produtora Atlântida. O ator Fúlvio Stefanini caracterizado como o protagonista da peça 'O pai' João Caldas Filho/Divulgação Aos 15 anos, ele tentou se inscrever no curso de formação de atores da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, a USP, mas ouviu que menores de idade não eram aceitos ali. Bateu, então, na porta da extinta TV Tupi, onde começou a trabalhar como figurante junto a colegas com o mesmo cargo (e a mesmíssima aspiração artística), entre os quais Claudio Marzo (1940-2015), Rolando Boldrin (1936-2022), Walther Negrão e Chico de Assis (1933-2015), todos futuros medalhões do teatro e da teledramaturgia. — Fui ser figurante para aprender mesmo. Acabei não fazendo escola de atuação, nos termos formais, porque já estava no meio. E aí não parei mais — resume. O divisor de águas na carreira aconteceu em 1965, quando integrou o elenco do espetáculo “Quem tem medo de Virginia Woolf?” ao lado de Cacilda Becker, Walmor Chagas e Lilian Lemmertz. Sucesso instantâneo, a montagem pavimentou a relação permanente do artista com os tablados. — Acho que é só no teatro que um ator se mostra por inteiro. Naquele ambiente, não há nenhum recurso tecnológico para melhorar o trabalho. Ou faz ou não faz — assevera ele, reconhecendo a necessidade de um movimento mais contundente em prol do rejuvenescimento das plateias. — Hoje tudo no mundo parece acontecer através de tecnologias. Então, esta arte mais pura e primitiva, que é o teatro, acaba ficando para trás. Mas, ao mesmo tempo, é impressionante ver a força que o teatro ainda sustenta. Quando o público consegue se envolver com a peça, a força do teatro supera qualquer tecnologia, sabe? 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