No início de “Adorável trapalhão — O musical”, um menino que representa Renato Aragão quando criança se encontra com Didi, o personagem que consagraria o ator, e ouve uma espécie de profecia: “Eu vejo a comédia em você.” O momento indica que as histórias de criador e criatura passarão aos olhos do público nas duas horas seguintes. 'Every brilliant thing': Daniel Radcliffe queria uma pausa da Broadway. Então ele leu esta peça Bianca Bin: Atriz detalha guinada em carreira na TV após crise de burnout: 'Estou nadando contra a corrente' A peça, que fez temporada em São Paulo em 2024, estreia hoje no recém reaberto Teatro Sesc Ginástico, no Centro do Rio. O ápice do espetáculo é a entrada em cena, na parte final, do próprio Renato Aragão, aos 91 anos. Ele também esteve na maioria das apresentações na capital paulista. — A arte é a minha vida. E poder continuar fazendo o que eu amo, aos 91 anos, é um presente de Deus — afirma o comediante. — Eu me renovo cada vez que tenho a oportunidade de estar no palco, seja da TV, do cinema ou do teatro. Estar perto do público é tudo o que me faz feliz. Os responsáveis pela montagem procuram manter mistério, mas é sabido que a participação de Renato está ligada ao Criança Esperança, o projeto da Rede Globo em parceria com a Unesco que tem o ator como rosto principal. “Adorável trapalhão” tem texto de Marilia Toledo e direção do premiado José Possi Neto, que não foi um espectador assíduo dos Trapalhões. — Vi pouco na Globo, mas tinha visto na TV Excelsior (nos anos 1960) com Wanderley Cardoso, Ivon Curi e Ted Boy Marino — recorda ele. — Eu estava com vontade de fazer mais um musical brasileiro. E é uma história muito popular, fala diretamente com qualquer classe social ou idade. Os Trapalhões, cada um com uma personalidade diferente, cumpriram a tipologia do imaginário brasileiro. Atores caracterizados para a peça "Adorável trapalhão" Divulgação Ao assumir o projeto, Possi leu biografias, viu filmes, assistiu a vídeos no YouTube e se valeu de várias referências, como filmes de Federico Fellini e pinturas de Marc Chagall, para criar uma encenação muito colorida e com referências ao circo. O quarteto de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias está em grande parte das cenas. — O espetáculo conta como cada um entrou na vida do Renato e como vai se formando esse quarteto do humor — explica o diretor. — Também tem o rompimento que aconteceu entre eles e a reconciliação, mas com a dinâmica rápida de musical. As composições são de Marco França e Fernando Suassuna — mas o famoso tema do programa de TV, criado por Zé Menezes, é tocado —, a direção musical é de Diego Salles e a direção de movimento é de Alonso Barros. Renato diz ter ficado emocionado com as cenas dos Trapalhões: — Tenho muito orgulho de tudo o que pudemos viver juntos, eu e meus companheiros. A vida me deu esse presente: construir uma história com pessoas excepcionais como os meus parceiros dos Trapalhões. Fico muito alegre em reviver tudo o que faz parte dessa história e, especialmente, ver as pessoas se emocionando e se divertindo nessa viagem de recordações. Cena de "Adorável trapalhão", musical que homenageia Renato Aragão Divulgação/Pedro Dimitrow A peça é a realização de um sonho de Rafael Aragão, o ator que interpreta Renato/Didi. Com esse nome, é comum as pessoas pensarem que há um parentesco, mas não há. Ou, ao menos, não havia. Alegando que os Aragão são apenas uma família, Lílian, mulher de Renato, fez uns cruzamentos e está certa de que os dois atores são parentes distantes. Renato é de Sobral. Rafael também é cearense, mas de Fortaleza e morou em Pacajus, na região metropolitana da capital do estado. O pai queria que ele fosse professor e a mãe o queria militar. Ele estudou Administração, mas largou a faculdade aos 23 anos para se mudar para São Paulo e para as artes cênicas. Aos 40, já atuou em musicais como “Silvio Santos vem aí”, “Ney Matogrosso: homem com H”, “O musical Mamonas” e “Uma babá quase perfeita”. Após ler uma biografia de Renato e um livro sobre os Trapalhões, idealizou o projeto. — Eu queria contar a história de um cearense que sai da sua terra para tentar conquistar o Brasil e conquista. Passou por preconceitos, mas deu a volta por cima através do humor — diz Rafael, reforçando o desejo de “colocar o Nordeste como protagonista”. Ele é um dos sete atores que estiveram na temporada paulistana e também estão no Rio. Outros nove entram agora. Os demais Trapalhões são Thadeu Torres (Dedé), Rupa Figueira (Mussum) e Vicenthe Delgado (Zacarias). No início do espetáculo, todo o elenco forma, segundo ele, uma “trupe de circo quase abandonada”. — São Charles Chaplin e Oscarito, referências muito importantes para o Renato, que dão vida a essa trupe, e ela vai contar a história dos Trapalhões. Rafael destaca a cena em que se senta no palco e encara a plateia. É quando vê “muitos marmanjos” emocionados com uma história que marcou a infância deles. A emoção aumenta quando Renato aparece. Quem ainda não assistiu a “Adorável trapalhão” é Dedé Santana. Rafael diz que o convidou já em São Paulo e que o espera no Rio.