A definição da chapa da direita para a eleição do Rio, anunciada na terça-feira com a presença do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), marca o fim do acordo que o governador Cláudio Castro (PL) e o prefeito da capital e pré-candidato ao governo, Eduardo Paes (PSD), buscavam construir para este ano. Uma parte central das conversas era promover a vitória do secretário estadual de Casa Civil, Nicola Miccione, na eleição indireta que o estado tende a enfrentar nos próximos meses, mas essa possibilidade ficou reduzida. PL Antifacção: Ministro diz que governo apoiou versão de Derrite por falta de opção: 'Ou cruzávamos os braços ou buscávamos melhorar' 'Prioridades em dia': Nikolas Ferreira é criticado após atacar influenciador que 'fez o L' em meio a tragédia em MG Apesar de os artífices da construção eleitoral não terem se pronunciado de forma explícita sobre a disputa indireta depois do encontro que consolidou a chapa encabeçada por Douglas Ruas (PL) para outubro, a leitura geral na política é que o próprio Ruas acabará sendo o candidato ao mandato-tampão. Isso daria a ele visibilidade e o poder da caneta antes de encarar a campanha contra Paes. O agora pré-candidato disse a interlocutores nos últimos dias que não se sente “preso” à necessidade de conquistar o governo indiretamente antes da campanha, mas apontou que é importante eleger para o mandato-tampão alguém “da política”. Também pesa a favor dele o fato de que quem sentar na cadeira só poderá concorrer em outubro ao próprio cargo de governador, o que afasta outros deputados — que teriam que ficar sem mandato a partir do ano que vem. Desde terça, o discurso dos formuladores da chapa é que a definição do nome para a indireta só sairá um pouco adiante, quando Castro de fato se desincompatibilizar para poder disputar o Senado. Ele tem até 4 de abril para fazê-lo. Um projeto de lei foi aprovado na Casa a fim de balizar a futura disputa, mas a tendência é que pontos do texto sejam judicializados. Ao mesmo tempo, Paes retomou na semana passada as críticas duras endereçadas ao governo, que tinham arrefecido depois da megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, a mais letal da história do país, que reabilitou a popularidade de Castro em outubro de 2025. — As pessoas começaram, no Rio, a confundir política com associação para outros fins — disse o prefeito no evento em que recebeu o apoio do MDB para a eleição. — Essas outras forças também vão estar unidas. Como falta (a eles) política, mas outros motivos o motivam, eles vão estar unidos para tentar manter o poder. Após o evento, em entrevista à imprensa, Paes disse ainda que o “governo atual” tem “cumplicidade com o crime, com a tomada de territórios”. Perfil mais técnico No cenário que Castro e o prefeito vislumbravam até pouco tempo atrás, o governador conseguiria emplacar Miccione, um “técnico” que se filiou ao PL para poder entrar no jogo. Ele assumiria o mandato-tampão e não tentaria a reeleição em outubro, relegando a administração do Palácio Guanabara a um perfil mais burocrático e com papel secundário durante a campanha. Paes se beneficiaria de não enfrentar um incumbente, enquanto Castro seria menos atacado por ele. A consolidação de Flávio como presidenciável, no entanto, tornou quase impossível a configuração. Com berço político no Rio, o filho de Jair Bolsonaro quer um palanque com o máximo de força, o que passa por colocar na cadeira de governador, já via eleição indireta, o futuro candidato. Os envolvidos na aliança da direita evitam dar declarações que tirem de Castro um papel relevante nas decisões, mas admitem que o governador apresenta fragilidades na esteira dos problemas que enfrenta na Justiça. Em 10 de março, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) retoma o julgamento do caso Ceperj, que pode cassá-lo e torná-lo inelegível. Ele é acusado de abuso de poder político e econômico por causa do suposto esquema de contratação irregular e sem transparência de funcionários que seriam, na verdade, meros cabos eleitorais da campanha de 2022. Mesmo que consiga outra vez postergar uma decisão da Corte, Castro deixou de ser, no PL, o principal controlador do processo sucessório. Consequentemente, a solução Miccione fica enfraquecida. Na construção do candidato de outubro, Flávio foi convencido de que a melhor opção era aquela que “unificava a política”, o que o levou a escolher Ruas — ele é deputado estadual, secretário de Cidades e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson (PL). Antes, o senador vinha tentando viabilizar o chefe da Polícia Civil, Felipe Curi. A análise pró-Ruas parte do princípio de que os votos ideológicos chegarão de qualquer jeito, já que a tendência é que o bolsonarismo só tenha a candidatura dele como opção, e que agora é preciso ampliar o perfil. Essa leitura se baseou em pesquisas que foram apresentadas ao presidenciável. Além de Ruas, a chapa tem o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa (PP) na vice, Castro para o Senado e o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União), na segunda vaga de senador. Somados, PL, PP e União comandam 51 dos 92 municípios do Rio, lista que inclui vários dos mais populosos do estado, apesar de a aliança de Paes com o MDB ter a capital e o segundo maior colégio eleitoral, Duque de Caxias, como barreira de contenção.