Mineira tem 12 parentes mortos ou desaparecidos após chuvas na Zona da Mata: 'A sensação é de desespero'

À frente do local onde bombeiros ainda realizavam resgates, na rua mais afetada pela tempestade em Juiz de Fora, as amigas Cíntia Batista e Raylane Gonçalves faziam contas com os dedos. Era o número de amigos e parentes que elas já sabiam que perderam na tragédia. Só Cíntia contabilizou 12 familiares, entre mortes confirmadas e desaparecidos. Em uma casa que desmoronou, moravam quatro. Em outra, três. No bairro Parque Burnier, onde vivem, o balanço até ontem à noite era de dez mortos e 11 corpos ainda não localizados. Levantamento: Deputada protocola denúncia contra Zema na PGR após redução em 96% de verba de contenção às chuvas em dois anos Chuvas em MG: Com 48 mortos e 20 desaparecidos, Defesa Civil faz apelo para que moradores não retornem a áreas de risco — Perdi muitos primos e tios. A sensação é de desespero e agonia. Além da angústia pelos corpos ainda não encontrados — narra Cíntia, cujo lar não foi afetado. — Eu trocaria minha casa e todos pertences que salvei pelas vidas deles. As amigas trabalham juntas como auxiliares de cozinha e, quando o temporal começou, por volta das 18h de anteontem, estavam em casa. Raylane vive na Rua Natalino José de Paula, justamente onde a terra deslizou e os imóveis desmoronaram, causando o maior número de mortes. — Ouvi um barulho enorme. Quando abri a porta e vi muita poeira, percebi tudo caindo. Fiquei desesperada e desci para a casa da minha prima, na parte debaixo da rua, onde estava protegida. Só passava água e terra, mas corri na base do desespero — lembra Raylane, que agora ficará na casa da mãe, em outro bairro da cidade. Ontem, o populoso Parque Burnier, também conhecido como bairro JK, estava vazio. Pontos de apoio e de doação de mantimentos foram instalados nas ruas, em tendas e em igrejas. Temerosos, muitos moradores deixaram suas casas, enquanto outros ainda estão organizando as mudanças. — Aqui é uma região que chove muito. E esse verão teve bastante chuva. Muita gente está falando que nem pretende voltar mais, com muito medo — lamenta Cíntia. Nascido e criado em Juiz de Fora, Rômulo Júlio da Silva, de 53 anos, afirma que nunca havia visto um temporal como o dessa semana: — Há uns três , quatro anos, teve deslizamento no bairro e fizeram obra de contenção. Mas essa chuva foi pior, desceu tudo. Eu nunca tinha visto o Rio Paraibuna transbordar. Até o fim da noite de ontem, as autoridades haviam confirmado 48 mortos em decorrência do temporal — 42 em Juiz de Fora, seis na vizinha Ubá. Os bombeiros ainda buscam 20 desaparecidos. As chuvas também deixaram 3.026 desabrigados nas duas cidades, além de 578 desalojados. A região voltou a registrar chuva forte em diferentes momentos do dia, o que dificultou o trabalho dos bombeiros, que já precisam lidar com os desafios do solo encharcado. A previsão do tempo indica possibilidade de novos temporais até o próximo fim de semana.