Foram 2.905 longos dias de espera. Na tarde de ontem, em julgamento histórico, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou, por unanimidade, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão a 76 anos e três meses de prisão pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes e por organização criminosa. O delegado Rivaldo Barbosa foi absolvido da participação no homicídio, mas sentenciado por obstrução à justiça e corrupção passiva, somando 18 anos de pena. Da perplexidade inicial com as primeiras notícias sobre o crime ainda na noite daquela quarta-feira, dia 14 de março de 2018, passando pela mobilização popular por justiça nas ruas de todo o país até chegar ao ato final, uma frase jamais se perdeu: Marielle presente. Irmãos Brazão, Major Ronald, Peixe e Rivaldo: Saiba as penas dos condenados pelo assassinato de Marielle e Anderson Gomes Imprensa internacional repercute condenação de irmãos Brazão no caso Marielle e cita 'submundo da política' no Rio O major da PM Ronald Paulo Alves foi condenado a 56 anos também pelo duplo homicídio. No cálculo das penas dele e dos irmãos Brazão, foi considerada também a tentativa de homicídio contra a então assessora Fernanda Chaves. Os ministros sentenciaram ainda o ex-PM Robson Calixto Fonseca, o Peixe, a nove anos de prisão por organização criminosa. Os cinco réus terão que pagar indenização aos familiares das vítimas num total de R$ 7 milhões. O julgamento durou dois dias. Anteontem, as defesas dos cinco réus argumentaram que a investigação estava resumida às delações dos ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, assassinos confessos de Marielle e Anderson, já condenados, e ao depoimento do miliciano Orlando Oliveira de Araujo, o Orlando Curicica. A tese foi rebatida logo no início da sessão de ontem pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, que afirmou ver “plenamente caracterizada” a prática de pertencimento a organização criminosa armada por parte de Domingos e Chiquinho Brazão. 'Queima de arquivo, misoginia e racismo': as frases do voto de Moraes no julgamento do caso Marielle — Foi no campo legislativo que os conflitos entre os Brazão e a vereadora tornaram-se maiores e incontornáveis, levando ao crime. Por esses dois grandes vetores: a manutenção por parte da milícia, do seu domínio econômico-territorial, e do outro lado o domínio político — apontou Moraes. O relator citou ainda os terrenos prometidos a Lessa como pagamento pelo crime. Uma área na Estrada Comandante Luís Souto, em Jacarepaguá, com potencial de lucro na casa de R$ 100 milhões, além da exploração de serviços típicos de milícia como o fornecimento de gás e de sinal de internet, por exemplo. — A colaboração mostra, e a partir disso a Polícia Federal seguiu nas investigações, a motivação do crime e a forma de pagamento. E se nós analisarmos em conjunto, elas estão totalmente interligadas — completou Moraes. Relator do caso, ministro Alexandre de Moraes foi primeiro a votar nesta quarta-feira Brenno Carvalho / Agência O Globo Cármen vota para condenar irmãos Brazão: 'Quantas Marielles o Brasil vai deixar que sejam assassinadas?' Outra prova que corrobora a delação veio da viúva de um criador de passarinhos que testemunhou na PF que Lessa, Macalé e Chiquinho Brazão se conheciam e se reuniam no local onde havia uma mesa de sinuca, perto de onde ficam os terrenos prometidos como recompensa. Os Brazão sempre negaram conhecer Lessa. No seu voto, o ministro Flávio Dino, presidente da Primeira Turma do STF, também rebateu os argumentos dos defensores. — A colaboração premiada tem valor absoluto? Não. De outro lado, a colaboração premiada tem desvalor absoluto? Não. Nós somos chamados, na verdade, a fazer um juízo de corroboração a partir dos fatos narrados pelos colaboradores — explicou Dino, que disse ter identificado 30 elementos que corroboram os depoimentos de Lessa e Queiroz. Irmãos Brazão, Rivaldo, Peixe, Major Ronald: Quem são os condenados pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes Flávio Dino foi o último ministro da Primeira Turma a votar no julgamento dos réus do caso Marielle Brenno Carvalho / Agência O Globo Investigação ‘negligente’ O ministro citou dez desses pontos, ressaltando que a íntegra está no texto do voto. Um deles foi a convergência das delações de Lessa e Queiroz quanto à participação de Edmilson Oliveira da Silva, o Macalé, como intermediário entre os irmãos Brazão e o atirador. O ministro falou ainda sobre os problemas enfrentados ao longo da investigação: — Não existe crime perfeito. Existe crime mal investigado. Eu diria que esse crime foi pessimamente investigado. E foi pessimamente investigado, no começo, de modo doloso — disse Dino sobre a investigação inicial do caso Marielle, definida por ele como “falha”, “lenta” e “negligente”. Ao apresentar seu voto, a ministra Cármen Lúcia justificou a opção pela absolvição de Rivaldo, acompanhando o relator, comparando o processo a um “xadrez”: Análise: Moraes diz que milícia deu o recado com a 'decretação' de Marielle, ou seja, execução na 'linguagem miliciana' — Não tenho como comprovar que minha dúvida tem comprovação em fatos havidos no processo. E o processo como se sabe é um xadrez, um pano de xadrez. O que aparece nos autos é o que nos importa. São as partes em claro. Ministra Cármen Lúcia Reprodução Cármen Lúcia fez ainda uma reflexão sobre as mortes de Marielle e Anderson como exemplos no contexto de violência e impunidade que se observa no país: — Eu me pergunto, senhoras e senhores, quantas Marielles o Brasil permitirá que sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de justiça nesta pátria de tantas indignidades. O ministro Cristiano Zanin salientou não haver dúvida sobre a existência da organização criminosa denunciada pela PGR e frisou existir robusta prova documental das atividades de grilagem de terras com participação dos Brazão e de Peixe. Ministro Cristiano Zanin acompanhou o relator Alexandre de Moraes Brenno Carvalho / Agência O Globo Alerj: Bacellar protocola nova licença e segue afastado do mandato — A documentação comprova a existência de uma rede criminal que se apropria de estruturas públicas de poder e promove uma perniciosa simbiose entre o crime organizado, o exercício de mandato parlamentar, o exercício de cargos vitalícios e a estrutura de segurança pública. Família de Marielle se emociona ao fim do julgamento Durante todo o julgamento, Marielle esteve presente representada por sua família. Luyara, sua filha, e Marinete, sua mãe, chegaram a passar mal em momentos distintos da leitura dos votos. Brasília: Julgamento do Caso Marielle bota lado a lado no STF parentes dos réus e da vereadora Personagens do Rio: Arquivo do Tribunal de Justiça guarda processos históricos dos pioneiros do samba carioca Ex-chefe de Polícia Civil: STF absolve Rivaldo Barbosa do crime de homicídio, mas condena o delegado a 18 anos por obstrução de justiça e corrupção passiva Após o julgamento, quais são os próximos passos? Initial plugin text