Três décadas depois de reinventar o terror adolescente com ironia, autorreferência e faca afiada, a franquia iniciada em 1996 chega ao seu sétimo capítulo nesta quinta-feira (26), carregando o peso da própria mitologia. Pânico 7 não é apenas mais uma sequência, mas um teste de resistência para uma saga que sempre soube rir de si mesma enquanto sangrava em cena. O novo longa retoma os acontecimentos de Pânico VI, mas faz isso quase como quem folheia um álbum antigo sem muita vontade de revisitar as fotos. Nova York vira nota de rodapé e a narrativa retorna a uma cidade pequena que ecoa Woodsboro, agora sob o nome de Pine Grove, onde o passado de Sidney Prescott volta a cobrar seu preço. Foto: Divulgação/Paramount A volta de Neve Campbell foi vendida como evento. Depois da demissão controversa de Melissa Barrera e da saída de Jenna Ortega, o filme parecia depender da presença de sua heroína original para reconquistar legitimidade. O retorno, no entanto, soa menos como celebração e mais como tentativa de reorganizar uma casa em crise. Agora dirigida por Kevin Williamson, roteirista dos dois primeiros longas, a produção aposta em um tom mais sombrio e em uma violência amplificada. A câmera abraça o grotesco com mais convicção do que abraça seus personagens, e as mortes assumem protagonismo absoluto, como se o espetáculo do sangue fosse suficiente para sustentar a tensão. Foto: Divulgação/Paramount Há momentos em que o Ghostface volta a ser ameaçador. Em algumas cenas, sua presença é quase espectral, silenciosa, calculada, eficiente. A brutalidade atinge níveis inéditos na franquia, arrancando reações físicas da plateia e flertando com um terror mais gráfico, próximo do que o público contemporâneo consome com naturalidade. O problema é que, em Pânico, a faca nunca foi o único atrativo. A engrenagem sempre funcionou quando mistério, comentário metalinguístico e construção de suspeitos se entrelaçavam com inteligência. Aqui, a revelação do terceiro ato tropeça na própria ambição. O grande desmascaramento, que deveria ser o ápice, soa anticlimático, quase burocrático, incapaz de sustentar o discurso que tenta justificar a carnificina. Foto: Divulgação/Paramount Os novos personagens carecem de densidade. Muitos entram em cena apenas para cumprir tabela no abatedouro narrativo, sem tempo para criar vínculos com o público. A tentativa de atualizar a discussão sobre legado, trauma geracional e cultura pop até aparece, mas é soterrada por furos de roteiro e decisões que parecem mais apressadas do que provocativas. Ainda assim, há lampejos de grandeza. Neve Campbell sustenta Sidney como uma mãe endurecida pela sobrevivência, conferindo humanidade a um filme que por vezes prefere o choque à emoção. Isabel May injeta energia à nova geração e ensaia uma passagem simbólica de bastão, mesmo que o texto não ofereça o suporte dramático necessário. Foto: Divulgação/Paramount A direção de Kevin Williamson demonstra respeito pelo espírito criado ao lado de Wes Craven. Em certos enquadramentos e jogos de suspense, sente-se a herança do terror dos anos 90 dialogando com o presente. Falta, porém, a coesão que transformava autorreferência em comentário afiado sobre o próprio gênero. Conclusão No fim, Pânico 7 é um filme dividido entre nostalgia e exaustão. Entrega mortes memoráveis e momentos de tensão legítima, mas tropeça ao tentar convencer que tudo levou a isso. Talvez a maior ironia seja essa. A franquia que ensinou o público a desconfiar das fórmulas agora luta para não se tornar refém da sua própria. Confira o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=3R9o8R8O7F8