Uma ex-analista de banco de investimento entrou na Justiça dos Estados Unidos após ser demitida semanas depois de solicitar um período fixo de sono de nove horas por noite. O caso, que será julgado em tribunal federal de Nova York e repercutiu na semana passada, coloca em discussão as exigências de trabalho impostas a jovens profissionais em Wall Street. Amarrada com um roupão e fita adesiva: menina de 3 anos morre após agressões do namorado da mãe na Flórida Entenda o caso: Empresas admitem falhas mais de sete anos após morte de dois trabalhadores em frigorífico na Inglaterra Kathryn Shiber, hoje com 21 anos à época dos fatos, trabalhava na empresa de assessoria financeira Centerview Partners quando informou à companhia que precisava dormir regularmente entre meia-noite e 9h para lidar com um transtorno de humor e ansiedade diagnosticado. A empresa chegou a criar um arranjo temporário permitindo esse intervalo, desde que ela permanecesse disponível para trabalhar nos demais horários, inclusive aos fins de semana. Menos de três semanas depois, porém, Shiber foi chamada para uma reunião por vídeo e dispensada do cargo. Segundo a ação judicial, o diretor de operações da empresa questionou sua decisão de ingressar no setor de banco de investimento diante da necessidade de descanso. A ex-funcionária acusa a companhia de discriminação por deficiência com base em leis federais e estaduais. Debate sobre jornadas em Wall Street O processo deve reacender um debate recorrente sobre as longas jornadas no setor financeiro americano. Ao permitir que o caso avançasse, o juiz federal Edgardo Ramos afirmou que há disputa legítima sobre se a disponibilidade constante e horários imprevisíveis são realmente uma função essencial do cargo de analista. As condições de trabalho em bancos de investimento já haviam ganhado atenção em 2021, quando jovens analistas do Goldman Sachs divulgaram uma apresentação relatando jornadas exaustivas e falta de sono durante a pandemia. A repercussão levou algumas instituições a rever políticas internas, limitando horas e garantindo períodos de descanso. Especialistas afirmam que processos desse tipo raramente chegam a julgamento. Para a professora Katherine Macfarlane, da Faculdade de Direito da Universidade de Syracuse, ações baseadas na Lei dos Americanos com Deficiências costumam ser rejeitadas antes dessa fase. Shiber pede indenização de milhões de dólares, incluindo salários que afirma ter deixado de receber ao longo da próxima década e compensação por sofrimento emocional. A Centerview Partners argumenta que analistas juniores são conhecidos por enfrentar jornadas longas e imprevisíveis e que não havia acomodação razoável que permitisse cumprir as funções com a exigência de sono regular. O julgamento deve ouvir banqueiros que supervisionaram a analista, além de especialistas médicos. Um dos pontos centrais será determinar se estar disponível em horários extremos — como de madrugada — é uma necessidade real do trabalho ou apenas uma prática cultural do setor.