Hillary Clinton acusa republicanos de blindarem Trump em caso Epstein, mas se vê mais uma vez como 'defensora' do marido

Depois de uma longa batalha, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton presta depoimento nesta quinta-feira a uma comissão da Câmara dos Deputados dos EUA em investigação sobre o financista Jeffrey Epstein, responsável por liderar uma rede de abuso de menores e que, mesmo morto em 2019, está no centro de um escândalo no país. Caso Epstein: Entrevistas sobre acusação contra Trump não aparecem em lote de arquivos; entenda Desdobramentos: Da prisão de Andrew a denúncias contra Trump, veja o que se sabe sobre o caso Epstein Hillary afirmou que não conheceu Epstein pessoalmente, que não sabia de suas atividades criminosas, e acusou os republicanos de tentarem encobrir a relação entre Donald Trump e o milionário. Contudo, os laços do ex-presidente Bill Clinton com Epstein a levaram mais uma vez ao papel de responder pelo seu marido, um lugar incômodo que ela frequenta há algumas décadas. “Vocês me obrigaram a depor, plenamente cientes de que não possuo nenhum conhecimento que possa auxiliar a investigação, com o objetivo de desviar a atenção das ações do presidente Trump e encobri-las”, disse Hillary em suas declarações iniciais, chamando a investigação de “teatro político”. “Se esta Comissão está realmente empenhada em descobrir a verdade sobre os crimes de tráfico de Epstein, não se basearia em depoimentos sensacionalistas para obter respostas do nosso atual presidente sobre seu envolvimento; questionaria-o diretamente, sob juramento, sobre as dezenas de milhares de vezes em que seu nome aparece nos arquivos de Epstein.” Trump e Epstein em uma festa da Victoria's Secret em Nova York, em 1997 Reprodução Levantamentos apontam que o nome de Donald Trump aparece 38 mil vezes nos arquivos de Epstein, e ambos tinham uma relação próxima no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Há referências sobre possíveis encontros entre o então empresário com jovens apresentadas por Epstein, e que seriam vítimas de sua rede de abusos. A Casa Branca nega as alegações, mas o Departamento de Justiça — responsável pela divulgação dos documentos — investiga se o depoimento de uma mulher ao FBI que, em 2019, acusou Trump de abuso sexual quando ela era menor de idade foi deliberadamente mantido em sigilo, além de outras menções pouco elogiosas ao presidente. Rancho Zorro: Documentos do FBI detalham possível destruição de provas e assassinatos em refúgio de Epstein no Novo México Sob juramento, Hillary Clinton disse que “não tinha ideia” das atividades de Epstein e seus sócios, e que “não se lembra” de ter encontrado pessoalmente com o financista. O depoimento está sendo tomado na residência dos Clintons no estado de Nova York a portas fechadas, e as declarações iniciais foram compartilhadas em suas redes sociais. A fala está sendo gravada em vídeo, mas caberá à comissão decidir sobre sua divulgação. “Essa falha institucional visa proteger um partido político e um funcionário público, em vez de buscar a verdade e a justiça para as vítimas e sobreviventes, bem como para o público que também quer chegar ao fundo dessa questão”, continuou Clinton. “Meu coração está partido pelas sobreviventes. E estou furiosa em nome deles.” O depoimento foi brevemente interrompido depois que a deputada trumpista Lauren Boebert compartilhou uma foto da sala onde estão Hillary e os deputados com um youtuber de direita, que a publicou em suas redes sociais. Mick Jagger e Bill Clinton nos arquivos de Epstein US DEPARTMENT OF JUSTICE Bill e Hillary Clinton travaram um duelo político e jurídico com a Comissão de Supervisão da Câmara para evitar responder às perguntas dos deputados, na maioria republicanos. Eles sugeriram fornecer um depoimento por escrito, como ocorreu com outras testemunhas, e cogitaram ignorar a convocação. Contudo, no começo do mês, concordaram em falar, a portas fechadas — o depoimento de Bill Clinton está previsto para esta sexta-feira. 'Um grave erro': Bill Gates admite casos extraconjugais com duas mulheres, mas nega envolvimento nos crimes de Epstein Dentre os milhões de documentos do caso contra Jeffrey Epstein, que morreu em 2019 antes de ir a julgamento, o nome de Hillary Clinton aparece cerca de 700 vezes, na forma de matérias na imprensa ou comunicações de Epstein com terceiros. O mesmo não se pode dizer de Bill Clinton, que viajou ao menos 16 vezes no avião particular do financista entre 2002 e 2003. Entre os documentos tornados públicos, há fotos de Bill em eventos de Epstein, seja em uma mesa ao lado do vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, seja em uma banheira de hidromassagem com mulheres de biquíni. O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, é citado diversas vezes nos arquivos ligados a Jeffrey Epstein Reprodução: Departamento de Justiça dos Estados Unidos Bill Clinton jamais foi acusado de nenhum crime relacionado a Epstein, mas para os republicanos, ele se tornou o alvo perfeito. Na década passada, quando surgiram as denúncias de abusos cometidos pelo financista, teorias da conspiração apontavam para uma suposta lista de clientes, da qual o ex-presidente democrata faria parte. A tal lista não existe, como comprovou o próprio governo Trump, mas Clinton seguiu na mira. E a pressão do público por condenações e prisões — como ocorreu no Reino Unido, envolvendo até o ex-príncipe Andrew — serve como combustível a mais. — Obviamente, a comissão quer ver algumas pessoas responsabilizadas — disse ao portal Politico o presidente da Comissão de Supervisão, o republicano James Comer. — Ficamos fascinados com a forma como Epstein conseguiu se cercar de tantas figuras governamentais de alto escalão, não apenas nos Estados Unidos, mas também em outros países, então acho que muitas perguntas surgirão. Foto divulgada pelo Departamento de Justiça mostra Jeffrey Epstein, o ex-presidente Bill Clinton e Ghislaine Maxwell; nos anos 2000, seus círculos se sobrepunham U.S. Department of Justice / The New York Times Enquanto os republicanos tentam incriminar Bill Clinton — o que seria uma vitória de peso em um ano eleitoral que vê os democratas em vantagem, Hillary se viu mais uma vez em um lugar incômodo: o de responder por acusações contra seu marido, envolvendo situações que não têm a ver com decisões políticas ou atos presidenciais. Nos anos 1990, a então primeira-dama foi a público defender seu marido em meio a um escândalo sexual envolvendo uma estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky. Depois que a Câmara aprovou seu impeachment, ela estava ao lado do presidente nos jardins da Casa Branca para criticar os pedidos de renúncia. Presidente dos EUA, Bill Clinton, escuta a primeira-dama, Hillary Clinton, em evento na Casa Branca Joyce NALTCHAYAN/AFP Mesmo depois de se eleger senadora por Nova York, ou de chefiar o Departamento de Estado, as perguntas sobre Bill jamais deixaram de ser feitas. Em uma autobiografia de 2003, “Vivendo a História”, contou detalhes de seus momentos privados, e disse que “as decisões mais difíceis que fez na vida foram permanecer casada com Bill e concorrer ao Senado por Nova York”. — Durante quase toda a sua vida de casada, ela teve que responder a perguntas sobre as ações do marido — disse Patti Solis Doyle, ex-assessora de Hillary Clinton, ao New York Times. — Ela o apoiou em todos os momentos. Não há razão para que ela tenha que sofrer essa última humilhação. Ela não tem nada a ver com isso. É revoltante. Ela é um ícone global, uma pioneira para as mulheres. É de partir o coração que ela tenha que passar por isso.