O Censo Escolar 2025, divulgado nesta quinta-feira pelo Ministério da Educação (MC), mostrou uma redução de mais de um milhão de matrículas na educação básica, atingindo o menor patamar do século XXI. A queda no número de alunos foi constatada em todas as etapas, desde a pré-escola até o ensino médio. Somente nesta última, são 419 mil estudantes a menos do que em 2024, apesar de iniciativas do governo federal para permanência de jovens na sala de aula, como o Pé-de-Meia. Conselho Nacional de Educação: Regulamentação para IA na educação mira veto à correção de questão dissertativa sem professor Criada por brasileiros: 'IA desplugada' na educação adapta ferramenta a salas de aula sem internet Veja o número de matrículas em 2025: Total nacional: 46.018.380 (queda de 1.070.542) Ensino infantil (creche + pré-escola): 9.286.182 (queda de 205.712) Educação fundamental: 25.806.767 (queda de 195.589) Ensino médio: 7.370.879 (queda de 419.517) Formação inicial e continuada (FIC): 99.787 (queda de 5.862) Educação de Jovens e Adultos (EJA): 2.252.069 (queda de 139.250) Matrículas na Educação Pública e Privada: Rede Pública: O número de alunos passou de 6.759.848 para 6.334.224 (queda de aproximadamente 6,30%). Rede Privada: As matrículas foram de 1.030.548 para 1.036.655 (aumento de cerca de 0,59%). Seja em números absolutos ou em percentuais, São Paulo liderou a queda no número de matrículas do ensino médio, com a perda de 251.987 alunos (13,6%) em um ano. Redução percentual por estado: São Paulo: 13,60% Roraima: 7,06% Acre: 7,02% Paraná: 6,74% Bahia: 6,17% Para Fábio Pereira Bravin, pesquisador da equipe da Diretoria de Estatísticas Educacionais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a diminuição no número de matrículas se explica pela queda da população na faixa etária educacional. Ele também vê como fator determinante a redução da retenção de alunos fora da faixa etária adequada, a chamada distorção-série — em outras palavras, a queda nos índices de repetência dos estudantes. — A população-alvo da educação básica está reduzindo, isso tem impacto no número de matrículas, mas o atendimento na escolarização formal está aumentando. Dados do IBGE mostram isso. Isso não é um problema, há aumento da frequência na escola e os alunos estão repetindo menos. Quando você retém o aluno e não permite que ele avance, ele enche o sistema, o que aumenta as matrículas. Se você começa a reduzir a distorção idade-série, tem redução de matrículas. Tem a ver com melhora do fluxo escolar, com redução de alunos que estavam atrasados, especialmente no último ano do ensino médio, e com o aumento da eficiência no sistema que está levando esses alunos a concluir — disse à jornalistas nesta quinta-feira. A distorção idade-série passou de 27,9% em 2021 a 17,6% no ensino médio da rede pública no ano passado. Neste aspecto, o principal avanço se deu no 3º ano do ensino médio, segundo o MEC, com queda de 61% de 2022 a 2025. Bravin apontou que outros fatores, como a certificação da conclusão da educação básica via nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), também contribuíram para a melhora desse fluxo, que, na avaliação dele, configura um avanço no desempenho educacional do país. Já Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, entende que a queda no número de matrículas no Brasil é um dado que "merece atenção, mas que precisa ser analisado com cuidado e à luz de outras informações demográficas e educacionais". — Parte dessa queda é explicada por uma base populacional menor. Além disso, quando observamos os dados de frequência escolar, vemos um movimento positivo: proporcionalmente, o atendimento dessa população está aumentando. O país perdeu matrículas, mas a taxa de escolarização está crescendo. Isso significa que, embora haja menos jovens, uma parcela maior deles está, de fato, na escola — ressalta. Os dados mostram que, desde 2001, a tendência histórica das matrículas no ensino médio foi alterada. Enquanto o século começou com um crescimento inicial, com pico histórico de 9,16 milhões em 2004, passou a cair até o recorde negativo de 2025. Cenário em creches O número geral de alunos em creche, que atende crianças de 0 a 3 anos, registrou uma pequena queda, de cinco mil matrículas. Considerando apenas a escola pública, o número aumentou, mas menos do que nos últimos anos. Foram pouco mais de 29 mil a mais ante o ano anterior, contra um salto de 48 mil de 2023 a 2024. Esta é uma etapa escolar em que as redes públicas ainda não atendem toda a demanda de crianças. A proporção de crianças de 2 a 3 anos fora da creche por falta de vagas está no mesmo patamar há cinco anos. Desde 2019, ela gira em torno de 39%. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Educação de 2024, divulgados em junho do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, considera que o número incremental de matrículas em creches é "baixo", o que preocupa por ser um espaço não só de aprendizagem, mas também de segurança alimentar, segurança física e proteção para crianças, especialmente as que estão em maior vulnerabilidade social. — Por mais que a creche seja uma etapa voluntária, a gente está atrás das metas do PNE, que já venceu. Esse mínimo de 50% já não está sendo atendido e é uma estatística para um país que tem realidades regionais diferentes. É a fase onde há o maior pico de desenvolvimento. As crianças precisam acessar a educação, mas essa educação também precisa ser de qualidade, o que o Brasil não avalia de forma suficiente — destaca. No caso das creches, o pesquisador e o ministro ponderaram a existência de desafios culturais à universalização, como a opção dos pais de não matricular as crianças. Santana, por sua vez, ressaltou a cobrança prioritária do governo de retomada de obras antes paralisadas e de investimentos em creches no Novo PAC. Até 2026, o MEC se comprometeu a construir 2.500 novas creches e pré-escolas por meio do Programa de Aceleração do Crescimento. O ministro afirmou também que o MEC espera detalhar, em breve, como está a fila para creches — dado que, segundo ele, vai revelar uma realidade mais concreta em relação às necessidades de ampliação de vagas. Mara Luz ressalta a importância da divulgação das filas das creches para que se estime a demanda real do acesso. Ela pondera que mexer em padrões culturais, como aquele em que os pais não decidem colocar os filhos na creche, é complexo, mas muitas vezes traduz uma falta de conhecimento sobre os benefícios dessa matrícula. — A gente tem que vencer padrões culturais, mas a partir de um grande entendimento do conjunto absoluto de evidências de como a educação infantil de qualidade gera benefícios ao longo da educação, até na saúde, na segurança e na economia. Tem que quebrar o padrão de ser a etapa menos valorizada, pior paga e mais cara. É um espaço de cuidado, mas também de intencionalidade pedagógica também, com práticas lúdicas e enriquecidas. É preciso ter professores qualificados. Não dá para colocar uma professora para ficar com 20 bebês. Não é qualquer creche que a gente quer ofertar — destaca. A especialista aponta, ainda, que a construção de novas creches não é solução única para o acesso. Ela defende a efetivação da política nacional integrada para a primeira infância, com diálogos com saúde e assistência social, parcerias com entidades filantrópicas e possível expansão de estruturas já existentes, levando em conta as particularidades regionais e as demandas do geo-referencial urbano. — Os dados são divulgados pelo ministro, mas a gente precisa também do governo, dos secretários estaduais e municipais, dos supervisores e professores, todo mundo nesse barco — destaca ela, que também aponta a estagnação no segmento dos anos seguintes de ensino, pós-creche. — Na pré-escola, que é obrigatória, também há um incremento baixo. A gente ouve que está universalizado, mas não está. O grande problema de estar em patamar alto, mas não em universalidade, é: quem está de fora? É quem está perdendo a base do conhecimento. Isso escancara as devastadoras desigualdades brasileiras. Se chega no ensino fundamental com essa lacuna, não vai se alfabetizar na idade certa — ressalta Mariana. Desafio da EJA Já a Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade para quem não completou a educação básica, voltou a perder alunos pelo oitavo ano seguido. Além disso, chegou ao seu menor patamar registrado — há dados desde 1996. Quase metade da população (49,2%) de mais de 25 anos não terminou o Ensino Médio — um contingente de 65 milhões de pessoas. O ministro da Educação, Camilo Santana, reconheceu a necessidade de ampliar os esforços para estimular as pessoas a voltarem às salas de aula. — A queda no EJA está sendo reduzida, principalmente no ensino fundamental, mas é um esforço que precisamos fazer num movimento maior com as redes, para estimular que municípios e estados matriculem, pelo desafio de a gente ter 66,2 milhões de brasileiros sem concluir a educação básica. É preciso estimular essas pessoas a voltarem para a sala de aula, criar mecanismos para atrair — disse. Santana ressaltou, ainda, a queda gradativa da idade dos alunos inscritos na EJA e o desafio de manter esses estudantes mais jovens na escola regular. Isso, ressaltou, contra uma estratégia atual de alguns gestores de promover o ingresso dessas pessoas mais jovens que não vão bem na escola na EJA para impulsionar localmente o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O dado monitora a qualidade do ensino e ajuda a direcionar recursos federais. Para Katia Smole, é cedo para falar que o Pacto EJA não deu certo. Ela destaca que os governos têm se preparado para efetivar as ações e eventuais resultados devem ser captados nos próximos Censos. Lançado em junho de 2024, o Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem o objetivo de reduzir o analfabetismo e elevar a escolaridade de pessoas com mais de 15 anos que não tenham concluído o ensino básico. — O trabalho que precisamos ter pata evitar que os jovens saiam da escola é grande e intenso. A gente precisa fazer com que esse alunos entrem na escola e permaneçam nela. Os estudos no mundo mostram que trazer de volta é muito mais difícil. E outra coisa: sou a favor do ensino presencial, mas o pacto trouxe exigência de maior presencialidade e um regime híbrido poderia atender mais as necessidades. Pararam de ofertar EAD, o que pode ter estagnado matrículas. Precisamos estudar esse impacto com mais profundidade — aponta.