“As multas chegaram e a moto que estava lá realmente não era a minha, era outra”. Foi assim que o empresário André Tiago, 49, descobriu que a placa de uma de suas motocicletas havia sido clonada. Esse tipo de situação na capital tem preocupado motoristas. Segundo dados da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), desde 2023 foram registradas 842 ocorrências relacionadas a veículos com placas clonadas. Para André, a placa clonada da moto rendeu uma enorme dor de cabeça. “Eu tenho uma empresa de aluguel de motos aqui em Brasília já há alguns anos. Essa que foi clonada, o rapaz que alugou ela, morava no Paranoá. As multas começaram a chegar como se tivessem acontecido em Santa Maria. Entrei em contato com o rapaz, e ele falou: ‘cara, eu nunca nem fui em Santa Maria, nem sei para onde que é", detalhou o empresário. A partir disso, André contou que passou a investigar de forma mais minuciosa. Como as motocicletas que ele alugava possuíam rastreadores, ele acessou os relatórios para ver se o relato do locatário era pertinente. “Realmente as datas e os horários não coincidiam com as multas levadas em Santa Maria. Até a cor da moto era diferente”, comentou. Então o empresário reuniu tudo o que tinha para tentar reverter a situação. Os documentos disponibilizados por André mostram que a pessoa que clonou a placa da moto dele cometeu diversas infrações de trânsito por pilotar acima da velocidade máxima permitida. Apesar de entregar as provas de que as multas eram indevidas, o empresário contou que não teve sucesso com o recurso junto ao Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF) e precisou contratar um advogado. “Para minha felicidade e minha infelicidade, assim que eu paguei o advogado, passaram uma ou duas semanas, a moto foi apreendida lá em Luziânia, em uma blitz. Aí me ligaram, porque o cara tava sem documento e o chassi estava raspado. Então eu falei com o policial: ‘realmente essa placa é de uma moto minha, só que essa aí não é a minha, é a uma moto que foi clonada’. Foi o que me salvou”, destacou André. Mesmo assim, o empresário precisou desembolsar cerca de R$ 4 mil durante todo o processo. Suspeita de clonagem O advogado Anderson Gomes, especialista em direito do trânsito, explicou ao Jornal de Brasília que a clonagem de placas é uma prática relativamente frequente tanto no DF quanto em outras unidades da federação, especialmente quando se trata de veículos de grande circulação ou modelos populares. “Os fraudadores utilizam placas idênticas às de veículos regulares para praticar infrações, evitar pagamento de multas ou até cometer crimes, transferindo indevidamente as penalidades ao verdadeiro proprietário”, apontou. O advogado explicou que o primeiro passo ao suspeitar que a placa do seu veículo foi clonada é registrar um Boletim de Ocorrência (BO). “Em seguida, deve-se protocolar defesa administrativa junto ao órgão autuador (DETRAN, DER ou PRF), apresentando: cópia do boletim de ocorrência; documentos do veículo; comprovantes de que o veículo não estava no local da infração (como notas fiscais, pedágios, GPS, fotos, testemunhas, comprovantes de trabalho); e fotos do próprio veículo demonstrando características diferentes do veículo infrator (adesivos, amassados, cor, película etc.).Caso o órgão indefira administrativamente, é possível ingressar com ação judicial para anular as multas, suspender penalidades e evitar pontos na CNH”, orientou Gomes. Todo esse processo foi motivo de transtorno para André. “Eu tive que levar a minha moto para fazer uma perícia, todo um constrangimento, todo um aborrecimento, perda de tempo. Depois tive que ir em Luziânia levar a moto para provar que realmente a minha era a verdadeira e aquela lá, que foi apreendida, era a clonada”, relatou. O advogado ainda alertou que é essencial agir rápido em caso de suspeita de que a placa foi clonada para impedir o acúmulo de pontos na carteira ou a instauração do processo de suspensão da CNH. “No escritório, já pegamos casos em que foi constatado que o veículo estava cometendo diversas infrações com a placa do veículo do nosso cliente, e com as fotos das infrações constatamos que houve uma clonagem de placa. Conseguimos reverter na justiça as multas e também a alteração da placa. Sobre o processo de recurso para a análise da clonagem, o Detran-DF informou que o proprietário deve observar os prazos para apresentação de defesa prévia, conforme indicado na notificação de autuação, bem como para interposição de recurso contra a penalidade, possibilitando a análise pelo autarquia ou pela Junta Administrativa de Recursos de Infrações (Jari).