Quais profissões serão menos impactadas pela IA? Veja áreas mais 'protegidas'

Nos últimos anos, com a popularização de ferramentas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT, da OpenAI, têm crescido, em muitos profissionais, sentimentos de apreensão e medo em relação ao mercado de trabalho, os quais temem ser substituídos pela tecnologia. No entanto, para os especialistas ouvidos pelo TechTudo, a resposta exige mais detalhes do que os títulos alarmistas costumam oferecer. "O que acontece é uma redistribuição de tarefas: as atividades repetitivas, previsíveis e baseadas em padrões conhecidos são automatizadas, enquanto os humanos se concentram nas exceções, no julgamento contextual e na supervisão estratégica", explica o gerente técnico da ManageEngine Brasil, divisão da Zoho Corporation, Tonimar Dal Aba. 7 prompts do ChatGPT para montar plano de estudos para concurso em minutos Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviews De acordo com o fundador do WallJobs e autor do livro Inteligência Artificial Generativa para Iniciantes, Henrique Calandra, os profissionais mais capacitados não são aqueles que se colocam em posição de competir com a IA, mas, sim, os que aprendem a utilizá-la a seu favor, trabalhando com ela e, assim, ampliando sua capacidade. Outros especialistas também compartilham opiniões semelhantes, ao apontar que a tecnologia tende a transformar funções e não a eliminá-las completamente. Veja a seguir mais explicações sobre o tema e entenda como profissões de áreas estratégicas na tecnologia, saúde, RH, educação e outras podem ascender. Entenda quais características tornam uma profissão mais resistente ao avanço da inteligência artificial generativa Foto: Reprodução/ThisIsEngineering Como usar o ChatGPT para melhorar a produtividade no trabalho? Veja no Fórum do TechTudo Transformação Segundo o Future of Jobs Report do World Economic Forum, cerca de 60% das profissões atuais terão parte de suas tarefas automatizadas, mas sim, uma parcela reduzida corre risco de automação total. Nesse sentido, o CEO da Impulso, People Tech especializada em produtividade e reestruturação de equipes, Sylvestre Mergulhão, afirma enxergar uma mudança significativa no mercado de trabalho. "O que eu vejo no dia a dia não são pessoas sendo substituídas, e sim funções sendo redesenhadas. A parte mecânica do trabalho encolhe. A parte decisória cresce. Quem operava passa a supervisionar. Quem executava passa a interpretar", explicou Mergulhão. Um exemplo expressivo é o de grande parte do setor bancário ilustra o qual tem ilustrado esse padrão há anos. Com a chegada dos caixas eletrônicos, não ocorreu uma redução considerável do número de bancários, mas sim um deslocamento do foco de transações operacionais para atendimento consultivo e relacionamento mais rápido com clientes. Essa mesma lógica se repete em outras áreas com a IA. Um contador, por exemplo, não desaparece, mas deixa de fazer lançamentos manuais e passa a interpretar anomalias e aconselhar sobre estratégias fiscais complexas. O radiologista não é substituído, mas sua rotina pode ficar mais dinâmica a partir do uso da tecnologia para detectar os casos mais óbvios e, assim, ele pode se concentrar nos mais complexos e em conversas difíceis com pacientes. O que protege uma profissão da automação? Especialistas convergem em alguns pontos ao explicarem o que torna certas carreiras mais resistentes. O primeiro fator é a necessidade de inteligência social complexa: a capacidade de ler contextos emocionais, negociar interesses conflitantes e, principalmente, construir confiança em situações ambíguas. A criatividade estratégica é outro diferencial. Não se trata de gerar variações a partir de algo existente, mas de conectar ideias de domínios completamente diferentes para resolver problemas inéditos. Nesse contexto, Dal Aba destaca que inteligência artificial é excelente em otimização dentro de parâmetros conhecidos, mas que ainda patina quando precisa reformular o próprio problema. Outro ponto uma profissão da automação é o que julgamento ético em situações sem precedentes. Um juiz não apenas aplica a lei, mas também interpreta intenções, contextos sociais e consequências de longo prazo. A IA pode sugerir, mas a responsabilidade final permanece humana. Para o gerente regional do GitHub para o Brasil, Julio Viana, esse é um ponto central: "A IA pode apoiar esses processos, mas não substitui o julgamento humano". Já Mergulhão sintetiza a questão com uma provocação: "Se o trabalho cabe inteiro numa planilha ou num fluxo fechado, a IA aprende rápido. Profissões menos suscetíveis à automação exigem leitura de contexto, decisão sob incerteza e responsabilidade sobre impacto humano". Setores com menor risco no curto e médio prazo 1. Saúde e cuidado humano A saúde é um dos setores mais citados pelos especialistas como menos suscetível à automação total. Embora a IA avance em diagnóstico por imagem e análise de dados, funções que envolvem cuidado direto, julgamento clínico e relação com o paciente continuam altamente dependentes do fator humano, ainda mais em contextos de incerteza, risco e responsabilidade ética. Além disso, a educação infantil e cuidados de saúde domiciliares seguem a mesma lógica: o valor está na conexão humana, não apenas no resultado funcional. 2. Gestão de pessoas e recursos humanos Calandra destaca a gestão de pessoas como um dos campos menos suscetíveis à automação total. Apesar do uso crescente de IA em triagem de currículos e análises preditivas, decisões ligadas à cultura organizacional, engajamento, gestão de conflitos e liderança exigem empatia e leitura de contexto que as ferramentas ainda não conseguem reproduzir. Dados do Censo do RH realizado pelo WallJobs, no último trimestre de 2025, mostram que 75% dos profissionais da área já utilizam ferramentas de IA, mas na maior parte dos casos para tarefas operacionais e burocráticas. 3. Educação Na educação, a tendência é de transformação de funções. Viana observa que o trabalho do educador tende a se afastar da transmissão de conteúdo e se aproximar do acompanhamento da aprendizagem e da atenção a desafios individuais dos alunos em atividades que demandam presença, escuta e adaptação constante. 4. Trabalho artesanal e serviços de luxo Segundo Dal Aba, a marcenaria, alta gastronomia e design de interiores de luxo são exemplos de profissões resistentes à automação. Nesses casos, a imperfeição humana e a história por trás do produto compõem parte do valor percebido, detalhes que a produção automatizada não consegue replicar. 5. Gestão de crise e emergências Bombeiros, equipes de resgate e gestores de crises corporativas atuam em contextos nos quais a imprevisibilidade e a necessidade de decisões morais rápidas favorecem o fator humano. São situações onde o improviso qualificado ainda supera qualquer tecnologia. 6. Diplomacia e negociação complexa Relações internacionais, negociações trabalhistas e mediação de conflitos também figuram entre as áreas menos suscetíveis. A construção de confiança e a leitura de intenções políticas continuam sendo domínios essencialmente humanos. 7. Áreas estratégicas na tecnologia Curiosamente, parte do setor de tecnologia também está na lista. Viana lembra que, no desenvolvimento de software, a IA pode acelerar a geração de código, mas revisões de segurança, decisões arquiteturais e gestão de riscos continuam sendo responsabilidades humanas. No mesmo sentido, Mergulhão acrescenta que papéis ligados à arquitetura, governança de IA, segurança, produto e liderança técnica crescem em relevância: "não por dominar ferramentas, mas por entender limites, riscos e consequências". 8. Os erros mais comuns no debate Grande parte do alarmismo em torno do tema parte de equívocos conceituais. O principal deles, segundo Dal Aba, é confundir viabilidade técnica com viabilidade econômica. Ele destaca que existem profissões que podem serem automatizadas, no entanto, não significa que isso ocorrerá - a automação acontece quando o custo dela é menor que o custo humano. Calandra aponta outro erro recorrente: tratar profissões como blocos homogêneos. "Quando se afirma que uma profissão vai acabar, desconsidera-se que parte significativa do trabalho continuará exigindo julgamento humano, interação social e tomada de decisão contextual". Já Viana reforça que também é comum superestimar os efeitos de curto prazo da IA e subestimar o tempo necessário para que transformações mais profundas ocorram. Dal Aba ainda evidencia o chamado efeito Jevons: quando algo se torna mais eficiente, o consumo frequentemente aumenta. A automação de diagnósticos médicos pode não reduzir médicos — pode, ao contrário, ampliar a demanda por saúde preventiva e personalizada, criando trabalho em novas frentes. 9. Novas profissões que devem ganhar espaço O avanço da IA também abre espaço para carreiras emergentes. Além dos já conhecidos engenheiros de prompt e auditores de IA, os especialistas apontam para perfis menos óbvios, como curadores de dados sintéticos, especialistas em "desautomação" - que identificam onde retornar ao processo humano é mais vantajoso - e até profissionais de governança, ética e conformidade em IA. Calandra destaca ainda as chamadas profissões híbridas, que atuam como ponte entre tecnologia e contexto de negócio. Seriam esses, especialistas em integração humano-máquina e analistas capazes de traduzir resultados técnicos em decisões práticas. "Em um cenário onde a IA redefine rotinas, o valor humano migra para a capacidade de conduzir a requalificação das equipes, promover a adaptação cultural e exercer o julgamento final em situações de alta ambiguidade", afirma. Com informações de Future of Jobs Report do World Economic Forum Mais TechTudo TROQUEI o SPOTIFY pelo YOUTUBE PREMIUM! Vale a pena? Veja o comparativo!