O relatório da Polícia Federal (PF) que indiciou o deputado estadual Rodrigo Bacellar, presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), lista uma série de provas contra o parlamentar, incluindo troca de mensagens, passagens aéreas e planilhas. Segundo a PF, o deputado exercia “a liderança do núcleo político” do Comando Vermelho (CV). Ele foi indiciado por vazar informações sigilosas de investigações. Os detalhes constam do relatório final da Operação Unha e Carne, remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em 188 páginas, o documento descreve que o parlamentar “fornece a interlocução política necessária à blindagem das ações da horda”. Mensagens As mensagens interceptadas ainda mostram que Bacellar vazou a operação contra o ex-deputado TH Jóias na véspera de sua prisão. Após o aviso e sob orientação de Bacellar, o então alvo da operação teria feito uma limpa em casa e no celular. Até um caminhão-baú estava pronto para fazer uma mudança às pressas. Mensagem de Cabral para Bacellar Reprodução/PF Os investigadores ainda conseguiram recuperar uma troca de mensagens entre os dois com orientações de fuga do presidente da Alerj ao deputado que seria preso no dia seguinte. Outras mensagens interceptadas revelam que o ex-governador Sérgio Cabral pediu ajuda ao presidente afastado da Alerj para que intercedesse em um processo em andamento no Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ). Cabral desejava que um processo em que é réu por improbidade administrativa saísse da pauta de julgamentos. O processo posteriormente saiu de pauta, o que motivou um agradecimento de Cabral: "Te amo, amigo". O pedido aparece em mensagens enviadas por Cabral a Bacellar em maio de 2025. Além disso, a Polícia Federal apontou a existência de uma “relação de intimidade” entre Bacellar e o desembargador Macário Judice, caracterizada por “palavras de afeto e troca de declarações efusivas de carinho, que denotam confiança e lealdade”. Em uma conversa, em 4 de novembro de 2025, Bacellar escreveu: “Vc eu levo pro caixão meu irmão nunca duvide disso”, após o magistrado agradecer “pela confiança”. Em outro momento, o ex-presidente da Alerj diz: "Você é irmão de vida". O desembargador também o chamava de "irmão" e em um momento chega a dizer: "Te amo". Planilha com cargos Um dos documentos apresentados é uma planilha intitulada “PEDIDOS EM 12-04-23”, apreendida no gabinete de Bacellar. Segundo a PF, o material funciona como um inventário detalhado do que cada deputado “possui” — cargos e espaços de comando já atribuídos — e dos novos pleitos dentro da estrutura administrativa do governo estadual. Os pedidos estão organizados por nomes e demandas específicas por órgãos, cargos e áreas de influência em setores estratégicos. Planilha apreendida pela PF no gabinete de Bacellar relaciona pedidos de cargos por deputados estaduais Reprodução/PF “Sob a administração de Rodrigo Bacellar, a Alerj potencializou sua influência na tomada de decisões inseridas no rol de prerrogativas do governador do Estado, como, por exemplo, a nomeação dos secretários da Fazenda, Assistência Social, Educação, Polícia Militar e, em certa ocasião, da Polícia Civil”, diz trecho do relatório. Passagem Outra prova citada é a passagem aérea do desembargador federal Macário Judice para São Paulo, onde se encontrou com o ex-presidente Michel Temer. A viagem, segundo a PF, foi uma “contramedida que visava impor empecilhos à persecução penal”. Passagem do desembargador para encontro com Temer Reprodução O objetivo seria tentar chegar ao ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF. Em 10 de dezembro de 2025, Macário embarcou em um voo da GOL Linhas Aéreas, partindo do Rio de Janeiro para São Paulo. De acordo com a PF, o magistrado tinha pressa de se encontrar com o ex-chefe do Executivo por “esperança” de que Temer “intercederia a seu favor” para “frear” a investigação sobre vazamento de informações à facção criminosa. Em diálogo com a esposa, interceptado pela PF, o desembargador relatou o encontro: “Foi boa a conversa, muito educado, muito boa”. Contramedidas Além disso, a PF afirma que Bacellar adotou medidas para reduzir a rastreabilidade de seus deslocamentos e comunicações e dificultar sua identificação. Uma delas foi o uso de aparelhos telefônicos não vinculados diretamente ao usuário principal, conhecidos no jargão policial como “celulares bomba”. Conforme o relatório, “tais dispositivos, por não estarem associados ao titular da linha ou por operarem em circuitos reduzidos, tendem a limitar a rastreabilidade de contatos, dificultar a obtenção de dados dos fluxos de comunicação, conteúdos presentes no aparelho e as reais interações mantidas pelo usuário”. A investigação identificou ainda o uso de um “jammer”, equipamento de bloqueio de sinal, no gabinete do deputado. O dispositivo evita grampos ao bloquear a captação de áudio do ambiente na presença de microfones. Em dezembro, Bacellar foi preso por determinação do ministro Alexandre de Moraes, sob suspeita de envolvimento no vazamento de informações sigilosas da ação que levou à prisão de TH Jóias, em setembro. Na decisão, Moraes afirmou que a investigação mostra que Bacellar é “primeiro contato da lista de comunicação urgente enviada pelo próprio ‘TH Jóias’, evidenciando a importância e a premente necessidade do investigado em se comunicar com o parlamentar”, a quem chama de “01”. Em nota, o advogado Daniel Bialski, que defende Bacellar, afirmou que “inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento; ao contrário, só há ilações desamparadas”. A defesa acrescenta que o indiciamento é “arbitrário e abusivo”.