Fósseis brasileiros de 120 milhões de anos que estavam na Argentina são repatriados

Fósseis de Martinsestheria codoensis, um crustáceo brasileiro com mais de 120 milhões de anos, que estavam em posse da Argentina foram repatriados para o Brasil na última quarta-feira, quando ocorreu uma cerimônia de entrega dos fragmentos no Itamaraty, em Brasília. A espécie consiste em um pequeno animal marinho encontrado apenas na região cearense do Araripe. A recuperação do material arqueológico é fruto de uma ação conjunta entre o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério de Relações Exteriores, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Universidade Regional do Cariri (Urca) e as autoridades argentinas. Florestas tropicais: Brasil envia missão à Ásia para captar recursos para o TFFF. Meta é chegar a US$ 10 bi no fim deste ano USP: incêndio atinge prédio da Faculdade de Direito Os fósseis foram levados do Brasil para a Argentina nos anos 90 por uma pesquisadora que os encaminhou para a Universidad Nacional del Nordeste, em Corrientes. Segundo a paleontóloga Edenilce Peixoto, as peças têm valor inestimável para a comunidade científica, pois serviram de base para a primeira descrição dessa espécie de crustáceo tipicamente brasileiro. São organismos bem pequenos, que aparecem como pontinhos brancos no material fóssil e exigem equipamentos especializados para visualização. — Foi o primeiro organismo separado e estudado para descrever a espécie e publicar as informações voltadas à comunidade acadêmica. Para estudar outros organismos da mesma espécie, será preciso compará-los com esse primeiro, por isso a importância de o material ter retornado ao seu local de origem — explica a paleontóloga. Edenilce é curadora do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, vinculado à Urca, para onde os fósseis serão levados. O museu também vai receber um fóssil de peixe em ótimo estado de preservação, que foi apreendido pela polícia italiana e encaminhado à embaixada brasileira na Itália. Além de servir para fins científicos, a ideia é que o material seja exposto para o público que visitar o local. O pedido de devolução das peças ao Brasil surgiu a partir de denúncia dos pesquisadores da Urca A partir disso, Ricardo Mendonça, procurador da República no Ceará, abriu investigação. O grupo monitora o envio irregular de materiais arqueológicos da região para fora do país. Após a atuação do MPF, via cooperação internacional, a universidade argentina concordou em devolver os fósseis. O que diz a lei A legislação brasileira determina que todo fóssil encontrado em território brasileiro pertence à União (ao Estado brasileiro) e é considerado patrimônio nacional. — O retorno dos fósseis ao Cariri é fundamental para a soberania brasileira, o avanço da pesquisa e a popularização da ciência — comemorou a vice-reitora da Urca, Maria do Socorro Lopes. O Brasil tem uma das mais ricas diversidades de fósseis no mundo, especialmente em regiões como a Chapada do Araripe, que abriga fósseis do período Cretáceo — de 145 milhões a 66 milhões de anos atrás. Contudo, por décadas, muitos desses materiais foram retirados ilegalmente e enviados para coleções privadas e museus estrangeiros, muitas vezes sem o devido registro científico. O MPF já formulou 34 pedidos de cooperação internacional para obter informações e repatriar fósseis cearenses. De 2022 para cá, o país já conseguiu repatriar mais de mil fósseis de animais e plantas, extraídos da região e levados de forma irregular. Segundo o MPF, os Estados Unidos e a Alemanha concentram o maior volume de solicitações para devolução do material. Também há pedidos direcionados ao Reino Unido, Itália, Espanha, Países Baixos, Coreia do Sul, Austrália, França, Suíça, Irlanda, Portugal, Japão e Uruguai.