EUA designam Irã como Estado que pratica prisões arbitrárias e citam invasão de embaixada em Teerã, há 47 anos

O Departamento de Estado dos EUA designou o Irã como “Estado Patrocinador de Detenções Arbitrárias”, em meio à tensão ligada às negociações sobre o programa nuclear do país, e diante da ameaça de uma ação militar. O documento não menciona a aplicação de sanções contra o regime iraniano, mas cita um episódio marcante das relações entre Washington e a República Islâmica: a invasão da Embaixada dos EUA em Teerã em 1979, após a queda da monarquia de Mohammad Reza Pahlavi. “Quando o regime iraniano tomou o poder há 47 anos, o aiatolá [Ruhollah] Khomeini consolidou seu controle endossando a tomada de reféns de funcionários da Embaixada dos EUA”,afirmou, em comunicado, o secretário de Estado, Marco Rubio. “Por décadas, o Irã continuou a deter cruelmente americanos inocentes, bem como cidadãos de outras nações, para usá-los como moeda de troca política contra outros Estados. Essa prática abominável precisa acabar.” Guga Chacra: Um replay da guerra de 2025 no Irã? Tensão no Oriente Médio: Secretário de Estado dos EUA viajará para Israel na segunda-feira para discussões sobre o Irã No ano passado, Trump emitiu uma ordem executiva para proteger americanos no exterior, na qual estabelecia a classificação de “Estado Patrocinador de Detenções Arbitrárias”, e previa punições desde restrições ao uso do passaporte dos EUA até sanções, a suspensão de ajuda e o bloqueio de exportações aos Estados Unidos. Pouco depois, o Congresso aprovou uma lei oficializando as regras. “Se o Irã não parar, seremos forçados a considerar medidas adicionais, incluindo uma possível restrição geográfica de viagens ao uso de passaportes americanos para, através ou a partir do Irã”, declarou Rubio. “O regime iraniano deve parar de fazer reféns e libertar todos os americanos detidos injustamente no Irã, medidas que poderiam pôr fim a essa designação e às ações associadas.” Alvos protegidos: Trump diz que guerra contra o Irã seria 'facilmente vencida', mas imagens de satélite sugerem dificuldades Segundo as autoridades americanas, ao menos quatro cidadãos do país estão presos no Irã, sendo que alguns foram capturados no ano passado, em meio à guerra de 12 dias com Israel e após o bombardeio ordenado por Donald Trump, em junho. No passado, civis com passaportes dos EUA foram usados como moeda de troca entre Teerã e Washington: em 2023, um acordo para liberar US$ 6 bilhões em fundos iranianos congelados na Coreia do Sul envolveu o retorno de cinco americanos. Anos antes, em 2016, o jornalista Jason Rezaian foi solto em uma troca de prisioneiros entre os dois governos, após mais de um ano atrás das grades. No comunicado, Rubio declarou que “nenhum americano deve viajar para o Irã por qualquer motivo”, e reiterou “o apelo para que os americanos que estão atualmente no Irã deixem o país imediatamente” Há anos o Departamento de Estado desencoraja viagens de cidadãos dos EUA ao Irã, e aponta para riscos “incluindo terrorismo, agitação social, sequestro, prisão arbitrária e detenção ilegal”. Atualmente, os dois países negociam um novo acordo para o programa nuclear iraniano, e Trump não descarta o uso de força militar para colocar as autoridades locais nas cordas. “Alguns cidadãos americanos foram mantidos presos por anos sob falsas acusações, submetidos a tortura e até mesmo condenados à morte”, continua o alerta. Americanos desembarcam de avião após serem libertados da embaixada dos EUA em Teerã, em 1981 Fred R. Conrad/The New York Times Na ordem de Rubio, chamou atenção a menção à invasão da Embaixada dos EUA em Teerã, iniciada em 1979. O local, hoje conhecido como “Ninho da Serpente”, foi invadido por simpatizantes do novo regime e estudantes, que mantiveram ali 52 reféns por 444 dias. O governo do então presidente Jimmy Carter ordenou uma ação de resgate, a Operação Eagle Claw, que terminou com a morte de oito militares e ficou marcada como um vexame para o democrata, que perderia a reeleição em 1980 para Ronald Reagan. Os reféns foram libertados em 20 de janeiro de 1981, dia da posse de Reagan, e historiadores apontam para uma coordenação entre os invasores e a campanha do republicano, para que o retorno dos cidadãos americanos ocorresse após as eleições.