Racismo à brasileira: estudo revela os desafios enfrentados por casais inter‑raciais no país

Atualmente, o termo “raça” é entendido pelos estudiosos do tema como um conceito sociológico e político. Ele funciona, historicamente, como um marcador social que atribui valores distintos a corpos diferentes. Uma evidência de que a criação de hierarquias entre grupos humanos, baseadas na ideia de raça, ainda impacta a realidade das pessoas. Espécie que só existe no Ceará: fósseis brasileiros de 120 milhões de anos que estavam na Argentina são repatriados Prevenção de desastres: como um método estatístico pode ajudar cidades a prever e minimizar deslizamentos Em 2022, o IBGE mapeou as desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil, analisando indicadores como mercado de trabalho, renda, moradia, educação, violência e representação política. Em todos eles, a população negra – composta por pretos e pardos e que representa a maioria dos brasileiros (56,1%) – ainda apresenta os piores índices. Nas últimas décadas, o debate sobre as relações raciais no Brasil tem se aprofundado. As discussões sobre identidade racial e racismo têm sido impulsionadas por transformações sociais, tendo em vista as políticas públicas de ação afirmativa, a popularização dos debates promovidos pelos movimentos negros organizados e a crescente visibilidade das questões raciais nos meios de comunicação, na cultura e na produção acadêmica. Esse cenário trouxe novos questionamentos sobre como a raça é vivenciada não apenas no espaço público, mas também nas esferas mais íntimas e privadas. No campo dos estudos sobre as relações inter-raciais conjugais e familiares, pesquisas brasileiras seminais como as de Zelinda Barros, com a dissertação “Casais inter-raciais e suas representações acerca de raça”, de 2003; Laura Moutinho, com o livro “Razão, cor e desejo”, de 2004; Lia Schucman, com o livro “Famílias inter-raciais”, de 2018, e Laura Ueno, com a tese intitulada “Amores (des)racializados”, de 2020, promovem importantes reflexões sobre os efeitos do racismo nas relações amorosas. Essas reflexões evidenciam que o vínculo entre pessoas com diferentes racialidades não é um espaço livre de assimetrias. Ao contrário, essas pesquisas demonstraram que as relações inter-raciais são atravessadas por tensões, hierarquias e silenciamentos. Mas vale destacar que esses estudos inovam ao discutir como, no campo da intimidade, é possível construir formas conjuntas de enfrentar o racismo. A vida a dois é um campo privilegiado de observação dos efeitos do contato com as diferenças, pois nasce justamente do encontro entre dois “estranhos” que resolveram estabelecer uma conexão no mundo, compartilhando vidas e projetos. No contexto do casamento inter-racial, um ingrediente é essencial para uma relação promotora de saúde: o reconhecimento da alteridade. Isto é, a capacidade de reconhecer o outro em sua diferença, buscando acessar de forma profunda afetos, histórias e percepções desconhecidas, sem disputa ou desvalorização. Tramas veladas do racismo estrutural Em pesquisa de mestrado vinculada ao Laboratório de Estudos em Família e Casal, no Departamento de Psicologia da PUC-Rio, realizamos um estudo para compreender como a vivência da conjugalidade entre brancos e negros, em relacionamentos heterossexuais, impacta a identidade de cada parceiro. Investigamos como a experiência de compartilhar a vida com alguém racialmente diferente repercute na forma como cada um vê a si mesmo e lida com as questões raciais. Foram entrevistados oito homens e mulheres negros e brancos, residentes na região metropolitana de uma grande cidade do Sudeste, todos pertencentes à camada média da população brasileira e com alta escolaridade. Muitos entrevistados relataram dificuldades em lidar com as experiências de racismo. Frequentemente, o sofrimento gerado pelo racismo cotidiano aparecia como uma angústia que os parceiros não conseguiam nomear ou, às vezes, buscavam negar. Esse resultado revela como o racismo à brasileira, comumente disfarçado de sutileza, produz impasses para sua identificação e enfrentamento. Lélia Gonzalez, importante militante e intelectual brasileira, destacou o racismo disfarçado ou por denegação como uma característica marcante do racismo no Brasil. Racismo à brasileira O racismo à brasileira se diferencia do racismo por segregação, de caráter mais aberto e explícito, praticado em outros países, como nos Estados Unidos. O racismo é estrutural e está presente nas instituições, na cultura e na sociedade em geral, mas ainda é pouco reconhecido em suas nuances. Este racismo que se apoia no mito da democracia racial a fim de se manter encoberto, se manifesta de forma por vezes velada, mas sistemática. Ele se apresenta em pequenas ações e discursos, em “piadas” e atitudes que reforçam a desigualdade racial e a inferiorização dos negros. A análise das narrativas lançou luz para os mecanismos psicológicos de defesa contra o sofrimento racial empenhados pelos parceiros no relacionamento. No entanto, essas defesas nem sempre significavam um enfrentamento ativo dos desconfortos gerados pelas tensões raciais. Em alguns casos, o tema da raça era minimizado ou evitado nas interações conjugais a fim de prevenir o aumento do sofrimento ou a manifestação de conflitos entre os membros do casal. O silenciamento racial enquanto principal defesa cumpria uma função de manutenção da ilusão de uma relação “protegida” do racismo, mas às custas da não co-elaboração de vivências traumáticas. Papel do parceiro branco: do silêncio ao apoio Os resultados da pesquisa evidenciam que o relacionamento ganha força quando o parceiro branco se envolve ativamente na luta antirracista. Assim, a conjugalidade inter-racial também se mostrou um espaço potencial para a escuta e ressignificação das dores raciais. A análise revelou que, quando há abertura para o diálogo racial, reconhecimento do racismo, responsabilização afetiva, instrumentalização intelectual e política a respeito das questões raciais, o relacionamento pode se tornar um campo de enfrentamento ao racismo e de transformação pessoal. O parceiro negro não deve ocupar o lugar de “educador racial”, mas sua presença enquanto alteridade tem o potencial de convocar o parceiro branco a refletir sobre seu papel na manutenção e no enfrentamento às desigualdades. Para tanto, os parceiros brancos devem compreender a importância de desenvolverem “letramento racial”. Isto é, o entendimento profundo dos efeitos do racismo na estrutura social e a construção de uma posição de apoio e corresponsabilização no combate ao racismo. Os achados indicaram, ainda, que as famílias de origem dos parceiros brancos são, muitas vezes, locus de reprodução do racismo velado. Isso exige que o parceiro branco se posicione frente ao próprio legado familiar, refletindo criticamente a respeito de ideais e valores herdados. O silêncio, a omissão ou a justificação do racismo familiar por parte do parceiro branco corrobora o sofrimento e impacta negativamente o vínculo. Por outro lado, confrontar os ideais familiares racistas fortalece a união e promove o amadurecimento individual. Parentalidade inter-racial O planejamento de filhos surgiu como um ponto sensível, mobilizando, nos parceiros, angústias a respeito da antecipação de violências raciais e das possibilidades de identificação com os filhos. Esses futuros pais e mães questionavam se o entorno social, como a escola, legitimaria suas posições de autoridade parental diante da diferença racial com os filhos. O projeto de parentalidade exige a construção de acordos e estratégias entre os parceiros para lidar com essas angústias. Isso porque a parentalidade será atravessada não somente pela diferença racial entre os parceiros, mas também em relação aos futuros filhos. Dentre as estratégias, destacam-se o letramento racial, sobretudo por parte do parceiro branco, e o fortalecimento e valorização da identidade negra. Espaço de ambivalências e transformações A conjugalidade inter-racial emergiu como um espaço potencial de formação político-racial, favorecendo processos de autoimplicação racial dos parceiros brancos e de legitimação da identidade negra. Ao mesmo tempo, mostrou-se um campo de negociação e, por vezes, de apagamento das racialidades. Foram relatadas tentativas de embranquecimento do parceiro negro e de relativização da brancura do parceiro branco. A tentativa de tornar as diferenças raciais “invisíveis” no relacionamento revela o desafio de admitir que o racismo também molda a vida a dois. Reconhecer a própria racialidade e a do parceiro exige a capacidade de sustentar e nomear desconfortos. Afinal, admitir a alteridade racial significa compreender que o racismo não está apenas “lá fora”, na sociedade, mas penetra na intimidade. O racismo exige um esforço constante – emocional, relacional e social – para ser elaborado e enfrentado. Os achados ressaltam a complexidade do trabalho intersubjetivo implicado na construção da conjugalidade inter-racial. Apostamos que, quando o relacionamento se ancora no reconhecimento mútuo entre os parceiros, é possível a co-criação de um espaço psíquico compartilhado que permita aos parceiros vivenciarem a dimensão criativa e produtiva do vínculo. *A pesquisa que gerou este artigo contou com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes). *Clara Helena Alves de Lima é mestre em Psicologia Clínica, PUC-Rio; Andrea Seixas Magalhães é professora associada do Departamento de Psicologia, PUC-Rio, e Mariana Gouvêa de Matos é pós-doutoranda no programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica, PUC-Rio *Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons