No estande da Editora 34 na Bienal do Livro do Rio, em junho passado, jovens não paravam de brotar atrás de “Noites brancas”, novela do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), ou pedindo indicações de outros títulos do autor. A gerente comercial Eliete Cotrim quis saber por que tanto interesse justamente naquele livrinho (não chega a cem páginas), sobre a desilusão amorosa de um autointitulado “sonhador”, que nunca havia desfrutado do prestígio de outras obras-primas do escritor, como “Crime e castigo” e “Os irmãos Karamázov”. — Eles me mostraram vídeos no TikTok, alguns até bonitinhos, que apresentavam “Noites brancas” como uma história romântica — recorda Eliete. — Há meses estávamos intrigados com o aumento das vendas e não tínhamos noção de que o TikTok estava por trás disso. Desde a pandemia, a rede social chinesa se consolidou como uma fábrica de best-sellers e impulsionou a popularidade de escritores como Collen Hoover e Taylor Jenkins Reid entre os jovens. Mas ninguém imaginava que os booktokers seriam capazes de colocar na lista de mais vendidos um autor russo morto há quase 150 anos e com fama de difícil. Em 2025, a edição da 34 de “Noites brancas”, traduzida por Nivaldo dos Santos, vendeu 62.391 cópias, um salto de 463% em relação ao ano anterior. Segundo o PublishNews, foi o 13º livro de ficção mais vendido no ano passado, à frente de arrasa-quarteirões como “Tudo é rio” (17º), de Carla Madeira, e “Dias perfeitos” (20º), de Raphael Montes. “Noites brancas” está em domínio público e é publicado por várias editoras (34, L&PM, Penguin-Companhia e Principis, entre outras). Somando todas as edições, as vendas da novelinha cresceram 261% em 2025, de acordo com levantamento da Nielsen. Luiz Gaspar, diretor regional da empresa, disse ao GLOBO que a procura pelas obras do russo cresce desde 2020, “mas nada perto do boom que ocorreu de 2024 para 2025”, quando foi registrado um aumento de 142%. E não é somente aqui que o TikTok colocou “Noites brancas” na moda. Em dezembro de 2024, o jornal The Guardian publicou uma reportagem sobre o sucesso que a novela começava a fazer nas redes sociais entre os britânicos. História de verão No TikTok, a hashtag #NoitesBrancas soma mais de duas mil publicações, e a audiência de vídeos sobre o livro aumentou 15% no segundo semestre do ano passado. No mesmo período, as buscas por “Noites brancas” e “Dostoiévski” cresceram 77% e 82%, respectivamente. Há vídeos de todo tipo sobre a obra, de resenhas curtíssimas a tiradas bem-humoradas. Um booktoker xingou o protagonista de “macho palestrinha”, mas admitiu ter gostado do final: “Te dá um tapa na cara.” Outro internauta comparou a desilusão amorosa do protagonista à sua relação com seu time, o Vasco. A novela foi publicada pela primeira vez em 1848, e o título se refere às noites de verão em São Petersburgo, onde, devido à latitude extrema, o Sol nunca se põe totalmente e a luminosidade do crepúsculo dura até o amanhecer. O narrador é um rapaz de 26 anos, melancólico. Alheio ao convívio social, ele se entrega a devaneios e passeia sem rumo pela cidade. Certa noite, avista uma moça chorando numa ponte. Quando ela sai apressada, ele vai atrás e a defende de um bêbado que tenta agarrá-la. Apesar da resistência inicial da jovem, que se chama Nástienka, ele a acompanha até em casa e os dois começam a conversar. O rapaz se apresenta como um “sonhador” e diz que gostaria de vê-la novamente. Ela concorda, mas com uma condição: “Não se apaixone por mim.” Dá para imaginar como a história vai acabar, não? — “Noites brancas” é um dos melhores livros de Dostoiévski. Vale por si mesmo, não precisa ser lido como introdução à obra do autor. Prefiro “Noites brancas” a “O adolescente” e a “Os demônios”, romance de sua fase final, a meu ver confusos e problemáticos — afirma Rubens Figueiredo, tradutor da edição da Penguin-Companhia, que vendeu 16.235 exemplares no ano passado (aumento de 168% em relação a 2024). Em seu texto de apresentação a “Noites brancas”, Figueiredo explica que o “sonhador” é um dos “tipos” criados por Dostoiévski, “uma figura que sintetiza um conjunto de atitudes com relação à vida”, como “pequeno homem” (cidadãos ordinários, humilhados e ofendidos pela servidão e pela burocracia) e o “niilista” (que rejeitava os valores russos em nome do racionalismo europeu). Nas “Crônicas de Petersburgo”, de 1847, Dostoiévski descreve os sonhadores como personagens “sôfregos de uma vida espontânea”, “fracos, femininos, ternos”. Danilo Hora, editor da 34, menciona uma resenha de 1849 na qual Aleksandr Drujínin afirma que a novela retrata “uma geração de pessoas jovens, que são gentis e inteligentes, e são infelizes”, que, “por orgulho, tédio e solidão”, “tornam-se sonhadores”. A carapuça talvez sirva aos usuários do TikTok que se identificaram sinceramente com o protagonista. — O sonhador tem uma vida dupla, é canhestro na rua e pleno e melancólico dentro de si mesmo. Nada é mais adolescente do que essa sensação de não ter par no mundo — diz Hora, que aponta algumas peculiaridades de “Noites brancas” que tornam a leitura convidativa, como sua “ironia doce e romântica” e a ênfase na ação dramática. Fiódor Dostoiévski escreveu “Noites brancas” num período de crise profissional, porque seus livros anteriores, “O duplo” e “A senhoria”, haviam sido massacrados pela crítica. Autor de “Como ler os russos” (Todavia), o tradutor Irineu Franco Perpetuo descreve a novela como “um acerto de contas com o Romantismo”. — Alguns críticos veem “Noites brancas” como uma paródia, como se o autor estivesse ironizando os valores românticos. Mas, obviamente, aos 18 anos você não percebe que é uma paródia e se identifica com o romantismo do livro. Talvez isso explique a conexão dos moleques do TikTok com o livro— diz ele, que leu a novela na adolescência e ficou “chapado”. — “Noites brancas” foi adaptado por cineastas como Luchino Visconti e Robert Bresson, mas nenhum deles fez por Dostoiévski o que o TikTok está fazendo. “Noites brancas” é o livro preferido do servidor público Philipe Rodrigues, de 31 anos, que virou booktoker em 2023 e já dedicou 157 vídeos ao russo. Um deles compartilhando um de seus trechos mais “sonhadores”: “E me pergunto: onde estão os meus sonhos? E balanço a cabeça e digo: como os anos passam voando! E, de novo, me pergunto: o que você fez de seus anos de vida? Onde você enterrou seus melhores dias? Você viveu mesmo ou não?” — É um livro que me impactou. Muita gente se identifica com o drama do protagonista, que é muito retraído, vive no mundo das ideias e se frustra. Também tem quem ache o personagem emocionado demais — afirma Rodrigues, que soma mais de 58 mil seguidores no TikTok e percebe que a maior parte do de seu público não passa dos 20 e poucos anos. — Dostoiévski furou a bolha. Vejo até influenciadores de desenvolvimento pessoal indicando “Noites brancas”. Escritor e editor da Companhia das Letras, Antonio Xerxenesky afirma que, além de “Noites brancas”, outros livros do russo têm sido redescobertos. “Memórias do subsolo”, outra novela protagonizada por um sujeito avesso ao convívio social, é a ficção mais vendida do selo Penguin-Companhia. — Os personagens de Dostoiévski são movidos por angústia, um sentimento predominante entre a nova geração de leitores — diz o autor do premiado romance “Uma tristeza infinita”. Na Editora 34, o sucesso de “Noites brancas” impulsionou a procura por outros clássicos fininhos da literatura russa do século XIX, como “A morte de Ivan Ilitch” e “Felicidade conjugal”, de Liev Tolstói. No começo do ano, um catatau de Dostoiévski também começou a vender mais: “Crime e castigo”. Mas dessa vez não era por causa do TikTok, informa a gerente comercial Eliete Cotrim. Ela notou que as vendas aumentaram quando saiu na imprensa que “Crime e castigo” é uma das obras que o ex-presidente Jair Bolsonaro tem à disposição caso queira reduzir sua pena por meio da leitura. (Ruan de Sousa Gabriel)