Da sobrevivência do regime ao retorno da monarquia: entenda os possíveis cenários para o Irã após ataque dos EUA

Ao atacar o Irã pela segunda vez em menos de um ano, agora com o regime comandado pelo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, como alvo, o presidente dos EUA, Donald Trump, impôs a maior ameaça à República Islâmica desde a revolução que depôs o então aliado de Washington, o xá Mohammad Reza Pahlavi, em 1979. Porta-avião, Jordânia como eixo e destróieres: Saiba como o EUA ampliaram presença militar no Irã Sem diplomatas de carreira: Trump entrega negociações com Irã e Ucrânia a aliado e genro Mas o choque de realidade, tal como em outras intervenções americanas ao redor do mundo, não deve tardar: não existe um cenário definido para o Irã pós-Khamenei, e as alternativas incluem um governo ainda mais anti-Ocidente, comandado por militares, uma guerra civil até a restauração da monarquia. Regime dos aiatolás sobrevive Muito antes das bombas americanas caírem sobre Teerã, o processo de sucessão de Ali Khamenei já estava em curso nos altos círculos da elite religiosa. Em 2033, Khamenei indicou uma comissão para que apontassem possíveis sucessores — a lista teve entre seus favoritos o presidente Ebrahim Raisi, morto em um acidente de helicóptero em 2024 —, um processo foi acelerado em junho do ano passado, durante a guerra de 12 dias com Israel. Entre os candidatos figuram o filho de Khamenei, Mojtaba, e Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, discursa em encontro com apoiadores em Teerã, em 17 de janeiro de 2026 KHAMENEI.IR / AFP Este cenário depende do suporte da Guarda Revolucionária, e pode significar um regime ainda mais repressivo e anti-Ocidente, caso figuras radicais, como o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher-Qalibaf, assumam posições de destaque. Contudo, um degelo gradual, ao estilo do visto na antiga Cortina de Ferro, nos anos 1980, não pode ser descartado, especialmente se Khomeini se tornar o líder supremo. Em qualquer um dos casos, o regime sobrevivente ainda estará fragilizado e com a legitimidade questionada pelas ruas. Guarda Revolucionária assume o poder Caso o regime, em seu formato atual, caia, o cenário mais provável é que a Guarda Revolucionária surja como força garantidora da ordem. Mais do que uma potência militar por si só, a Guarda ostenta um considerável poderio político — vários nomes do primeiro escalão do governo vieram de suas linhas — e econômico — ela domina metade das exportações de petróleo, além de setores como o comércio e a construção civil. Caso assuma as rédeas, a expectativa é pelo estabelecimento de um governo comandado por seus comandantes, pautado pelo fortalecimento do discurso nacionalista e militarista e pelo controle total do aparato de segurança. Membros da Guarda Revolucionária iraniana marchando na capital, Teerã Divulgação / Presidência iraniana / AFP Mas a Guarda Revolucionária não é um monólito. Suas várias facções têm objetivos e prioridades distintas, e essas disputas poderiam desestabilizar tentativas de se criar um governo de transição, que consiga atender às demandas da população e acalmar as ruas. Recentemente, vários países incluíram a organização em suas listas de grupos terroristas, o que atrasaria ou inviabilizaria um diálogo imediato. Por outro lado, caso mantenham a coesão nacional, se mostrem abertos a conversar e ofereçam concessões, podem convencer Washington a lhe estender a mão: o exemplo da Venezuela, onde os chavistas seguem no poder após a captura de Nicolás Maduro, serve como precedente. Guerra civil e levantes internos Disputas entre facções rivais, especialmente na Guarda Revolucionária, aliadas ao colapso do governo de transição, podem criar o ambiente para atritos, mas talvez não de uma forma generalizada. A presença de uma estrutura burocrática antiga, aliada a instituições e mecanismos de governança e à pouca disposição da população em pegar em armas para lutar contra seus compatriotas, são diferenciais em relação a países como a Líbia, onde o Estado central deixou de existir com a queda de Muammar Kadhafi. A questão é como a colcha étnica que forma o Irã vai se comportar. Manifestantes seguram as fotos de cinco militantes curdos mortos pela Guarda Revolucionária durante protestos em Kermanshah SAFIN HAMED/AFP PHOTO Hoje há mais azeris no Irã — onde são 23% da população — do que no Azerbaijão. Em um cenário de instabilidade, Baku (talvez com o apoio da Turquia, que também se preocupa com o fortalecimento do nacionalismo curdo, presente em grupos no Irã), pode intervir sob alegação de proteger seu povo. Há movimentos separatistas, com elementos armados, nas fronteiras com Iraque, Paquistão e Afeganistão, que podem lançar novas empreitadas. Uma intervenção externa por parte de forças regionais ou dos EUA, para evitar que a crise se espalhe pela região, não está fora das cartas. Príncipe herdeiro assume o poder Reza Pahlevi tinha 18 anos quando seu pai, o xá Mohammad Reza, deixou o Irã após ser deposto pela Revolução Islâmica. Desde então, se apresenta como sucessor de um trono que não existe mais desde 1979, e como um candidato a liderar o país se o regime caísse. Em seu discurso, apresenta credenciais democráticas, promete eleições e liberdade de expressão, mas sem condenar os abusos de seu pai. Caso o regime caia, diz ser o nome ideal para liderar a transição e um futuro governo. Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, em discurso nos EUA SAUL LOEB / AFP Apesar de ser citado com frequência nos protestos no Irã, não se sabe exatamente o grau de apoio interno — para analistas, ele foi lembrado mais pela ausência de nomes da oposição do que por seu carisma, e até agora não conseguiu um encontro com Donald Trump. Alguns, especialmente as minorias, se ressentem da repressão de seu pai, e o alinhamento com Israel acende alertas. No ano passado, ele não condenou os ataques israelenses que deixaram mais de mil mortos, e já foi acusado de ser um fantoche do premier Benjamin Netanyahu. Embora rejeite publicamente a ideia, alguns aliados querem o retorno da monarquia, proposta não tão popular entre os iranianos. Mujahedins do Povo no governo Das hipóteses para o período pós-Khamenei, a chegada dos Mujahedins do Povo (MEK) ao comando do Irã é a menos provável. Surgido nos anos 1960, o grupo segue um ideário marxista-islâmico, e participou ativamente da Revolução de 1979. Mas após a instauração da República Islâmica, passou de aliado a rival do regime, e deu início a uma campanha de atentados — que vitimou um presidente — e chegou a lutar ao lado das forças do ditador iraquiano Saddam Hussein na Guerra Irã x Iraque. Maryam Rajavi, líder do Conselho Nacional de Resistência do Irã, braço político do grupo Mujahedins do Povo Stuart Isett/The New York Times Embora tenham o apoio de parte da diáspora e de políticos ocidentais (especialmente nos EUA), o MEK não tem tantos aliados dentro do Irã, onde são vistos como traidores. Há denúncias de que o grupo opera como se fosse um culto, onde os membros são obrigados a seguir uma cartilha que inclui o celibato e a ausência de contato com o exterior. O MEK também não mantém canais de diálogo permanentes com outros elementos da oposição no exílio, especialmente os monarquistas. Mesmo assim, sua líder, Maryam Rajavi, se apresenta como postulante à Presidência após o fim do regime. Seja qual for o desfecho… …os líderes que comandarão o Irã precisarão apresentar, a curto prazo, respostas para a crise econômica que está por trás não apenas dos recentes protestos, mas de levantes similares nos últimos anos. A moeda local, o rial, está em seu nível mais baixo, e a inflação supera os 50% ao ano. Dialogar com o Ocidente para aliviar e retirar as sanções é urgente, e isso incluiria compromissos ligados a temas estratégicos, como o programa nuclear e atividades militares. Em uma etapa futura, reformas voltadas a impulsionar o investimento e desburocratizar a economia serão necessárias, mas dependem de negociações e do grau de poder que as atuais lideranças (especialmente a Guarda Revolucionária) ainda terão.