Ex-refém do Hamas conta os dias de tortura em Gaza

Um barulho de multidão em êxtase despertou a Matan Angrest, 23 anos, refém israelense sequestrado pelo Hamas. Naquele 7 de outubro, ele se viu cercado por homens que o interrogavam em árabe. Estava ferido e imobilizado. + Leia mais notícias de Mundo em Oeste Ele foi capturado perto da fronteira com Israel. No ataque dos terroristas, integrava a equipe de um tanque que lutou por várias horas. O grupo aguardava reforços militares que não chegaram. O tanque foi atingido durante o confronto. Angrest soube da morte de três do seu grupo. Ele foi levado pelos terroristas. A captura foi registrada em vídeo. View this post on Instagram A post shared by Israel Defense Forces (@idf) Mal acordou e o interrogatório teve início. Frenético e violento. A cada titubear na resposta, era torturado e submetido a choques elétricos, conforme contou ao Channel 12. A situação se prolongou durante os dois anos em que permaneceu refém em Gaza . Muitas vezes, a dúvida vinha, por ele não entender as perguntas. Os sequestradores suspeitavam que seu corpo pudesse conter algum dispositivo de localização. Era o argumento imaginário que os fazia acreditar que a tortura se tornou um dever. “Alguém chegou com dois cabos, colocou na minha ferida e ligou a máquina", afirmou Angerest. "Senti que estava sendo eletrocutado. Gritei de uma dor impossível de descrever. Depois fizeram de novo, e de novo." O militar relatou ainda ter sido submetido a um tratamento que remeteu a um estilo medieval para "curar" a ferida sofrida em combate. Segundo o relato, o procedimento foi brutal, realizado por um homem que se apresentava como médico, mas que não tinha preparo profissional. A lesão foi aberta e manipulada durante horas, enquanto sua boca era tampada para impedir gritos. O processo se repetiu diariamente por meses. Nas semanas iniciais de cativeiro, não havia variação: ele permaneceu isolado e imobilizado por algemas. Durante a noite, os sequestradores prendiam sua perna direita a um grande botijão de gás no local onde era mantido, forçando-o a repousar com o membro elevado. “Toda noite você dorme com a perna direita no ar”, era o que diziam. A dor da angústia já vinha sendo vivida desde antes, durante os combates. Angrest sentiu que toda a crença no poderio militar e tecnológico de Israel era uma ilusão. Em vez de recursos para derrotar com facilidade os terroristas, soube depois que seus colegas Itay Chen, Tomer Leibovitz e Daniel Perez, morreram. Atingido, lhe veio à mente um único pensamento. Tão doloroso quanto sua ferida. "Onde está todo mundo? Onde está a ajuda? Dizem que temos tecnologia avançada e as melhores pessoas, mas onde estavam?” O soldado só foi descobrir o destino dos colegas ao ouvir por acaso uma rádio em hebraico ligada por um dos guardas, que transmitia uma homenagem aos companheiros mortos. Mas, em seu íntimo, ele já intuía que as coisas não iam bem. Então, foi sequestrado. Segundo Angrest, os interrogatórios foram frequentes e, em geral, conduzidos em hebraico. Isso não era pretexto para diminuir as torturas. Mesmo assim, encontrou uma fórmula, baseada inclusive em ensinamentos militares de só passar informações públicas ou triviais, como velocidade ou capacidade básica, mas ocultou dados que poderiam comprometer a segurança militar do país. Pensava em um lema, naqueles momentos: “Havia um nível de informação — ‘morra e não conte’”, afirmou. Ex-refém do Hamas percebeu sua importância em Gaza Angrest soube blefar. Com frieza e conhecimento das táticas de guerra. Sua proteção foi baseada na repetição de uma versão simplificada dos fatos sobre o combate. Apegava-se a ela constantemente para evitar contradições. Detalhes até de outros reféns foram ocultados. Não queria prejudicá-los sob pressão. Leia mais: "Confira que são os 20 reféns libertados pelo Hamas em Gaza" E foi percebendo, com sua técnica, a própria importância dele para os sequestradores. “Eles têm poder, mas também precisam de mim”, disse, lembrando que ouviu deles: “Você é soldado. Vale muitos terroristas”. Depois de semanas, Gali Berman, passou a dividir o cativeiro com Angrest. Isso o ajudou a suportar a pressão psicológica das sessões de interrogatório. Depois de mais de dois anos, o tempo pareceu ter perdido o sentido, segundo conta. Ficou surpreso com a libertação, repentina. Não lhe falaram nada. Não sabia do acordo para que os 20 reféns fossem levados à base de Reim, das Forças de Defesa de Israel , naquele 13 de outubro. Do seu grupo, ele e outros três reféns foram vendados e informados de que seriam soltos no dia seguinte. Ao ver soldados israelenses no momento da entrega, repete a sensação que o envolveu: “Senti arrepios no corpo inteiro, como se fosse explodir de felicidade”. O post Ex-refém do Hamas conta os dias de tortura em Gaza apareceu primeiro em Revista Oeste .