Entre despedidas, estreias cheias de fôlego e clássicos que ganham novas leituras, os teatros da Zona Sul iniciam a temporada pós-carnaval com uma programação diversa, que atravessa diferentes gêneros e gerações. Na agenda estão musicais, dramas, autoficção e montagens para o público infantil, com propostas que combinam memória e experimentação, reunindo artistas consagrados e novas vozes em cartaz. Novo Mercado São José lança projeto cultural: Estreia teve João Gil e Lan Lan Surfe e capoeira para mudar vidas: dois projetos sociais com foco no esporte já contemplaram milhares de crianças e jovens na Zona Sul do Rio Depois de dois anos em cartaz pelo Brasil, com apresentações em diferentes capitais e uma passagem anterior pelo Centro, a montagem sobre Nara Leão retorna à cidade para se despedir do público, agora na Zona Sul. Rebatizada ao longo da trajetória, com novo cenário e outra produção, “Os olhos de Nara Leão” ocupa o palco do Teatro Clara Nunes, na Gávea, de sexta-feira a 26 de abril. Escrito e dirigido por Miguel Falabella, o espetáculo é sustentado pela interpretação de Zeze Polessa, que não tenta imitar a cantora. A construção partiu de leituras feitas pela atriz durante a pandemia. — Eu não queria fazer imitação. Fico frustrada quando vejo isso no teatro. Não quero enganar o público dizendo que sou a Nara. Nunca gostei muito de ler biografias, mas um dia me deparei com “Ninguém pode com Nara Leão” e me chamou a atenção. Eu via a Nara como uma figura doce, mas ali apareceu uma mulher firme, política, inquieta— afirma a atriz. A dramaturgia rejeita a linha cronológica tradicional. Em cena, ela interpreta canções como “A banda”, “Diz que fui por aí”, “Corcovado”, “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” e “Opinião”. — Quando a gente começou a estruturar a peça, eu e o Miguel falamos logo o que não queríamos. E ele não queria datas. Ele tem uma teoria metafísica, que acho linda, segundo a qual o planeta é revestido por uma camada de cera onde nossa história fica gravada. Então as cenas voltam como presença, não como lembrança. Nada é contado na peça, tudo é vivido — diz Zeze. Última temporada. Zeze Polessa estrela montagem sobre Nara Leão que entra em cartaz sexta-feira no Teatro Clara Nunes Divulgação/Priscila Prade A atriz não esconde a admiração por Nara e a peça, ressaltando a liberdade que guiou a trajetória da artista. Ela também não esconde os desafios e conta que foi sua própria algoz e vítima quando Falabella disse para ela interpretar Nara. — Ela dizia que era melhor ter menos sucesso e mais personalidade. Trabalhou muito essa ideia de liberdade, inclusive a liberdade dela como mulher. Fazer um monólogo é sempre desafiador; digo que é uma escola para o ator, e ainda mais cantando. As músicas de Nara são difíceis, tive que trabalhar muito minha audição e a voz. Cheguei a relutar em fazer essa personagem porque ela morreu com 47 anos. O etarismo é um preconceito estrutural. Foi o Miguel quem me encorajou — destaca a atriz, de 72 anos. Intitulada apenas “Nara” quando estreou em 2024, a rebatizada “Os olhos de Nara Leão” terá sessões às sextas e aos sábados, às 20h; e aos domingos, às 19h. Os ingressos custam R$ 160 (inteira) na plateia e R$ 140 (inteira) no balcão. Rosamaria Murtinho e a neta Outra estreia marcada para sexta-feira é de “Uma vida em cores” no Teatro I Love Prio, no Jockey, na Lagoa, onde faz temporada até 5 de abril. Inspirado na trajetória da fashionista Iris Apfel, o espetáculo põe Rosamaria Murtinho e a neta Sofia Mendonça frente a frente em cena. O encontro entre uma mulher experiente e uma jovem jornalista transforma entrevista em acerto de contas geracional. A peça aborda etarismo, autonomia e reinvenção, temas que atravessam o debate cultural contemporâneo. Dirigido e escrito por Cacau Hygino, o espetáculo expande a ideia original, concebida anos atrás como um solo, e agora aposta na troca entre duas intérpretes para aprofundar conflitos e afetos. A personagem livremente inspirada na trajetória de Iris Apfel revisita memórias de amor, perdas e conquistas enquanto a jovem repórter, a neta de Rosamaria, tenta conduzir uma entrevista decisiva para sua carreira. O que se estabelece, porém, é um diálogo franco sobre identidade, ambição e o valor do tempo. A presença de avó e neta no palco adiciona uma camada de verdade à encenação, que alterna humor e emoção para refletir sobre a coragem de se reinventar em qualquer idade. Rosamaria Murtinho. A atriz dá vida a Iris Apfel em peça que conta a trajetória da fashionista Divulgação/Vera Donato — “Uma vida em cores” é um convite para rir, se emocionar e sair do teatro com vontade de viver com mais ousadia, liberdade e alegria — destaca o diretor. A peça terá sessões sextas, às 20h; sábados, às 19h; e domingos, às 18h. O ingresso custa R$ 120 (inteira). Com direção de Amir Haddad e atuação de Vannessa Gerbelli, “Sombras no final da escadaria” apresenta o último texto de Luiz Carlos Góes em uma comédia dramática que combina ironia e contundência. Em cena, uma atriz sem nome e em dificuldades financeiras ocupa um teatro e afirma que só deixará o espaço à força, tentando contornar o fracasso da estreia com um discurso que começa errático e quase farsesco, mas que gradualmente se transforma em relato confessional, revelando marcas de abusos, misoginia e as fissuras de um ambiente cultural pouco acolhedor. Entre o humor e o incômodo, o espetáculo questiona como se reerguer depois do tombo e quais segredos se escondem nas sombras evocadas pela personagem. A montagem fica em cartaz no Teatro Domingos Oliveira, na Gávea, até o próximo dia 29, com sessões às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h. O ingresso custa R$ 80 (inteira). Onda gastronômica: Surfista Filipe Toledo inaugura primeira unidade do seu restaurante no Rio De volta aos palcos em nova montagem, “Eu sou minha própria mulher”, texto de Doug Wright vencedor do Pulitzer, ganha direção de Herson Capri e traz novamente Edwin Luisi sozinho em cena. O ator interpreta mais de 20 personagens para narrar a trajetória real de Charlotte von Mahlsdorf (1928-2002), travesti alemã que sobreviveu ao nazismo e à repressão do pós-guerra mantendo um museu de antiguidades e um cabaré LGBTQIA+ clandestino como espaços de memória e resistência. O drama biográfico ressalta temas como identidade, intolerância e liberdade individual, reafirmando a atualidade de uma obra que transforma a história pessoal de Charlotte em reflexão sobre coragem e permanência. A peça fica em cartaz até 26 de abril no Teatro Poeira, em Botafogo, com sessões de quinta a sábado, às 20h; e domingos, às 19h. O ingresso custa R$ 140 (inteira). O Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, recebe “Cadeira de balanço”, de 8 a 29 de março, aos domingos, às 18h, com ingresso a R$ 30 (inteira). No solo, Dudu Gehlen revisita a história da bisavó maranhense. No mesmo teatro tem também “Édipo de novo?”, até o próximo dia 27, com sessões às sextas, às 20h, e ingresso a R$ 60 (inteira). O texto revisita o clássico de Sófocles em tom de comédia irreverente. No Sesc Copacabana, na Sala Multiuso, “Memórias para se transformar em flor” estreia quinta-feira e segue até o próximo dia 15, sempre de quinta a domingo, às 19h, propondo uma experiência performática em que o público define o rumo da narrativa a cada apresentação. Criado e dirigido pelo colombiano Mauricio Flórez, o espetáculo investiga, por meio da dança e de estímulos sensoriais, a relação entre corpo humano e universo vegetal, em um percurso que atravessa mitologia e ciência até a metáfora da transformação em flor. O ingresso custa R$ 30 (inteira). Além da temporada, o projeto desdobra-se na oficina gratuita “Metamorfoses do corpo”, terça e quarta da semana que vem, das 19h às 21h, voltada a artistas e estudantes de artes cênicas. As aulas propõem pesquisa, experimentação e compartilhamento de ferramentas a partir da dança como prática pedagógica. Evento gratuito: Arena montada na areia leva música, esporte e debates à Praia de São Conrado Também no Sesc Copacabana, a Arena recebe “Auto da compadecida”, até o próximo dia 29. A montagem dirigida por Gabriel Villela atualiza o clássico de Ariano Suassuna. Sessões de quinta a sábado, às 20h; e domingos, às 18h, com ingressos de R$ 10 a R$ 30. No Teatro Vannucci, na Gávea, “A.M.I.G.A.S” ocupa a programação às segundas e terças, às 20h, até 28 de abril. A comédia acompanha três mulheres que criam a Associação das Mulheres Interessadas em Gargalhadas, Amor e Sexo, discutindo amizade e autonomia com leveza. O ingresso custa R$ 120 (inteira). Em Botafogo, o Teatro Poeirinha recebe “F E R A”, às terças e quartas, às 20h, até 22 de abril. Inspirada em relato real, a peça mergulha na vulnerabilidade humana diante da natureza. No mesmo endereço, o Teatro Poeira apresenta “O homem decomposto”, reunindo pequenas histórias que refletem sobre isolamento e incomunicabilidade. Sessões também às terças e quartas, às 20h, até 29 de abril. As duas montagens têm ingresso a R$ 80 (inteira). O Poeira será palco também de “Temporal”, fábula contemporânea que questiona nossa relação com o tempo. A peça estreia na próxima quinta e fica em cartaz até 26 de abril, de quinta a sábado, às 20h; e domingos, às 19h.Ingresso a R$ 100 (inteira). Para os pequenos, a Companhia Teatral Queimados Encena apresenta “A Bela Adormecida” no Teatro Ruth de Souza, em Santa Teresa. A versão dirigida por Leandro Santanna reconta o clássico em um reino africano fictício, com princesa negra e elementos da cultura e mitologia do continente, em uma proposta que valoriza representatividade, ancestralidade e diversidade. Estreia sábado que vem e pode ser vista até 29 de março, aos sábados e domingos, às 11h, com ingressos a R$ 30 (inteira). A companhia carioca Etc e Tal estreia no dia 7 de março de 2026, no Teatro Glaucio Gill, o espetáculo infantojuvenil Dom Quixote, releitura do clássico de Miguel de Cervantes. Em cartaz até 29 de março, com sessões aos sábados e domingos, às 16h, a montagem aposta na mímica, na pantomima e na narrativa gestual para conduzir crianças e adultos por uma jornada cômica e poética ao lado de Dom Quixote e Sancho Pança, onde objetos cotidianos se transformam em escudos, monstros e delírios da imaginação. Com direção de Alvaro Assad e atuação de Assad e Marcio Moura, o espetáculo celebra o poder do corpo como linguagem universal. Indicado para maiores de 5 anos, tem ingressos a R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda na bilheteria e online. “Cabaré do Glaucio”. Nova edição recorda a vida noturna de antigamente no Rio Divulgação/Cabaré do Glaucio Imaginário boêmio Em março, o Cabaré do Glaucio, instalado no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, recebe “Sarjeta: noites cariocas do Cassino da Urca”, uma edição que mergulha na atmosfera vibrante da antiga vida noturna do Rio para refletir, em cena, sobre desejo, excessos, glamour e contradições que atravessam gerações. A montagem ocupa o espaço às 22h nos seguintes dias do mês: 12, 13 e 14; 19, 20 e 21; e 27 e 28. O espetáculo reúne teatro, música, dança e performance em uma experiência que revisita o imaginário boêmio da cidade sem recorrer à nostalgia. O ingresso custa R$ 5 (inteira), à venda na bilheteria ou no site oficial da Funarj. O teatro é palco também da peça “A coisa”, texto de Leandro Soares dirigido e interpretado pelo próprio Soares ao lado de André Dale e George Sauma. O espetáculo mistura humor e metalinguagem para refletir sobre o próprio fazer teatral. A sessões são às quartas-feiras, às 20h, e a temporada vai até 1º de abril. A entrada custa R$ 60 (inteira). Initial plugin text