Em 4 de janeiro, um adolescente matou brutalmente um cachorro, por pura maldade, por ser uma pessoa estritamente ruim; o caso comoveu o Brasil e tomou as redes sociais. Só se falou disso durante uma ou mais semanas; no mercado, no futebol, na academia, onde eu entrava o “cão Orelha” era saudosamente lembrado. Obviamente que não tenho “coração peludo”. Fiquei verdadeiramente sentido com o relato das notícias sobre o caso e, se estivesse lá, é bem provável que teria quebrado o adolescente no cacete. + Leia mais notícias de Brasil em Oeste Eu sinceramente espero que ele seja punido, que sua condição mental seja investigada, pois me nego a acreditar que uma pessoa que mata de maneira cruel um cachorro, por pura sanha e desejo, não tenha sérios distúrbios perigosos à sociedade. E, no ritmo das redes, agrupamentos de militantes em prol da causa animal cobraram o agravamento da pena do jovem, pediram mudanças e o endurecimento das punições a esse tipo de crime, pediram que Orelha fosse eternizado e, com um pouco mais mais de ousadia, até pediriam a canonização do cachorro na Praça de São Pedro! O governo federal prometeu um projeto de lei para tratar de endurecer as penas por maus-tratos aos animais, deputados nos deram a bênção de se mobilizarem etc. O cão Orelha, por fim, não poderia ter morrido em vão — diziam-nos; a sociedade usaria sua morte como exemplo para ser mais punitiva, mais dura com bandidos..., mas, vejam só... Cão Orelha foi vítima de agressões em Florianópolis | Foto: Reprodução/Redes sociais No último dia 21, uma senhora de 82 anos foi morta com dezenas de pauladas, seguida de asfixia, no Paraná . Tratava-se de uma freira, cujo único objetivo, funcionalidade imanente, era fazer o bem e rezar por terceiros. Sua morte foi uma das coisas mais brutais e sem sentido que vimos nos últimos anos no país. O assassino foi preso em seguida, estava visivelmente drogado e disse ter cometido o assassinato porque “vozes em sua cabeça” assim mandaram. Ele está com 38 anos agora, ou seja, é muito provável que, por mais alta que seja a sua pena dentro dos limites fofos de nosso Código Penal, ele logo seja solto. No entanto, se avaliarmos, por meio do termômetro da indignação das redes e cobertura midiática, é fácil notar que a morte do cão moveu muito mais indignação e disposição para a mudança na legislação do que o assassinato da freira. Não encontrei nenhum grupo a se levantar para defender a dignidade da religiosa, fazer justiça por sua memória e utilizar a tragédia como motor de endurecimento no Código Penal. Novamente, como sempre digo, há cadáveres que não servem a uma causa, a um discurso, nem alimentam a pira de qualquer revolução de instante, não servem para revoltosos on-line. A seletividade moral entre esses dois fatos me soa extremamente chocante. É óbvio que não estou aqui negligenciando o crime do adolescente, apenas afirmando um fato que para muitos se tornou absurdo hoje: a vida de um ser humano, de um inocente humano, a dignidade humana, deve ser mais protegida, despertar mais indignação quando violada do que a de um animal. Sim, veja que absurdo: eu acredito na hierarquia ontológica dos seres. + Morte do cão Orelha gera projetos contra maus-tratos de animais Eu gosto de animais, eu tenho um Pinscher, a Zara, e trato-a genuinamente como um membro da família, mas não há sequer o mínimo de igualdade entre ela e minha esposa, entre ela e meus filhos. Eu gosto dela, mas não a trato como igual, eu vigio sua saúde, sua alimentação, mas não a chamo de filha. Pois ela não é. A adoração moderna aos animais demonstra uma falência clara na percepção moral do que importa. Na gradação daquilo que devíamos proteger, os animais vêm depois dos seres humanos. Ainda que haja animais menos danosos que o homem, ainda que seja o homem o arquiteto do mal no mundo, ainda assim é o homem que porta a racionalidade, a capacidade de engendrar o bem, de livremente amar, que é capaz de ser bom por mera disponibilidade. No homem há mais que instintos, há planos e ações livres; e, para o bem ou para o mal, o homem é o único dotado de destreza moral para gerir e entender sua responsabilidade na existência. Mas, antes de tudo, a dignidade humana não é uma concessão social, nem um atributo adquirido por mérito, utilidade ou capacidade; ela é uma propriedade intrínseca da própria condição de ser pessoa. E isso deveria ser claro, somente a partir disso conseguimos defender, por exemplo, uma visão humanista integral. https://www.youtube.com/watch?v=mVrt0P1a8AE O animal pode sofrer, pode sentir e reagir, mas não possui consciência moral de si, não responde por seus atos, nem participa da ordem simbólica e ética que estrutura o mundo humano. O homem, ao contrário, é capaz de dever, de culpa, de sacrifício e de amor consciente — realidades que só existem onde há pessoa. Valorizar a vida humana acima da vida animal, portanto, não é um gesto de desprezo pela natureza, mas um reconhecimento da singularidade ontológica da pessoa humana. É reconhecer que, no homem, a vida não é meramente um fenômeno biológico, mas o suporte de uma consciência moral, de uma identidade irrepetível e de uma dignidade que não pode ser medida nem substituída. Por isso sempre vejo com ressalvas as ações da militância da causa animal, que perde do seu horizonte o limite entre o cuidado e a adoração substituta, que confunde amor à criação com sacrifício da dignidade humana. Sempre denunciei aqui a podridão que habita a alma decaída do homem; o homem que fez gulags, campos de concentração, que mata seus semelhantes por mero prazer. Porém, o homem também é capaz de caridade, de construir hospitais e orfanatos, de doar sua existência livremente aos miseráveis e esquecidos, ele é capaz de amar estranhos e de construir famílias na base da solicitude gratuita e do amor profundo. Se a morte de um cachorro chocar mais você do que o assassinato a pauladas de uma idosa indefesa que doou sua vida inteira aos mais esquecidos da sociedade, que passou horas rezando por pessoas que provavelmente sequer sabiam de sua existência e até mesmo a desprezassem, que devotou cada pulsar de seu coração a Deus; se Orelha lhe fez mover ativismos e a freira durou apenas três segundos em seu feed e em sua memória, então recomendo que repense sua existência. Afinal, você só pode devotar esse amor aos animais, pois está na condição de ser um homem racional, capaz disso. Fico pensando aqui: será que se a freira, por exemplo, latisse em vez de rezar, seu assassinato soaria mais digno de repulsa social e ativismo político? 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