“Eu me sinto uma menina em quadra, sabe?”, dispara Jaqueline Carvalho no começo da entrevista. Aos 42 anos, a bicampeã olímpica, protagonista de algumas das campanhas mais marcantes do vôlei brasileiro, volta às quadras defendendo o time Pinheiros. “Na verdade, recebi um convite para treinar no clube. Eu não sabia como estava meu corpo, minha resistência… Não imaginava que estaria tão bem fisicamente para poder retornar. E aconteceu. Estou surpreendendo não só as pessoas que estão assistindo, mas a mim mesma”, reflete. Mas nada é por acaso. Jaque sempre foi reconhecida pela potência em quadra e por sua disciplina. A atleta conta que sempre cuidou muito bem da alimentação, do físico, da pele. “Então, estou colhendo os resultados da rotina de cuidados que mantive. É uma forma de mostrar para as pessoas que, realmente, não existe idade para fazer o que você ama. Existe planejamento e determinação.” Casada com o também campeão mundial Murilo Endres, com quem tem o filho Paulo Arthur, de 12 anos, Jaqueline construiu uma carreira marcada por conquistas históricas, incluindo o ouro nos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Ainda assim, por trás das medalhas, existia uma atleta que escondia suas fragilidades. “Eu sempre fui muito fechada. Sofria muito mais do que as pessoas imaginavam, mas guardava tudo para mim”, relembra. “Achava que precisava ser forte o tempo todo.” Jaqueline volta a jogar vôlei aos 42 anos Ricardo Bufolin / Pinheiros Essa postura foi colocada à prova em um dos momentos mais delicados de sua vida: a perda da primeira gestação. “Foi um período muito difícil. Eu me senti perdida, mas, ao mesmo tempo, o vôlei virou meu refúgio. Canalizei aquela dor para a quadra”, conta. E isso refletiu diretamente em sua performance. Concentrada, resiliente e conectada ao time, Jaqueline protagonizou uma de suas fases técnicas mais consistentes, sendo frequentemente apontada como uma das atletas mais decisivas em quadra. Hoje, aos 42 anos, ao retornar ao voleibol profissional, ela reconhece que maturidade emocional se tornou uma de suas maiores forças. A Jaque que antes carregava tudo em silêncio agora fala abertamente sobre processos internos, limites e aprendizados. “Agora entendo que não preciso dar conta de tudo sozinha. A maturidade me trouxe equilíbrio, como atleta e como mulher.” Confira a entrevista: Vogue: Você ficou quatro anos sem jogar. Como aconteceu o retorno? Jaqueline: Eu recebi um convite para, incialmente, treinar com o time Pinheiros. Para ser sincera, eu não imaginava voltar a jogar profissionalmente. Eu não sabia nem como meu corpo reagiria. Mas comecei a treinar e fui me surpreendendo. Hoje eu vejo que não existe idade para fazer o que a gente ama. Existe planejamento e determinação. Vogue: O que essa volta representa neste momento da sua vida? Jaqueline: Representa superação. Passei por lesões muito graves e por momentos em que achei que não voltaria a jogar. Mas também representa legado. Hoje estou em quadra com meninas de 20 anos e posso dividir experiências que vivi. Quero mostrar para essa nova geração que elas podem chegar onde quiserem — e que o caminho exige persistência. Vogue: Como é esse encontro de gerações dentro da quadra? Jaqueline: É muito bonito. No começo rolou aquela “tietagem”, porque elas assistiam aos jogos da nossa geração. E, ao mesmo tempo, elas me trazem energia. Treinar com meninas tão jovens me faz sentir jovem também. Vogue: A maturidade mudou sua relação com o esporte? Jaqueline: Mudou completamente. Hoje eu conheço meu corpo. Eu sei até onde posso ir e tenho muito mais cuidado com recuperação, alimentação e descanso — coisas que antes eu não valorizava tanto. Hoje eu cuido dez vezes mais do que cuidava quando era mais nova. Vogue: Como você lida com o envelhecimento sendo uma atleta de alto rendimento? Jaqueline: Eu vejo que estou envelhecendo com saúde, e isso é o mais importante. Mas eu ainda não sinto tanto a idade, sinto mais a recuperação física, que realmente muda. Mas mentalmente estou muito mais leve. E isso faz diferença enorme. Vogue: Você já pensa em menopausa e longevidade? Já está se preparando? Jaqueline: Sim. Converso muito com a minha mãe sobre isso. Ela teve uma menopausa tranquila e é muito ativa até hoje, então quero seguir esse exemplo. Eu acredito muito em se preparar e se cuidar para viver bem todas as fases. Vogue: Quais diferenças você percebe entre sua geração e a atual? Jaqueline: Mudou bastante. Hoje existe muito mais exposição por causa das redes sociais. Na nossa época, a gente vivia praticamente só o voleibol. Era muito mais focado. Mas vejo uma geração talentosa e muito dedicada. Vogue: Um ano antes das Olimpíadas de Londres, em 2012, você viveu uma das fases mais complexas das sua vida, não? Jaqueline: Sim. Eu era louca para ser mãe, e engravidei do meu primeiro filho. Mas, aos três meses de gestação, perdi o bebê. Me senti tão impotente. Eu pensava, gente, o que eu fiz de errado? Será que eu comi algo que não devia? Será que eu tomei algum remédio? Você se culpa… Minha cabeça virou um turbilhão. Foi um período muito doído, triste e complicado. Mas daí, o Zé Roberto [Guimarães, técnico da seleção de volei feminino na época] me convocou para a seleção olímpica, mesmo eu estando sem time. Ele acreditou em mim. Voltei para o time e me tornei a melhor jogadora da final das Olimpíadas. Voltei bicampeã olímpica. E em 2013, veio mais uma medalha que foi meu filho, Paulo Arthur [hoje com 12 anos]. Então foi tudo, sabe, do jeitinho que Deus quis, no tempo certo. Vogue: A maternidade mudou sua relação com o esporte? Jaqueline: Mudou tudo. Depois que tive meu filho, o vôlei ficou mais leve. Antes eu colocava muita pressão em mim mesma. Depois, percebi que o mais importante era minha família. E foi justamente depois da maternidade que joguei alguns dos melhores campeonatos da minha carreira. Meu filho trouxe leveza para o meu jogo. Vogue: Que mensagem você deixaria para mulheres que têm medo de que a maternidade atrapalhe a carreira? Jaqueline: Que a maternidade não atrapalha — transforma. Claro que ajuda ter rede de apoio, minha mãe, o Murilo [Endres, também jogador de vôlei], que é um marido e um pai muito presente… mas a mulher se adapta. A gente descobre uma força que nem sabia que existia. Mulher é muito forte, a gente é guerreira. Vogue: Você passou por perdas e contusões importantes ao longo da carreira. Como conseguiu transformar isso em força? Jaqueline: Eu sempre fui muito resiliente. Sempre guardei minhas dores e transformei em motivação. Depois que perdi meu bebê na primeira gestação, fiquei devastada. Mas o vôlei me salvou. Canalizei tudo para a quadra. Foi um período muito difícil, mas também muito transformador. Vogue: Hoje, o que mais te motiva? Jaqueline: Desafio. Eu amo me desafiar. Quero mostrar que idade não limita ninguém, ela só muda a forma como a gente caminha, o ritmo. Vogue: Se pudesse definir essa nova fase em uma palavra? Jaqueline: Amor. Eu tenho muito amor pelo que faço — e isso move tudo.