Análise: Ao lançar ataque contra o Irã sem objetivo definido, Trump evoca fracassos passados dos EUA

Ao lançar ataques contra o Irã, após semanas de ameaças, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que buscava “impedir que essa ditadura radical e perversa ameace os Estados Unidos e nossos principais interesses de segurança nacional”, sem dar detalhes sobre o que seriam tais ameaças. Fascinado pelo Nobel da Paz, Trump bombardeou o território iraniano pela segunda vez em menos de um ano, e parece convencido a seguir os passos nada louváveis de um de seus antecessores na Casa Branca. Entenda: Líderes mundiais reagem a ataques de EUA e Israel contra o Irã e alertam para risco de escalada Impactos imediatos: Vídeos mostram destruição em Teerã após ataques de EUA e Israel contra o Irã Na mensagem de oito minutos publicada em suas redes sociais, Trump acusou o regime iraniano de rejeitar “todas as oportunidades” para abandonar seu programa nuclear, que na visão dos EUA tem fins militares, e declarou que a guerra era uma “missão nobre”. Indo além, defendeu uma mudança de regime, mas não pelas mãos dos Estados Unidos — como ocorreu no próprio Irã em 1953, com apoio do Reino Unido — mas por parte da população que há semanas está nas ruas protestando contra o governo. Também disse a uma das maiores forças militares do Oriente Médio que baixassem as armas em troca de anistia. — Quando terminarmos, assumam o governo. Ele será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que terão por gerações — afirmou Trump no vídeo. — Por muitos anos, vocês pediram a ajuda dos Estados Unidos, mas nunca a receberam. Nenhum presidente esteve disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer esta noite. Agora vocês têm um presidente que está lhes dando o que vocês querem, então vamos ver como vocês reagem. O Irã tem uma bomba atômica? Como a República Islâmica montou programa nuclear alvo de ataque de EUA e Israel Ao contrário dos ataques de junho do ano passado, centrados em instalações nucleares, a nova guerra de Trump não tem um objetivo claro. Desde o começo do ano, quando deixou clara sua intenção de lançar bombas contra o Irã, Trump disse que poderia atacar o país em resposta à repressão dos protestos nas ruas — que deixaram milhares de mortos —, para pressionar o país a aceitar um acordo nuclear maximalista ou a mudança de regime. Por semanas, a cúpula do Pentágono se debruçou sobre planos com diferentes desfechos. Um ataque pontual contra alvos estratégicos, bombardeios amplos — como parece ter sido a opção do republicano — e as infames “boots on the ground”, o envio de tropas para o território iraniano. Como foi revelado através de fontes nas Forças Armadas, os generais alertavam o republicano sobre os desfechos de uma operação. Ainda mais sem saber o que exatamente queria Trump ao cumprir o desejo de presidentes americanos desde 1979. Porta-aviões e aeronaves de combate: EUA têm maior poder de fogo no Oriente Médio desde a invasão no Iraque; veja infográficos Como apontam analistas, a derrubada imediata do regime, como ocorreu na Síria no final de 2024, é improvável. Ao longo de 47 anos, que incluíram uma violenta guerra contra o Iraque, a República Islâmica estendeu seus domínios sobre o Estado e a economia iraniana. Mesmo antes dos bombardeios, o aiatolá Ali Khamenei, desde 1989 o líder supremo, determinou a criação de comitês para decidir seu substituto e linhas de sucessão em cargos estratégicos. As décadas de sanções internacionais serviram como terreno para a expansão não militar da Guarda Revolucionária, que hoje controla os principais setores da economia iraniana, e está pronta para assumir o poder caso seja necessário. A guerra de junho do ano passado, quando Israel e os EUA violaram o espaço aéreo iraniano para atacar alvos militares e nucleares, serviu como um sinal de alerta existencial em Teerã. Imagens de satélite mostraram que o regime aprendeu com seus erros, reforçando defesas e protegendo as já quase invioláveis instalações de enriquecimento de urânio, como Fordow, e de desenvolvimento de mísseis balísticos. Os ataques iniciais contra países do Golfo e Israel mostraram que o formidável arsenal iraniano segue operacional e capaz de causar estragos, se assim o regime decidir. Fascinado pelo Nobel da Paz e sem jamais ter pisado em uma base militar como soldado — o filósofo Erasmo de Roterdã disse certa vez que “a guerra é doce para aqueles que jamais provaram seu gosto” —, Trump lançou um conflito sem saber como ele terminará, e sem permitir que diplomatas fizessem seu trabalho. Na quinta-feira, representantes dos EUA e do Irã se sentaram à mesa em busca de um novo acordo sobre o programa nuclear iraniano, para substituir um plano funcional rasgado por Trump há oito anos. Quem manda mais? Entenda como é a estrutura política do Irã, alvo de ataque dos EUA e de Israel Horas antes das bombas caírem em Teerã, Karaj, Qom, Isfahã, Tabriz e Kermanshah, o chanceler de Omã, país que serve como mediador, relatou que os iranianos estavam dispostos a abrir mão do armazenamento de urânio enriquecido, um ponto central nas discussões, e a diluir o material enriquecido a níveis civis, tornando improvável seu uso em uma bomba. Em entrevista à rede CBS, Badr Albusaidi afirmou que um acordo “estava ao alcance. Neste sábado, disse em suas redes sociais que “nem os interesses dos Estados Unidos nem a causa da paz mundial são beneficiados por isso (ataque)”. O ataque guarda semelhanças com a última grande aventura americana no Oriente Médio. Em 2003, na esteira da Guerra ao Terror, o então presidente George W. Bush invadiu o Iraque, sob a falsa alegação de que o regime de Saddam Hussein estava estocando armas de destruição em massa. Saddam não era exatamente um homem da paz: em suas duas décadas e meia no poder, lançou guerras violentas contra seus vizinhos (Irã e Kuwait), oprimiu a própria população e estabeleceu um governo totalitário. Saddam caiu meses depois da invasão americana, foi preso e executado horas antes do fim de 2006. Contudo, os impactos da guerra até hoje assombram os EUA. Segundo a ONG Iraq Body Count, entre 150 mil e 200 mil iraquianos morreram. Cerca de 5 mil militares americanos e de países aliados perderam a vida. E mais do que a violência da guerra, o colapso do Estado iraquiano serviu de terreno para uma guerra civil fratricida e para o surgimento de organizações extremistas, como o Estado Islâmico. Embora a estrutura do Estado iraniano não abra (em teoria) espaço para desfechos como o de Saddam e de Bashar al-Assad na Síria, uma guerra prolongada traz riscos de um conflito interno, incitado por disputas políticas e étnicas, e para ações extremas de um regime que luta pela própria sobrevivência, com impactos que vão além do Oriente Médio. Bush, quando atacou o Iraque, fez um pronunciamento ao vivo aos americanos. Trump escolheu um vídeo publicado em suas redes sociais, de madrugada, para anunciar uma guerra que é rejeitada pela maior parte de seus cidadãos.