Os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã adicionam uma camada de incerteza para o cenário inflacionário do Brasil justamente na entrada do mês em que está prometido pelo Banco Central o início do ciclo de corte de juros. Como já se sabe, as principais variáveis a serem monitoradas nesse momento são o preço do petróleo e o dólar. Avaliação: Opep+ considera um reajuste maior na produção após ofensiva contra o Irã, relatam delegados Extensão: Mísseis em Dubai e Abu Dhabi abalam 'neutralidade' dos principais centros financeiros do Oriente Médio No caso da commodity, o risco de alta parece maior, uma vez que o Irã não só é um produtor gigantesco como ainda fechou o estreito de Ormuz. Por outro lado, a Opep+, grupo de países com grande produção de petróleo, sinalizou a possibilidade de elevação da produção, o que pode contrabalançar a pressão altista. Para o Brasil, que tem uma produção significativa, a alta do petróleo pode ter um efeito positivo em termos de renda, inclusive para os cofres públicos. Já o impacto sobre a inflação, caso se consolide um cenário de alta da commodity, depende muito de como vai se comportar a taxa de câmbio. Normalmente, esse tipo de situação de aumento da incerteza leva a uma fuga dos investidores para ativos considerados de menor risco, como o dólar, que tenderia a subir. Porém, mais recentemente, diante das confusões políticas geradas pelo presidente Donald Trump, os movimentos dos mercados têm sido mais confusos, com algumas vezes o dólar perdendo valor para ativos de países emergentes mesmo com aumento da percepção de risco. Ao longo dos últimos meses, mas intensificando-se nesse ano, o real teve valorização significativa ante o dólar, o que é uma ótima notícia para o cenário inflacionário. Mesmo com um mercado mal-humorado na última sexta-feira, por conta da inflação bem mais alta do que se esperava na prévia de fevereiro e o aumento da incerteza externa, o dólar fechou negociado a R$ 5,13, em estabilidade. A cotação ficou bem abaixo dos R$ 5,35 considerados pelo Copom em seu cenário de referência quando decidiu manter os juros em janeiro, mas sinalizou início dos cortes em março — ainda que sem se comprometer com um ritmo de largada. A reunião do colegiado do BC está prevista para os dias 17 e 18 e até lá muita coisa pode acontecer e é preciso aguardar para ver toda a extensão e desdobramentos do conflito no Oriente Médio antes de ser taxativo. Mas o cenário bastante benigno que se desenhou nas últimas semanas com a valorização do real ganhou um ponto de interrogação que precisará ser monitorado atentamente.