Os ataques deste sábado realizados pelos EUA e Israel ao Irã provocaram desconforto imediato entre alguns dos aliados do presidente americano, Donald Trump, na base MAGA, da sigla em inglês de “Make America Great Again” (“Faça a América Grande de Novo”). Apoiadores do líder republicano expressaram temores de que os ataques pudessem arrastar os Estados Unidos para mais um conflito prolongado no Oriente Médio, sinalizaram um "descumprimento" da promessa de campanha de Trump em 2024 — de se concentrar na economia e não em conflitos externos — e alertaram que a ação militar no Golfo Pérsico poderia prejudicar os republicanos nas eleições de meio de mandato de novembro. Ataques contra o Irã: Veja cobertura completa Entenda: EUA e Israel fazem ataque coordenado contra o Irã com promessa de fim do regime dos aiatolás e da ameaça nuclear Trump argumentou que a ofensiva era necessária para derrubar o regime iraniano, mesmo que isso provavelmente custaria vidas americanas. No entanto, vários apoiadores proeminentes de Trump pressionaram por mais explicações, alertando que as autoridades precisavam apresentar argumentos mais abrangentes para aqueles que o apoiavam, em parte devido à sua promessa de garantir que não haja “nenhuma nova guerra”. — Temos que ser honestos e admitir que há uma sensação de que isso não foi suficientemente comunicado ao público americano — disse Andrew Kolvet, porta-voz do Turning Point USA, no programa “The Charlie Kirk Show”. Esse sentimento foi ecoado por outros aliados do presidente americano em declarações públicas e nas redes sociais. E refletiu preocupações dentro da órbita de Trump de que houve pouca coordenação na comunicação antes do ataque, para que os aliados pudessem articular adequadamente o plano geral do governo. Teocracia em baixa: EUA atacam Irã em seu momento de maior fragilidade; veja como funciona a República Islâmica Reagan Box, uma das várias candidatas republicanas para substituir a ex-deputada dos EUA Marjorie Taylor Greene na Geórgia, disse que, embora seja apoiadora de Trump e faça parte da base MAGA, não apoia os ataques ao Irã. Embora classifique a liderança da República Islâmica "hedionda", ela afirmou à Reuters que "toda vez que tentamos fazer uma mudança de regime, especialmente no Oriente Médio, acabamos por desestabilizá-lo". Segundo a CNN, assessores de Trump também expressaram preocupação, em conversas privadas, com os riscos políticos de uma guerra prolongada com o Irã, que poderia diminuir ainda mais o entusiasmo da base MAGA — além de desviar a atenção de Trump das questões internas, ainda consideradas as principais preocupações do governo antes das eleições de meio de mandato. Os Hodgetwins, uma dupla popular de podcasters conservadores que são apoiadores de Trump, criticaram os ataques em uma postagem para seus 3,5 milhões de seguidores no X, que classificaram como "antitéticos" em relação à campanha de 2024 do presidente. "Libertar o povo do Irã não é o motivo pelo qual votei em Trump", dizia a publicação. Initial plugin text Efeitos eleitorais Enquanto pesquisas de opinião pública mostram consistentemente que a principal preocupação dos americanos é o aumento do custo de vida, grande parte dos primeiros 13 meses de Trump à frente da Casa Branca em seu segundo mandato foi dominada por questões de política externa. Os líderes republicanos no Congresso temem que o descontentamento dos eleitores se reflita nas eleições de novembro. Membros do Congresso têm se manifestado sobre os ataques dos Estados Unidos ao Irã, e republicanos e democratas divergem significativamente. Os republicanos, em sua maioria, elogiaram o presidente Trump pelo que consideraram uma operação crucial contra um país que há muito ameaçava os Estados Unidos e seus aliados. Muitos evitaram abordar a questão de se o presidente precisava de autorização do Congresso para realizar uma operação militar de longa duração, e os que divergiram publicamente mencionaram este tópico como uma crítica à determinação da Casa Branca. O senador Rand Paul, republicano de Kentucky e patrocinador da resolução bipartidária de poderes de guerra, compartilhou “simpatia pela situação do povo iraniano”, mas disse nas mídias sociais que “se oporia a outra guerra presidencial”. Em sua publicação, ele destacou que "a Constituição conferiu o poder de declarar ou iniciar guerra ao Congresso por um motivo, para tornar a guerra menos provável”. Sob o mesmo argumento, o deputado Thomas Massie, republicano de Kentucky e fervoroso oponente da intervenção militar no exterior, descreveu os ataques nas mídias sociais como “atos de guerra não autorizados pelo Congresso”. Ataques contra o Irã: Saiba quais comandantes teriam morrido e quais foram os alvos de ação dos EUA e Israel Os democratas alertaram que o Trump estava arrastando o país para outra guerra prolongada no Oriente Médio e colocando em risco desnecessariamente as tropas americanas. Democratas e um pequeno bloco de republicanos na Câmara e no Senado planejavam forçar uma votação na próxima semana sobre se deveriam impedir o presidente de declarar guerra ao Irã sem a aprovação do Congresso. O governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, que é presidenciável, afirmou que, embora apoie a mudança de regime no Irã e acredite que o país não deva possuir armas nucleares, isso “não justifica que o presidente dos Estados Unidos se envolva em uma guerra ilegal e perigosa que colocará em risco a vida de nossos militares americanos e de nossos amigos, sem justificativa para o povo americano”. A Lei de Poderes de Guerra de 1973 exige que as administrações notifiquem o Congresso em até 48 horas após o envio das forças armadas dos EUA para hostilidades ou para situações em que o envolvimento iminente em hostilidades seja claramente indicado. A lei visava garantir transparência e supervisão legislativa na ausência de uma declaração formal de guerra. "Esta administração é obrigada pela Lei de Poderes de Guerra de 1973 a notificar o Congresso em até 48 horas após o envio das forças armadas dos EUA para hostilidades ou para situações em que o envolvimento iminente em hostilidades seja claramente indicado. A lei tinha como objetivo garantir transparência e supervisão legislativa na ausência de uma declaração formal de guerra." 'Impacto fatal': Repórter do GLOBO mostra mísseis iranianos no céu dos Emirados Árabes que paralisaram maior hub da aviação mundial O presidente da Câmara, Mike Johnson, republicano da Louisiana, afirmou que Trump havia esgotado as “soluções pacíficas e diplomáticas” para frustrar as ambições nucleares do Irã e que agora o Irã estava “enfrentando as severas consequências de suas ações malignas”. Segundo ele, o Grupo dos Oito — os líderes da Câmara e do Senado de ambos os partidos — foi informado esta semana de que uma ação militar no Irã era uma possibilidade “para proteger as tropas e os cidadãos americanos no Irã”. Ele afirmou que o Irã e seus aliados “ameaçaram a América e as vidas americanas”, minaram os interesses dos EUA e “colocaram em risco a segurança de todo o Ocidente”. O senador John Thune, republicano da Dakota do Sul e líder da maioria, elogiou Trump por tomar medidas, dizendo que o Irã “representava uma ameaça clara e inaceitável” aos Estados Unidos e seus aliados há anos e que “recusou as vias de saída diplomáticas”. Ele disse que o secretário de Estado, Marco Rubio, havia fornecido atualizações sobre a operação na última semana e que o governo informaria os membros do Congresso sobre os ataques. O Grupo dos Oito, que por lei deve ser mantido informado em tempo real sobre operações secretas de inteligência, também costuma ser notificado de ações militares, embora o governo Trump nem sempre o tenha feito. Presidentes de ambos os partidos há muito buscam um controle militar mais unilateral e argumentam que a lei infringe sua autoridade constitucional como comandante-em-chefe, resultando frequentemente em notificações limitadas, tardias ou restritas. (Com New York Times)