Segundo líder supremo do Irã depois da revolução de 1979 e a figura política mais importante do país depois do aiatolá Ruhollah Khomeini, o aiatolá Ali Khamenei morreu neste sábado em ataques dos EUA e de Israel ao Irã, deixando em aberto o seu processo de sucessão e o próprio futuro da República Islâmica, anunciou o presidente dos EUA, Donald Trump. A confirmação veio após o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ter dito que havia fortes indícios de sua morte. Veja: Imagens de satélite mostram destruição em residência do líder supremo do Irã, Ali Khamenei Ataques contra o Irã: Veja cobertura completa Khamenei nasceu em um dos centros do islã do Irã, Mashad, em junho de 1939. Segundo filho de um teórico religioso, chamado pelo futuro líder supremo de “um pouco cético”, não teve uma infância de luxos, morando em uma casa pequena com seus pais e sete irmãos. Na juventude, seguiu o caminho do pai nos estudos religiosos, e aos 19 anos foi para Qom, a “capital religiosa” do Irã, onde passou a ter contatos com intelectuais de diversas correntes políticas. Ali, teve aulas com o já influente Ruhollah Khomeini — na época, em meados dos anos 1960, começava a surgir um movimento organizado de oposição ao xá Reza Pahlevi, ao qual Khamenei se uniu em seus primeiros momentos. Ataques contra o Irã: Saiba quais comandantes teriam morrido e quais foram os alvos de ação dos EUA e Israel Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei (C), em evento com comandantes das Forças Armadas KHAMENEI.IR/AFP PHOTO Como escreveu o jornalista e dissidente Akbar Ganji em um longo perfil sobre as bases intelectuais de Khamenei para a revista Foreign Affairs, talvez nenhum líder religioso do Irã tenha sido tão cosmopolita como ele, um ávido consumidor de obras de autores clássicos iranianos, russos e franceses: em 2001, em uma entrevista na TV, disse que “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, era o melhor romance da História. Ao mesmo tempo, seus anos acadêmicos moldaram posições de sua trajetória política, a começar pela ideia de que o Ocidente e os valores das democracias liberais estavam diante de um declínio inevitável, e que expressavam uma visão de mundo abertamente islamofóbica. Também era um admirador das ideias do poeta egípcio Sayyid al-Qutb, principal teórico da Irmandade Muçulmana e que propagava a ideia de um Estado islâmico: para Khamenei, “o Islã sem um governo e uma nação muçulmana sem o Islã são algo sem sentido”. Initial plugin text Ideias que coincidiam com o pensamento de Khomeini, que durante o reinado de Mohammad Reza Pahlevi agregou o apoio de todos os campos da sociedade, passando de líderes religiosos até o histórico partido comunista iraniano, o Tudeh, culminando com a Revolução Islâmica de 1979. Em fevereiro daquele ano, Pahlevi pilotaria seu Boeing 707 do aeroporto de Mehrabad, em Teerã, pela última vez, abrindo caminho para o retorno de Khomeini do exílio e a fundação da República Islâmica, como queria Khamenei, que não tardou a se inserir no novo governo. Revolucionário Próximo de outro nome dominante da vida política iraniana, Ali Hashemi Rafsanjani, Khamenei conseguiu um posto de vice-ministro da Defesa em 1979, ocupando ainda uma cadeira no novo Parlamento. O futuro líder supremo também foi indicado como o imã das orações de sexta-feira, um dos postos de maior prestígio no país. Mas, em 1981, sua trajetória daria uma guinada brusca: naquele período, o Irã enfrentava uma violenta invasão do Iraque, e os principais grupos políticos travavam suas próprias batalhas pelo poder. Instabilidade: Moradores fogem de Teerã após ataques dos EUA e Israel; insegurança toma conta da região diante de retaliações do Irã Em junho, dias depois de o Parlamento aprovar o impeachment do então presidente, Abolhassan Bani Sadr, Khamenei sofreu um atentado em uma mesquita de Teerã, que por pouco não o matou, mas o deixou com sequelas permanentes em um dos braços e nas cordas vocais. Em agosto, após o assassinato de outro presidente, Mohammed Ali Rajai, também em um atentado, Khamenei foi escolhido para sucedê-lo. Seu governo foi duramente marcado pela guerra, que deixaria cerca de um milhão de mortos, pela intensificação dos laços com os militares e pelo fortalecimento da Guarda Revolucionária, que hoje comanda boa parte do Estado iraniano. 'Impacto fatal': Repórter do GLOBO mostra mísseis iranianos no céu dos Emirados Árabes que paralisaram maior hub da aviação mundial Ditador do Iraque, Saddam Hussein INA/AFP O antagonismo aos EUA se intensificou diante do apoio de Washington a Saddam Hussein na guerra que durou oito anos: em 1987, usou a tribuna da Assembleia Geral da ONU para atacar as políticas americanas para seu país, no passado e no presente. — Nosso povo demonstrou fé em seus objetivos, e que dará até mesmo a vida para permanecer comprometido com eles. Uma nação assim não pode ter medo dos Estados Unidos ou de qualquer outra potência — disse Khamenei. — Com a graça de Alá, nossa nação mostrará que a verdade prevalece e que a vitória pertence aos crentes justos. Impossibilitado de concorrer novamente à Presidência, e diante dos problemas de saúde de Khomeini, Khamenei voltou-se para o processo de sucessão do líder supremo. Àquela altura, o aiatolá Ali Montazeri era o favorito, mas críticas que fez milhares de execuções extrajudiciais de dissidentes, ordenadas pelo próprio Khomeini, o tiraram da disputa. Após a morte do líder supremo, em 1989, coube à Assembleia dos Especialistas, órgão responsável pela escolha, decidir quem ocuparia o posto. Entenda: O Irã tem uma bomba atômica? Como a República Islâmica montou programa nuclear alvo de ataque de EUA e Israel Khamenei agora era o favorito, mas dependeu de uma questionável mudança na Constituição para ser confirmado: ele não tinha as credenciais religiosas necessárias, e a reforma sofreu duras críticas de outros clérigos. Montazeri não participou da escolha, uma vez que tinha sido posto em prisão domiciliar, onde permaneceu até sua morte, em 2009. Presidente eleito do Irã, Hassan Rouhani (2º da E para D), em visita ao mausoléu do fundador da República Islâmica, nos arredores de Teerã ATTA KENARE / AFP Dentro do complexo modelo de poder no Irã, o líder supremo tem a decisão final em políticas de Estado, como na economia e na diplomacia. Choques com o presidente, eleito pelo povo e que não necessariamente segue suas ideias, não são raros. Foi o que aconteceu em determinados momentos do primeiro mandato de Rafsanjani, um moderado e que tinha como tarefa central a reconstrução no pós-guerra. O processo de reformas econômicas e sociais sofreu interferências do líder supremo e de seus aliados no Parlamento. Dissidentes eram reprimidos nas ruas e por vezes obrigados a deixar o país. Em 1997, o establishment foi surpreendido pela eleição de Mohammed Khatami, um clérigo reformista que não escondia a vontade de melhorar os laços com os EUA, então a única superpotência no planeta. Como aponta Ganji, o discurso antiamericano de Khamenei se intensificou, assim como suas tentativas de minar os planos do novo governo para modificar a sociedade iraniana. O Parlamento, aliado de Khamenei, removeu vários ministros, e vozes progressistas foram silenciadas por meio do fechamento de jornais ou assassinatos políticos. Com a chegada do conservador Mahmoud Ahmadinejad, um polêmico ex-prefeito de Teerã conhecido por seus comentários antissemitas, Khamenei obteve um certo alinhamento. O antagonismo aos EUA se intensificou, assim como os passos para o desenvolvimento do programa nuclear, acusado de ter fins militares — Khamenei chegou a emitir uma fatwa, um decreto religioso, negando tal possibilidade, mas muitos questionam se a ordem realmente existe. — Não queremos uma arma nuclear. Não por causa do que dizem, mas por nós mesmos, por causa da nossa religião, por causa das nossas razões racionais. Esta é tanto a nossa fatwa religiosa quanto a nossa fatwa racional — declarou em um discurso em 2015. — Nossa fatwa racional é que não precisamos de armas nucleares hoje, amanhã ou nunca. As armas nucleares são uma fonte de problemas para um país como o nosso. Apoiadores do candidato à Presidência do Irã Mir Hossein Mousavi durante protesto em Teerã BEHROUZ MEHRI/AFP Em 2009, após a contestada reeleição de Ahmadinejad, o líder supremo acusou os manifestantes que tomaram as ruas de serem uma ferramenta de “mudança de regime” patrocinada pelos EUA. Como esperado, ele aprovou a ampla repressão que deixou centenas de mortos e levou milhares à prisão. O líder supremo ainda deu aval para outras ondas de repressão, como a de 2022 a 2023, quando multidões foram às ruas contra as draconianas regras morais do país, que têm no uso do véu pelas mulheres seu maior expoente. Em 2026, autorizou outra contra manifestantes que se levantaram contra o regime, em uma repressão que deixou estimadas dezenas de milhares de mortos. Sucessão Um ponto central da ideologia de Khamenei é uma preocupação quase paranoica com supostas ameaças à República Islâmica: os ecos da invasão americana ao Iraque, das sanções internacionais e de uma "conspiração internacional" para derrubar o regime guiaram discursos e decisões. Mas em 2015, apesar das críticas públicas, ele deu aval às negociações de um acordo sobre o programa nuclear do país, firmado com cinco outros países, incluindo os EUA. Em troca de limites às atividades atômicas, parte das sanções seria suspensa, dando novo fôlego a uma economia com sérios problemas. O plano viria abaixo em 2018, quando Donald Trump retirou os EUA do acordo e ampliou a política de sanções. Um ano depois, disse ter alertado o então presidente Hassan Rouhani sobre os riscos de lidar com os EUA e, em 2022, já em meio às negociações para a reativação do plano, disse que as conversas eram “fúteis”. Em 2026, passou a pressionar por um novo acordo enquanto estabelecia perto do Oriente Médio a maior mobilização militar dos EUA na região desde a guerra do Iraque. Ali Khamenei lidera orações em mesquita durante encerramento do Ramadã Khamenei.ir/AFP Por questões de saúde, Khamenei foi se ausentando cada vez mais da vida pública, evitando grandes deslocamentos e reduzindo o número de visitas de aliados e líderes estrangeiros, especialmente durante a pandemia da Covid-19, que matou 144 mil iranianos. Em vez do combativo líder, conhecido por seus discursos incisivos contra seus inimigos, Khamenei era cada vez mais uma figura simbólica, com decisões políticas delegadas a assessores. Mesmo assim, Khamenei entrou na lista de alvos de Israel, com o premier, Benjamin Netanyahu, dizendo que sua morte poderia levar ao fim do conflito. Além do legado político de quase quatro décadas, a morte de Khamenei deixa no ar dúvidas sobre quem será seu sucessor. Até o ano passado, o então presidente Ebrahim Raisi era considerado um dos nomes mais fortes para se tornar o líder supremo, mas ele morreu em um acidente aéreo, desfazendo um acerto que era dado como praticamente certo. Outro candidato era seu filho, Mojtaba, mas ao contrário da sucessão de Khomeini, o processo atual pode ser bem mais complexo. Como aponta Sina Toossi, pesquisador do Centro de Políticas Internacionais, Khamenei angariou tanto poder ao longo de sua carreira que será difícil, senão impossível, manter a coesão do cargo com apenas uma pessoa, sugerindo a formação de uma junta, possivelmente comandada pela ala mais conservadora do regime. Outra hipótese é a de que o novo líder supremo terá um aspecto mais simbólico do que prático, em meio a uma transição da estrutura da República Islâmica mais ampla, na qual a Guarda Revolucionária concentraria o poder e deixaria os clérigos em segundo plano.