Dom Quixote encontra “Narcos”. É assim que Sean Murphy, roteirista e ilustrador de “Zorro: a ressurreição”, define sua nova HQ. Na releitura do clássico herói mascarado — criado como personagem da literatura pulp em 1919 —, o autor narra a história de um jovem que acredita ser o lendário Zorro numa fictícia cidade chamada La Vega, no México, onde um chefão do crime controla, com mão de ferro, não apenas o tráfico de drogas, como a própria população. Luto: Os amores de Dennis Carvalho — diretor foi casado com seis atrizes e teve quatro filhos 'Nunca parei': Fúlvio Stefanini celebra 70 anos de carreira com estreia em teatro no RJ e de olho no futuro Em entrevista por e-mail, o quadrinista americano fala sobre o trabalho — publicado originalmente por financiamento coletivo — e comenta ainda o politizado “Batman: Cavaleiro Branco” (Panini), que ganhou destaque ao inverter os papéis do homem-morcego e do Coringa. Murphy explica que o objetivo é conciliar projetos autorais com trabalhos para grandes editoras, como a DC Comics: “Minha política é: um para mim, um para eles.” Em “Zorro: a ressurreição”, você leva o personagem para um cenário contemporâneo. O que o levou a abordar o Zorro nesse contexto? Sou um grande fã de carros. E, por mais estranho que pareça, sempre que começo um novo projeto, costumo pensar qual tipo de carro posso colocar na história. Comecei a refletir sobre meu herói pulp favorito, o Zorro, e que tipo de carro ele dirigiria se eu tivesse a chance de transportá-lo para um cenário moderno. A resposta a que cheguei foi o El Camino dos anos 1970: imaginei-o na parte de trás, com seu chicote e sua espada, enquanto outra pessoa estaria ao volante. E comecei a construir uma história que me levasse até essa imagem. Obviamente, é uma ideia bem boba, então comecei a equilibrá-la com elementos mais sérios. Eu tinha acabado de assistir à série “Narcos” e percebi que acrescentar um elemento ligado ao tráfico de drogas e a uma cidade de fronteira ajudaria a dar mais realismo à trama e elevar as apostas. E, em vez de fazer o Zorro viajar para o futuro (ou transformar tudo num sonho estranho), achei que uma abordagem mais interessante seria espelhar Dom Quixote e fazer com que o personagem ficasse confuso sobre em que período estava vivendo. Isso me permitiu ter um Zorro clássico, com todos aqueles ótimos diálogos à la Guy Williams (ator que interpretou o personagem na clássica série de TV dos anos 1950), ao mesmo tempo que criava uma trama única e atualizada que talvez o público ainda não tenha visto. Você trabalhou com roteiristas distintos como Grant Morrison (“Joe, o bárbaro”), Rick Remender (“Tokyo Ghost”) e Mark Millar (“Crononautas”). O que aprendeu com eles e como essas experiências moldaram sua própria narrativa? Tive muita sorte de trabalhar com alguns dos melhores, e aprendi algo importante com cada um deles. Com o Remender, aprendi a administrar um projeto sem a ajuda de um editor e a tratar de política de maneira divertida. Com Millar, aprendi muito sobre marketing e sobre como criar um “elevator pitch” (apresentar uma ideia no tempo de uma viagem de elevador) claro e conciso. E, com Morrison, aprendi a incorporar elementos estranhos que ajudam a tornar uma história mais única. “Punk Rock Jesus” (Panini) marcou um passo importante como projeto autoral, com você escrevendo e ilustrando a série. Como essa experiência foi diferente das colaborações anteriores e quais desafios vieram com o controle criativo? Eu poderia falar sobre isso por muito tempo, mas vou manter a resposta breve. Adoro desenhar minhas próprias histórias porque sei como explorar meus pontos fortes: gosto de história, de grandes cenários e sequências marcantes, e de perseguições de carro. Então, embora talvez eu não seja o melhor roteirista dos quadrinhos, sei como transformar um roteiro nota B em um livro nota A. Pelo menos, esse é o meu objetivo. Em “Batman: Cavaleiro Branco” (Panini), você não apenas inverteu a dinâmica entre Batman e Coringa, mas também colocou a cidade de Gotham no centro de um debate político e social mais amplo sobre vigilantismo. Como desenvolveu essa trama mais politizada e como equilibrou isso com o legado dos personagens? As pessoas têm curiosidade sobre como abordar política sem agradar demais (ou abandonar) parte dos leitores. Acho que o segredo é ter personagens dos dois lados do espectro. É preciso criar alguns com os quais você talvez não concorde, torná-los simpáticos e dar a eles argumentos convincentes que desafiem aqueles com quem você concorda. Assim, leitores de diferentes posições políticas se sentirão representados. Isso é mais fácil quando o roteirista está disposto a considerar as questões políticas sob diferentes perspectivas. E é mais difícil quando o autor é obcecado por redes sociais, porque o algoritmo é projetado para mostrar apenas um lado do debate. É preciso paciência, coragem e humildade — mas eu adoraria que mais roteiristas tratassem a política com maior complexidade. Sua carreira transita entre projetos autorais e personagens consagrados. Você aborda esses dois tipos de trabalho de forma diferente ou seu processo criativo permanece essencialmente o mesmo? Quando aceito trabalhar com um personagem mais comercial, como o Batman, depois eu alterno para projetos originais, nos quais fico com 100% dos lucros. Alguns dizem que há mais liberdade e integridade nos personagens autorais, onde a questão financeira pesa menos. Mas eu acho que dá para ter as duas coisas.