Chapas para o governo do Rio evidenciam dificuldade de Lula no estado desde o surgimento do bolsonarismo

Anunciadas nas últimas semanas, as duas principais chapas para a eleição do Rio são sintomáticas de como o estado virou um terreno pouco fértil para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mesmo na candidatura que representará o palanque do petista, a de Eduardo Paes (PSD), o grupo escolhido para ocupar o posto de vice tende a dividir a aliança e pedir votos para Flávio Bolsonaro (PL). Já na chapa da direita, avalizada pelo presidenciável, agruparam-se os partidos com maior capilaridade na política local, que concentram mais da metade das prefeituras fluminenses. Análise: no berço de Bolsonaro, quem construiu a chapa da direita foram as máquinas partidárias O cenário é consequência da reconfiguração do mapa eleitoral do Rio, terceiro maior colégio do país, desde o surgimento do bolsonarismo, em 2018. Até então, o PT havia vencido com folga no estado o segundo turno das disputas presidenciais entre 2002 e 2014, com força sobretudo nas áreas mais populares — que nas duas últimas eleições votaram massivamente no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Para este ano, internamente, o PT não alimenta a esperança de ser mais votado que a direita no Rio, mas tenta reduzir danos. O cenário considerado ideal passa por perder de menos do que há quatro anos, quando Bolsonaro venceu por 13 pontos de vantagem, o equivalente a mais de 1,2 milhão de votos. Na equação, o que compensou o baque foi o desempenho satisfatório em São Paulo, onde a derrota de Lula se deu por margem bem menor do que nas duas disputas anteriores do partido. Os resultados de eleições presidenciais no Rio Editoria de Arte Há, no entanto, um obstáculo evidente para os planos petistas, que é o fato de quase todo o establishment político local evitar se associar a Lula — com base no diagnóstico de que o presidente acaba prejudicando suas próprias ambições. Paes, na esteira da longa relação pessoal entre os dois, é a exceção, mas o prefeito e pré-candidato a governador sabe que não pode ser lulista de carteirinha, dado o casamento inevitável entre a eleição nacional e a estadual. Escopo ampliado A fim de ampliar o escopo da candidatura, o aliado de Lula indicou a advogada Jane Reis, irmã do cacique do MDB Washington Reis, para vice da chapa. O ex-prefeito de Duque de Caxias disse, no dia do anúncio da parceria, que fará campanha para Flávio. Segundo maior colégio eleitoral do estado, a cidade da Baixada Fluminense é comandada hoje por um sobrinho do dirigente. Na direita, o anúncio do primeiro desenho da aliança foi feito de forma integral e com o filho de Bolsonaro na foto. Em Brasília, o presidenciável apresentou o secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas (PL), como candidato ao governo, tendo o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa (PP) na vice. Para o Senado, os nomes colocados agora são o do governador Cláudio Castro (PL) e o do prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União). Os quatro nomes representam o poder das respectivas máquinas partidárias. Juntos, PL, PP e União elegeram 51 dos 92 prefeitos do Rio em 2024. Flávio Bolsonaro (ao centro) bateu o martelo para indicar Marcio Canella (primeiro à esquerda), Castro, Douglas Ruas e Rogério Lisboa (à direita) para a chapa do PL no Rio Reprodução/Redes sociais Diante dessa concertação oposicionista, o PT aposta as fichas na força de Paes. Tanto que, na sexta-feira, um dos principais quadros do partido no estado, o ex-presidente da Assembleia Legislativa André Ceciliano, almoçou com o prefeito para se reaproximar depois de terem trocado farpas publicamente em janeiro. Lula irá ao Rio nesta semana para novos compromissos públicos ao lado do pré-candidato. — O Rio é um estado conservador, e por isso temos defendido que é preciso ampliar as alianças, ir para o centro. O Eduardo segue essa linha, tem reiterado o apoio ao presidente Lula e é fundamental para nós, independentemente da escolha da vice. Tanto que terá com ele duas agendas do PAC nos próximos dias — afirma o presidente estadual do PT, Diego Zeidan. — Para fortalecer o partido, o “13”, também teremos Benedita da Silva candidata ao Senado. Histórico Com exceção de 1994, a eleição pós-Plano Real que fez o tucano Fernando Henrique Cardoso só perder em duas unidades da federação, as eleições presidenciais entre 1989 e 2014 no Rio tiveram como vencedores representantes da cultura política do trabalhismo — Leonel Brizola e Anthony Garotinho — ou o PT. Em alguns casos, inclusive, a força local do brizolismo ajudou Lula. Foi o caso de 1998, quando o líder histórico do PDT se candidatou a vice-presidente na chapa do petista, o que deu à dobradinha Lula-Brizola mais votos do que Fernando Henrique no estado, apesar de o tucano ter resolvido a eleição nacional logo no primeiro turno. Quatro anos depois, Garotinho, já pelo PSB e recém-desincompatibilizado do cargo de governador, venceu o primeiro turno no estado, mas apoiou Lula no segundo turno e foi crucial para fazer com que o Rio figurasse como o local em que o candidato do PT ganhou por maior margem naquela eleição: 79% a 21% contra José Serra (PSDB). A partir de 2018, contudo, a direita se fincou no estado que é o berço político de Bolsonaro. Na esteira do problema da segurança pública, encontrou um terreno propício para discursos radicais. Valores conservadores também são apontados pela classe política como uma das causas. O Rio tem, por exemplo, 32% de evangélicos, percentual superior aos 26,9% da média nacional.