Tragédia na Zona da Mata: os dilemas e medos de uma cidade de MG onde um a cada quatro moradores vive em áreas de risco

Vilardo Galone e Felixon Delgado dividem o mesmo terreno, no alto do Três Moinhos, um dos bairros mais afetados pelos deslizamentos de Juiz de Fora (MG). Há quatro décadas, Galone montou seu bar e, no andar de cima, sua casa. Com o crescimento da família, seu genro, Delgado, construiu mais dois pavimentos, onde vive com a mulher e três filhos. Após a tragédia, eles se dividem sobre o futuro: enquanto o sogro diz que não vale a pena continuar no local, o parente mais novo não quer abrir mão do esforço e investimento de uma década. Um dilema que ilustra os desafios e medos de uma cidade onde um a cada quatro moradores vive em áreas de risco. Tragédia na Zona da Mata: Chega a 70 o número de mortes em decorrência das chuvas em Minas Gerais Governo federal: Lula diz que governo poderá comprar casa já pronta para famílias que perderam residência após tragédia em MG Em Juiz de Fora, 128.946 pessoas (23,7% da população) residem em locais vulneráveis a deslizamentos, enxurradas e inundações, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). É o nono maior contingente entre as cidades do país, numa lista capitaneada por capitais como Salvador e São Paulo, de tamanhos muito maiores que o município na Zona da Mata mineira. O número de mortos na tragédia provocada pelos temporais na região chegou a 70, após o Corpo de Bombeiros encontrar o corpo de mais uma vítima, em Juiz de Fora, na manhã de ontem. A prefeita da cidade, Margarida Salomão (PT), afirma que “não há um foco de risco, a cidade inteira é perigosa”. Moradores de Juiz de Fora atingidos pela chuva Domingos Peixoto O município fica no fundo do vale do Rio Paraibuna. As moradias mais populares se consolidaram nos morros e encostas que circundam a cidade, e são as áreas mais vulneráveis a tempestades. Ao mesmo tempo, muitas residências de classe média ficam em região de várzea, também sob risco, sobretudo de enchentes. Na frente do bar de Vilardo Galone há uma placa que anuncia o “cantinho do churrasco, da cerveja e da alegria”. O reduto de boemia e reuniões do Três Moinhos, porém, está com os dias contados. — Acho que agora é besteira ficar aqui por causa dos deslizamentos — resume, resignado, o comerciante, que está temporariamente na casa da filha, mas bate ponto no bar e na própria residência para cuidar dos pássaros e das galinhas. Já nos dois andares de cima, o genro pensa diferente: — Fiquei dez anos construindo minha casa, como vou deixar isso para trás? — questiona Felixon Delgado, que critica a Defesa Civil. — Eles só mandam a gente sair, mas ninguém sobe aqui. ‘No fim, sempre voltam’ Desde a tempestade de segunda-feira, dezenas de casas de Três Moinhos desmoronaram e ao menos sete ruas foram totalmente evacuadas por ordem da prefeitura. Os moradores contam que, nas últimas décadas, a ocupação no bairro foi intensa. Desde então, ainda que guardadas as devidas proporções, repetem-se os estragos causados pelos temporais. — Todo ano quando chove cai um barranquinho atrás da casa de um ou outro. Aí condenam uns imóveis, em outros o pessoal faz reforma, ergue muro, põe contenção. No fim, sempre voltam — diz Rômulo Vinícius, cuja mãe perdeu a casa em Três Moinhos. — Felizmente não tinha ninguém. O temor espalha-se por bairros próximos, mesmo aqueles nos quais não houve deslizamentos na semana passada. Maria Zélia da Silva mora há 40 anos em Linhares, vizinho a Três Moinhos, à beira de um córrego que costuma causar enchentes. Seu lar ficou repleto de água na última segunda-feira, mas ela garante que a construção é segura, com colunas e fundações, o que garantiria estabilidade. — Iniciamos essa casa do zero. Como vou sair? Para ir para um lugar de mais risco? Criei minha família aqui — pontua. — A encosta do outro lado da rua é perigosa, mas não chega aqui. O entorno cresceu muito e foi condenando o bairro. No Vitorino Braga, também cercado por barrancos, Maria Aparecida até diz sentir-se segura, mas faz coro nas queixas sobre ocupação desordenada: — Passaram a liberar muita construção, jogaram terra por baixo, e deu problema. O pessoal é teimoso e volta para casa depois da tragédia. Já a comunidade Esplanada, também nas cercanias, está deserta. O pedreiro Denilson Neto Ferreira abrigou-se com o primo enquanto calcula meios de se mudar de vez, já que um prédio de três andares sobre sua casa apresenta risco iminente de queda: — Não tinha noção desse perigo. Morei a vida toda aqui e nunca aconteceu isso. Apesar de admitir a necessidade de reassentamentos em alguns pontos, a prefeita Margarida Salomão sustenta que a prioridade de sua gestão é garantir que as pessoas permaneçam nas suas casas, mesmo em áreas de risco, quando possível: — Alguns deslizamentos vão levar a uma necessidade de relocação de residências e vamos precisar de recursos para programas habitacionais. Agora, grande parte dos recursos é para garantir que essas áreas sejam ocupadas de forma sustentável. Há dezenas de bairros onde as pessoas estão estabelecidas, têm suas rotinas. Salomão define o caminho histórico de urbanização da cidade como um processo de “defesa”, em que intervenções como muros de contenção e drenagens são feitas para salvaguardar as moradias. — Juiz de Fora foi edificada em encostas ou em várzeas de rio. Em 170 anos, sempre se defendeu — opina a prefeita. — Eu não tenho um foco de risco. A cidade inteira é perigosa, esse é o problema. Infraestrutura só depois Professora de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora, Cássia Ferreira explica que a Região Leste da cidade, a mais afetada na tragédia e de alta vulnerabilidade social, tem histórico de movimento de terra: — Nesses espaços, geralmente a infraestrutura urbana chega depois da ocupação. Há obras em alguns pontos que tentam minimizar efeitos das chuvas, mas a cidade já tem, naturalmente, suscetibilidade à ocorrência de deslizes e inundações. E a forma que foi ocupada gerou muita impermeabilidade, com retirada significativa da vegetação, o que provoca escoamento superficial acelerado da água. Na avaliação da pesquisadora, o problema histórico de Juiz de Fora, assim como na maioria das cidades brasileiras, foi a falta de planejamento urbano e de políticas de prevenção, com atenção ao meio ambiente. De acordo com o AdaptaBrasil, sistema do governo federal que analisa fatores de perigo climático, Juiz de Fora tem risco alto para deslizamentos. Um dos principais aspectos que explica a nota da cidade mineira (0,7, numa escala de 0 a 1) é justamente a grande quantidade de moradias em área de risco, além da topografia da região. — A prefeitura tem que fazer mapeamento geológico e estrutural para definir as áreas de maior risco e achar as soluções. Alguns locais não podem ser mais ocupados, mas em outros é possível fazer macrodrenagem, reflorestamento e recompor permeabilidade do solo — avalia Jean Ometto, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas (Inpe) e coordenador do AdaptaBrasil.