Livro traz depoimento inédito de Brizola sobre trabalho aos 9 anos e período que precisou morar na rua

“Então, eu me criei sob o signo desse fato, da morte do velho (meu pai). Eu tinha 1 de idade, quando o camponês maragato José Brizola foi assassinado num embate entre chimangos na Revolução de 1923, no Rio Grande do Sul. Minha mãe, Onívia, alfabetizou os filhos. Até 6 anos de idade, eu não tinha sapatos e desconhecia escova de dentes. Aos 9 anos, tive de estudar e trabalhar”. Apesar de avesso a depoimentos — gostava era de entrevistas e discursos —, a história acima foi contada pelo ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul Leonel Brizola e faz parte de uma coletânea de gravações guardadas em quatro fitas cassetes. Em quatro horas e 20 minutos, o político conta passagens de sua infância, da juventude, da entrada na política e sobre governos e educação, que até então eram desconhecidas. O material originalmente fez parte de um projeto de história oral de 1996 da Câmara Municipal de Carazinho (RS), cidade natal de Brizola, mas acabou desaparecido. O conteúdo vem à tona 30 anos depois e, somente agora, será divulgado. O depoimento se transformou em um livro — "Leonel Brizola por ele mesmo - Documento inédito", da editora Insular — , organizado pela neta do ex-governador, a ex-deputada estadual gaúcha Juliana Brizola, e a pesquisadora e jornalista Rejane Guerra. A obra traz ainda um QR Code com a gravação e fotos. Durante o depoimento, Brizola fala sobre a infância. Quando criança, trabalhou em um açougue e, sem poder estudar no internato da cidade, um de seus sonhos de criança, invadia a escola e ficava por lá até ser expulso pela direção. “Eu adorava olhar aquilo ali (internato). Às vezes invadia a escola e me botavam pra fora. Eu ia distribuir carne, levava aqueles ganchos. E aqueles garotos arrumadinhos, bem abrigados, indo para o colégio”, lembrou. Brizola quando criança Reprodução Brizola contou que estudou numa escola técnica, mas enfrentou problemas para se matricular por falta de certidão de nascimento. “Aos 14 anos, consegui passar para escola técnica. Na matrícula, eu não tinha certidão de nascimento nem dinheiro para o enxoval. Foi uma saga”, destacou. “Acabei indo para Porto Alegre. Fiquei quase um ano na rua, trabalhando nas piores condições”. Ao ingressar na universidade, o ex-governador do Rio afirmou ter conhecido a polarização política entre direita e esquerda e disse nunca ter sido comunista: “(Os estudantes) estavam divididos em dois grupos, a metade era do Partido Comunista, todo aparelhado, com células. E tinha os punhos de renda, filhos dos fazendeiros, gente rica. Eu fazia parte de um grupo de uns 15. Tinha dois sargentos, um cabo, dois funcionários da Varig. Nós éramos diferentes, porque nós trabalhávamos”, explicou. “Não dava para falar com os comunistas, porque eles sabem de tudo e nós não sabíamos de nada”, acrescentou. Brizola diz no depoimento que um outro grupo formado por operários organizou uma passeata em defesa dos direitos trabalhistas. O ex-governador participou da manifestação, que abriu as portas do trabalhismo para ele. Juliana tomou conhecimento do depoimento do avô ao receber do ex-deputado Romeu Barleze, do antigo PTB, conterrâneo de Brizola, um caderno com a transcrição da conversa. Começava, então, a busca pelas fitas originais. As gravações foram localizadas por Rejane com o jornalista Nélson Rolim, em Santa Catarina. As fitas tinham sido recém restauradas. — Foi muito emocionante escutar o meu avô Leonel Brizola dando esse depoimento sobre episódios de sua infância e juventude, a grande maioria eu desconhecia — afirma Juliana. Rejane conta que vasculhou Carazinho e São Borja (RS) até chegar às fitas em Santa Catarina: — Pensei em encontrar as fitas por curiosidade jornalística. Tinha consciência de que estariam degradadas, mas tinha esperança de conseguir restaurar pelo menos uma parte. O livro tem prefácio de Roberto D’Avila e apresentação do colunista do GLOBO Bernardo Mello Franco. Será lançado em 23 de março na Câmara de Porto Alegre, e 25, na de Carazinho. No Rio, será em 8 de abril, na Travessa do Leblon.