Isabelle Drummond relembra morte trágica do pai, período de luto e preconceito por ser evangélica: 'Algo muito agravado pela política'

É sexta-feira de manhã, véspera de feriado, quando Isabelle Drummond aparece do outro lado da tela com roupa de academia e o pique nas alturas. A rotina diária de exercícios, adotada há pouco tempo e já “paga” naquele dia, tem emprestado à influenciadora Naiane, sua personagem na novela das 19h “Coração acelerado”, da TV Globo, a força e a definição exigidas para a vilã metida a influenciadora digital. “Ela diz ser totalmente sarada. Quando comecei a estudar para o papel, vi que as mulheres de Goiânia têm pernão, bundão, e sou mais franzina. Foram quatro meses para chegar em um físico condizente”, diz a atriz de 31 anos, em entrevista de uma hora por chamada de vídeo. “Tomo whey protein e creatina para manter os músculos, senão, emagreço rápido.” A volta de Isabelle aos folhetins após um hiato de sete anos marca também os 25 de carreira — sua primeira personagem na TV foi na minissérie “Os Maias”, em 2001, como a pequena Rosicler. O enredo sobre o mundo sertanejo e a vilania cômica de Naiane foram decisivos para o retorno. No papel, conta, tem trabalhado sentimentos nunca antes explorados na ficção. “Inveja, competição e narcisismo. Também estou conhecendo a fundo a região Centro-Oeste e gosto do lugar da comédia.” Vestido, tricô e cinto, tudo Prada, sapato Gloria Coelho e brincos Nathalie Edenburg Mariana Valente A parceria com a autora Izabel de Oliveira, com quem trabalhou no mega sucesso “Cheias de charme” (2012), também somou pontos a favor. “Brinco que Isabelle é meu pé de coelho. É uma alegria ter contado com o talento dela em todas as minhas novelas. Só uma atriz inteligente e talentosa consegue brilhar em papéis tão diferentes”, elogia ela, que também escreveu “Geração Brasil” (2014) e “Verão 90” (2019), última trama da qual Isabelle participou. “Ela sabe ser engraçada, charmosa e ainda dar humanidade ao personagem.” Diretor artístico de “Coração acelerado”, Carlos Araújo destaca a versatilidade da intérprete, com quem também trabalhou na história das Empreguetes. “Comecei a imaginá-la em um papel diferente, como vilã, fiz o convite e tudo se encaixou.” O tempo fora da TV serviu para Isabelle maturar novos trabalhos como produtora e diretora. Em 2025, idealizou e dirigiu o curta-metragem “Blossom”, no ar em suas redes sociais, em parceria com a Dior, maison da qual é amiga. “Conecto-me profundamente com a marca pelo olhar para o feminino, a valorização do fazer manual, da arte e das histórias que atravessam cada criação”, diz. No final de janeiro, estreou em seu Instagram o projeto “Isabelle do Mundo”, propondo uma experiência cinematográfica a partir do encontro entre poesia e diferentes gerações de artistas. A primeira delas foi o curta “Árias Pequenas, para Bandolim”, baseado na poesia homônima de Hilda Hilst (1930-2004), dirigido por Denise Saraceni e contracenando com a atriz Vera Holtz. “A ideia nasceu do meu desejo de levar literatura, poesia e arte para as redes de forma sensível e autoral. Queria criar algo que fugisse das trends e apostasse na profundidade.” Top, saia e calcinha, tudo Miu Miu e pulseira Nathalie Edenburg Mariana Valente Por acompanhar a atriz desde o começo da vida artística, aos 6 anos, Denise afirma que o trabalho surgiu de uma tentativa de desafiá-la a sair da zona de conforto. “Lembro de visitá-la no set, era nossa princesinha. Ela é muito aberta a novos desafios, consegue desenvolver um arco dramático interessante com suas personagens. Aí, levamos arte para a internet.” Já Vera reforça a importância do encontro de histórias e gerações: “Eles se dão em palavras líquidas e deleitosas. Isabelle, a jovem tão essencialmente bela, que fala com a sua face perturbada, me encontra, com grande parte do caminho já percorrido, para dizermos segredos de lascívia.” E a atriz não parou por aí. Com sensibilidade, mergulhou na história da aristocrata carioca Laura Alvim (1902-1984), que transformou sua casa em um centro cultural em Ipanema, para a produção de uma cinebiografia, com direção de Bruno Safadi, ainda sem previsão de estreia. Por fim, trabalha na adaptação para o cinema de três minibiografias do livro “Ela é carioca”, de Ruy Castro, sobre figuras importantes do movimento cultural e transformador do bairro de Ipanema entre 1910 e 1970. Uma delas é a do casal alemão Hanz e Miriam Etz, sendo ela a primeira mulher no Brasil a usar um maiô de duas peças. “Resolvi começar por eles porque foram os primeiros moradores do Arpoador. A atitude de Miriam foi simbólica e bem importante, mas para ela, era normal”, explica. Sua mãe na ficção em “Coração acelerado”, repetindo a dobradinha de “Cheias de charme”, Leandra Leal elogia a trajetória construída pela amiga até então. “Testemunhar o crescimento dela é incrível. Estamos conversando e criando coisas para fazer. Belle tem um grande amor e respeito pela profissão.” Camisa, calça e blazer, tudo Golden Goose, sapatos e anel Nathalie Edenburg Mariana Valente Falar sobre assuntos importantes para as mulheres tem guiado os desejos de Isabelle. Em 2024, protagonizou o espetáculo “Tina, respeito”, em parceria com a ONU Mulheres. Baseada na personagem de Maurício de Sousa e na graphic novel de mesmo título feita pela quadrinista Fefê Torquato, Tina é uma jornalista que enfrenta o machismo e o assédio no ambiente de trabalho. “Nunca fui assediada. Trabalho desde criança e fui conquistando um lugar de respeito. Mas situações machistas acontecem todos os dias: te respeitam mais em ambientes como restaurantes ou na academia quando há um homem ao lado”, explica. Nascida em Niterói, região metropolitana do Rio, a atriz ficou conhecida ao personificar a boneca Emília, da série infantil “O Sítio do Pica-Pau amarelo”, clássico de Monteiro Lobato, de 2001 a 2006, na TV Globo. No ano seguinte, quando tinha 13 anos e fazia a novela “Eterna magia”, sofreu uma tragédia familiar. Seu pai, Fernando Luiz Drummond Xavier, foi morto durante uma tentativa de assalto na região de Piratininga. “É um luto muito difícil, com o tempo as coisas se assentam. Mas não é algo que se resolve, a falta é eterna. Tenho uma relação forte com Deus. Creio que vou reencontrar meu pai, é uma grande esperança”, diz Isabelle. Vestido Herchcovitch;Alexandre Mariana Valente Entre as lembranças mais doces de Fernando, estão a companhia constante aos finais de semana em compromissos profissionais e a importância de sempre ter os pés no chão, vivendo sem deslumbre. “Meu pai era uma pessoa muito reta, objetiva. Como diz uma passagem da Bíblia, ‘seja seu sim, sim, e o seu não, não’. Com ele, não tinha politicagem. Era muito intenso. E até os defeitos eu achava lindos”, emociona-se. “Se ele fosse artista, seria da sensibilidade, e não do glamour. Tanto ele quanto minha mãe têm essa característica de serem bem racionais”, cita, sobre a decoradora Damir Drummond. Fé e a religião atravessam a vida da atriz desde a infância. Aos 10 anos, foi batizada em uma Igreja Batista, quando o pai ainda era vivo. “Tive esse encontro com Deus muito nova, assim como minha família. Mas não foi algo que ninguém me impôs. E isso se estabilizou na maioridade. Não existe nada na minha vida fora desse lugar de entrega a Deus”, repete a atriz. Atualmente, frequenta a igreja Comunidade de Fé, o que considera a base de todos os seus aprendizados. “Vou sempre, não só aos domingos, mas durante a semana, estou presente nas orações, nos estudos, e sou ligada à comunidade local.” Embora famosa, não escapou das críticas e preconceitos que rondam o evangelismo, especialmente pelo momento político que atravessou o Brasil nos últimos anos. “Foi algo muito agravado pela política. Existe uma ideia errada do que é a religião evangélica. Mas não deixo de me mover por causa disso.” Vestido, tricô e cinto, tudo Prada, sapato Gloria Coelho e brincos Nathalie Edenburg Mariana Valente Reservada e discreta, Isabelle pouco expõe a vida amorosa. Entre 2014 e 2015, namorou o cantor Tiago Iorc. Em 2024, os seguidores do Instagram “shipparam” a atriz com o empresário e influenciador Enzo Celulari, após perceberem interações carinhosas entre eles. Sobre o assunto, limita-se a dizer que está “solteira e feliz”. No balanço, faz uma reflexão sobre o envelhecimento. “Uma vez li uma crônica de um livro da (jornalista) Eliane Brum em que ela falava sobre os 40 anos, e isso abriu minha cabeça. Sempre quis adquirir mais experiência e mais sabedoria”, enfatiza. Apesar das limitações físicas que o tempo traz ao corpo, sua passagem não a deixa temerosa. “Não tenho medo porque acredito na vida eterna. Então, nada está acabando.”