Conheça Aqualtune, princesa do Congo que fundou o Quilombo dos Palmares

Como visitar Alagoas sem passar pela Serra da Barriga? Como vislumbrar para além das lindas praias que vêm ganhando cada vez mais destaque como roteiro turístico, sem atravessar física e simbolicamente o Quilombo dos Palmares? Essa pergunta não é retórica. Ela me atravessou de verdade. Confesso: por muito tempo, não sabia exatamente onde ficava a Serra da Barriga. Sabia de Palmares como ideia. Sabia de Zumbi quase sempre resumido a uma data no calendário. Mas não sabia do chão. Do território. Da brisa leve que bate embaixo da gameleira branca, árvore que tanta coisa testemunhou e segue viva. À medida que fui entendendo o mapa, intencionamos a viagem. Em família. Porque há coisas que não se aprendem sozinhas, nem apenas pelos livros. E quando pisei ali, entendi: não se trata de ponto turístico. Não é sobre “conhecer mais um lugar”. Trata-se de um território sagrado. Um território com o qual nossos livros, escolas, cinema e imaginação coletiva têm uma dívida imensa. Se dedicamos tantas páginas, horas-aula e reverência às revoluções europeias, por que seguimos dedicando tão pouco a uma das maiores experiências de liberdade já construída neste país? Por que ainda sabemos tão pouco sobre a cultura, a organização social, a espiritualidade, o cotidiano e as vitórias que floresceram no Quilombo dos Palmares? Falamos e devemos falar muito de Zumbi. O Brasil tem uma dívida histórica com Zumbi. Nós carregamos essa herança de resistência. Mas Palmares não começa com Zumbi. Palmares começa com uma mulher: Aqualtune. Princesa do Congo. Filha de reis. Estratégia, liderança e liberdade. Aqualtune foi trazida à força para o Brasil. Violentada. Transformada em “escrava de reprodução”, expressão brutal, mas necessária, porque nomeia o que tantas mulheres, especialmente as racializadas foram e, de muitas formas, ainda são: reduzidas à condição de corpo, de útero, de coisa. É dessa condição sub-humana que Aqualtune foge. E não faz isso sozinha. Com ela, outros homens e mulheres escravizados em busca da liberdade. Eles não fogem apenas para sobreviver. Fogem para fundar um outro mundo. Um mundo possível. Um mundo radicalmente diferente do projeto colonial. Aqualtune dá início ao Quilombo dos Palmares, que mais tarde abrigaria milhares de pessoas, espalhadas por diversos mocambos na Serra da Barriga. Ali, podia-se exercer livremente a religião. Negros e indígenas conviviam. Pessoas brancas também eram acolhidas. Havia agricultura, organização política, estratégias de defesa, comércio e cuidado coletivo. E havia celebração. Porque Palmares não era só luta. Era também vida acontecendo apesar de tudo. Era colheita. Era festa. Era vitória. Era gente chegando nova e sendo acolhida. Eram batalhas vencidas, mas também amores construídos, crianças nascendo, saberes circulando. Palmares era futuro em exercício. As oferendas que hoje muitos demonizam não eram “feitiço”. Eram comida para os deuses das religiões de matriz africana. E eram comida para os fugitivos. Eram sinal, mapa e orientação para quem vinha. Estratégia espiritual e de sobrevivência caminhando juntas. Fé e política misturadas, algo que a história oficial insiste em separar quando se trata de corpos negros. Acho urgente dizer: precisamos de mais produções audiovisuais sobre Aqualtune. O Brasil deve isso a si mesmo. Deve isso às pessoas que ainda não se veem como fundadoras de mundos. Um filmaço sobre Aqualtune não seria só cinema. Seria ampliação de repertório. Seria dizer, em imagem e som, que nossa história não começa na senzala nem termina no sofrimento. Começa em reinos. Atravessa violências. Mas se reinventa em resistência, estratégia, amor e celebração. Viva Aqualtune.