Clica aqui para me seguir no Instagram Lançada pelo Prime Video, “A namorada ideal” é meio thriller, meio drama familiar. Parece a fórmula de tantas séries disponíveis no streaming, mas essa trama é diferente. O suspense não nasce de assassinatos ou de grandes reviravoltas, mas de algo muito mais incômodo: de um jogo psicológico. Ao longo de seis episódios, o que começa parecendo afeto evolui para o território do ciúme, da posse e da rivalidade. Sem personagens redentores ou certezas morais, a trama é bem original. Recomendo. A história se baseia no best-seller homônimo escrito em 2017 por Michelle Frances. Robin Wright (a Claire Underwood de “House of Cards”) interpreta a personagem principal, Laura, e dirige alguns dos seis episódios. A atriz vive a mãe dominadora de um jovem adulto, Daniel (Laurie Davidson). Ela se sente ameaçada quando ele apresenta a nova namorada, Cherry (Olivia Cooke, de “House of the Dragon”). O que poderia ser um estranhamento banal entre sogra e nora se torna aos poucos um embate muito mais complexo. O amor materno ultrapassa limites e se converte em disputa efetiva. É importante dizer: Cherry também não é santa (e logo somos informados disso). Olivia Cook e Laurie Davidson/A namorada ideal Divulgação É impossível não comparar Laura a Claire Underwood. As duas têm traços comuns e o mais marcante deles é o espírito controlador. Mas a atriz dá uma rasteira em quem esperar ver repetição. Em “House of Cards”, ela encarnava o poder frio, calculado e institucional. Aqui é o contrário: Laura tem fragilidades, sofre com a disputa e se deixa levar pela paranoia. Ninguém é apresentado de forma plenamente transparente. Fora isso (e por causa disso também), não há uma heroína capaz de organizar o caos narrativo. É esse o jogo que alimenta o tempo inteiro as dúvidas do espectador. O trunfo da narrativa é a zona cinzenta que se instala entre os personagens e o público. A torcida — pela mãe ou pela namorada — vai se alternando até o fim. O roteiro consegue sustentar a tensão e evitar que a história se reduza a um jogo de vítima e vilã. “A namorada ideal” não é exatamente feminista, mas os personagens masculinos são apagados. O centro dramático é das mulheres, mesmo quando o poder delas é destrutivo. Os homens aparecem como figuras imaturas e incapazes de intervir de forma decisiva nos embates. O filho ocupa um lugar intermediário: dividido entre a lealdade, a culpa e o desejo de autonomia, ele é mais produto do conflito do que agente de sua solução. Assim, a minissérie arma seu suspense menos a partir de ações espetaculares e mais do desgaste silencioso das relações familiares. Ambientada entre Londres e a Espanha, a produção tem cenários lindos que contrastam com o clima emocional sufocante da história. Ela atualiza o tema da mãe superprotetora e do filho emocionalmente dependente. Seu impacto está na sugestão, no silêncio e no desconforto progressivo. Só no fim saberemos quem é a verdadeira vítima.