Por Marcos L Susskind O artigo que apresento não é acadêmico nem militante. Nele busco explicar mudanças estruturais para pessoas bem informadas, interessadas em compreender o que mudou — e o que não mudou — no Oriente Médio depois de 2020. Não é defesa nem crítica — é uma leitura estratégica. Para entender o novo Oriente Médio é necessário analisar os seus eventos sistêmicos que modificaram a região nos últimos 75 anos. Mudanças sistêmicas são aquelas que afetam não só os envolvidos diretamente, mas se estendem por um grande contingente de países e grupos que não se envolvem diretamente nos conflitos, mas os observam de longe. + Líder supremo do Irã está morto, diz imprensa internacional O primeiro evento sistêmico ocorre em 1948 e marca o nascimento do conflito estrutural: a ONU decreta a partilha da Palestina em dois Estados, um judeu e um árabe. Os judeus aceitam, os árabes rejeitam. Sete países árabes abrem guerra contra o novo país. É a primeira modificação sistêmica pois gera rejeição árabe imediata — mesmo de países muito distantes do conflito, como Malásia, Líbia, Tunísia, Iêmen e outros. Com o fim da guerra, o conflito deixa de ser territorial e passa a ser existencial. Forma-se o eixo “mundo árabe versus Israel”. É o nascimento do “Velho Oriente Médio”: a identidade árabe definida pela oposição a Israel. O ano de 1948 marca uma mudança de lógica, não é apenas um evento histórico: é um ponto de inflexão. Haverá outros pontos de inflexão. O próximo se dá em 1967. Em uma reação surpreendente aos ataques, Israel derrota o Egito, a Jordânia e a Síria em apenas seis dias. A percepção árabe sobre Israel passa de vulnerável à potência regional. + Iranianos comemoram ataque em Teerã: 'Eu amo Trump' A vitória militar rápida e decisiva com a ocupação de amplos territórios muda o equilíbrio estratégico. Israel deixa de ser visto como fraco e passa a ser temido. O mundo árabe muda seu foco: o conflito não é mais sobre sobrevivência de Israel, mas sobre como lidar com sua superioridade militar. O terceiro ponto de inflexão se dá em 1979, com a primeira quebra do tabu árabe: Egito assina um tratado de paz com Israel. O mais forte exército árabe saiu do conflito . Então, o mundo árabe se fragmenta, mostrando que interesses nacionais podem superar a solidariedade árabe. Ainda em 1979 outras duas mudanças tectônicas: Turquia e Irã, até então aliadas de Israel, sucumbem a regimes anti-Israelenses radicais. Chegamos então a 2011: é a quarta mudança sistêmica, a Primavera Árabe e o desafio da população aos regimes corruptos e muitas vezes ditatoriais no mundo árabe. https://www.youtube.com/watch?v=6fGshCz5grg Agora, na visão dos governos, o inimigo muda do exterior para o interior. Governos árabes vivem medo existencial, e Israel deixa de ser prioridade estratégica. É a população que ameaça a continuidade dos regimes. A nova percepção vai levar, em 2020, aos Acordos Abraâmicos, a quinta inflexão: uma ruptura oficial com o passado. Passam a prevalecer os interesses comuns aos países. A questão palestina sai do centro, acordos de tecnologia, segurança e inovação tomam vulto, e, agora, é o Irã que se torna o inimigo comum. Em 2020, “morre" o velho e nasce o novo Oriente Médio: Israel não é mais exceção — é parceiro útil. Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos, Sudão e Cazaquistão passam a cooperar e interagir com Israel. Diversos países árabes e islâmicos mostram interesse em se reaproximar de Israel, receber colaboração tecnológica e de segurança. No entanto, a maioria aguarda a decisão da Arábia Saudita, país que tem imensa influência sobre a grande maioria deles. A Arábia Saudita mostra crescente interesse em entrar nos Acordos Abrahamicos e grupos radicais palestinos temem pelo esquecimento ou irrelevância de sua causa. Se a Arábia Saudita aceitar o acordo, uma grande sucessão de países também deve aderir. É nesse contexto que radicais palestinos vão tentar brecar o processo. E assim chegamos ao sexto evento sistêmico, em 2023: o ataque terrorista do Hamas contra Israel, uma desesperada tentativa de interromper a nova ordem . O ataque de 7 de outubro tenta ser um choque estratégico com objetivo de recolocar a questão palestina no centro das preocupações árabes e islâmicas, afinal sem Riad o novo Oriente Médio está incompleto. Esta guerra não é um retorno ao passado, é uma reação contra o futuro que estava se formando. É a reação dos que ficaram de fora deste novo Oriente Médio: Irã, Turquia, Iêmen e Catar, além dos grupos terroristas Hamas e Hezbollah. Durante 70 anos, Israel foi o problema central do Oriente Médio. Hoje, para muitos países árabes, Israel é parte da solução — e é exatamente isso que seus inimigos tentam impedir. O massacre de 2023 e a guerra que se seguiu atrasaram o processo, mas, muito provavelmente, não o deterão. As labaredas se apagarão e o processo será retomado pois é interesse da maioria dos governos. Nota: Este artigo foi escrito antes do ataque conjunto de Israel e EUA ao Irã , o qual desencadeou uma reação do regime iraniano contra Bahrein, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Jordânia. O Irã disparou mísseis contra essas nações vizinhas. Todos são sunitas, enquanto o Irã é xiita — duas correntes islâmicas antagônicas. Há uma probabilidade razoável que esse fato seja um sétimo ponto de inflexão, pois países sunitas atacados podem se aproximar de Israel visando sua defesa. O post O novo Oriente Médio apareceu primeiro em Revista Oeste .