Diante da Torre Eiffel, em Paris, movimentos sincronizados de pernas, braços, ombros, cabeça e se misturam a um inconfundível gingado — tudo embalado por uma batida típica do Rio de Janeiro. A cena se repete no Centro de Londres, em meio a um casario em Lisboa, em frente a um arranha-céu em Barcelona e numa praça em Sydney. A dança atrai olhares curiosos, sorrisos de quem passa e celulares a fotografar e filmar. O foco das atenções é o dançarino, coreógrafo e professor de dança Roberto Soli, de 31 anos, que faz qualquer cenário dialogar com o funk carioca. Ele tem o "molho". Com molejo singular aliado a carisma de sobra, vem contribuindo para disseminar o gênero musical mundo afora, ao promover turnês de oficinas de passinho que percorrem diferentes países. Aniversário do Rio: Santuário Cristo Redentor realiza missa para celebrar os 461 anos da cidade 'É um plano de carreira': Leandro Vieira explica permanência na Imperatriz e projeta carnaval 2027 Dançarino que leva o funk para o mundo ensina como fazer o passinho No ano passado, esteve em 27 cidades, espalhadas por 12 nações de Europa, Oceania e América do Sul. Os vídeos coreografados fazem sucesso no Instagram, rede social em que o profissional reúne mais de 180 mil seguidores. Além de percorrer o mundo, Soli se dedica a dar aulas particulares e coletivas em estúdios de todo o Brasil. Com vagas limitadas, os workshops, divulgados no perfil @robertosolo_, se esgotam rapidamente. O último evento no Rio foi no sábado. Em janeiro, a cidade recebeu mais de 20. No mesmo mês, São Paulo também contou com uma edição. E, mesmo por aqui, ele planta a semente da globalização do funk, já que também ensina a manha dos passinhos a grupos de turistas estrangeiros. Já ensinou o passinho e outros movimentos do gênero, como o rebolado, a dancinha e a dança de bonde, para cidadãos de dezenas de nacionalidades: de russos a americanos, passando por venezuelanos, peruanos, ingleses, alemães, suíços, australianos e até chineses. A primeira vez que saiu do Brasil foi em 2019, quando foi em busca, na Europa, de mais conhecimento sobre o universo da dança e acabou tendo a oportunidade de dar aula na Suíça, na Dinamarca e na Rússia. Gostou da experiência e, em 2023, fez a primeira turnê, no continente europeu, na esteira da internacionalização do funk protagonizada pela cantora Anitta. Desde então, não parou mais. Já criou uma rede de contatos de estúdios e alunos estrangeiros, que estão sempre contratando suas aulas e indicando novos interessados. — Em 2023, foi uma tentativa, para abrir portas. Fui na cara e na coragem. Em 2024, o intuito era firmar o que eu havia iniciado um ano antes, fazendo com que a galera entendesse quem eu sou. Ano passado foi a consolidação do meu trabalho e o momento de maior reconhecimento. Foi a primeira vez que fui contratado para ir para outros países, Austrália e Nova Zelândia, com tudo pago. Geralmente, eu organizo tudo sozinho. Agora, estou pronto para expandir ainda mais. Penso em levar meu trabalho também para a América do Norte e para a Ásia — diz Soli. Morro da Conceição: local é cenário frequente dos vídeos de Roberto Soli Leo Martins Em 2025, o dançarino ficou cerca de quatro meses fora do país desenvolvendo seu trabalho. A lista de carimbos em seu passaporte é extensa: Alemanha, Argentina, Austrália, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Irlanda, Nova Zelândia, Portugal e Suíça. Ele é tão internacional que as legendas de seus posts nas redes sociais têm opções em inglês e espanhol, idiomas que ele aprendeu na prática ao longo dos últimos três anos. — Sempre sou recebido com muito entusiasmo fora do país. Os gringos querem muito consumir a cultura brasileira. O legal deles é que, por mais que não conheçam, eles têm a disposição de ver com os próprios olhos, entender e experimentar, como tem sido com o funk carioca. Se é Brasil, eles estão dentro — descreve o coreógrafo. Da Brás de Pina para o mundo Roberto Soli viralizou pela primeira vez em 2022, por um vídeo envolvente de passinho gravado numa viela do Morro da Conceição, no Centro do Rio, em que está ao lado da professora de dança Aline Maia. Ele voltou ao local para conversar com o GLOBO no mês passado. O funk, porém, faz parte de sua vida há muito mais tempo. Aos 9 anos, influenciado pelos DVDs da equipe de som Furacão 2000, ele já tentava, junto com seus primos, reproduzir coreografias dos grupos da época, como Os Hawaianos e Bonde do Tigrão. Na adolescência, conhece o breaking e o hip-hop por meio de vídeos no Youtube. Mais adiante, ganhou concursos no ensino médio. Aos 18 anos, decidiu que queria viver do palco, no balé de grandes artistas. Mas ele tinha uma urgência: precisava ganhar dinheiro para se manter e ajudar em casa, e a saída foi dar aulas de dança. Mesmo no Brasil, Roberto Soli planta a semente da globalização do funk carioca, ensino a manha do ritmo para turistas estrangeiros Leo Martins No curso de Educação Física, na UFRJ, teve as primeiras experiências como professor de dança num projeto dentro da universidade com foco em hip-hop. O ritmo o acompanhou por um tempo, até que ele sentiu a necessidade de retomar o contato com o funk. — Eu estava num momento bem conturbado da minha vida, de dificuldades financeiras e problemas de saúde da minha mãe, que me causaram depressão e ansiedade. Por um momento, eu parei de dançar, porque não enxergava mais prazer no que fazia. Até que pensei: "O que na dança me faz bem?". Então, resgatei em mim o Roberto da infância e da adolescência, que dançava funk descalço e sem muita pretensão. A partir dali, tive que voltar a praticar e estudar a fundo o ritmo — lembra. — O funk, que hoje é o meu foco, me resgatou. É o que realmente me traz felicidade e o que me faz querer dançar. E é esse entusiasmo que contagia seus alunos, mantendo o vigor e o sucesso de seu trabalho. — Já viu os vídeos do Roberto? São hipnotizantes! Ele é extremamente habilidoso e carismático. É alguém profundamente conectado ao Rio e vive a cidade de forma muito autêntica. Acabou se tornando um verdadeiro embaixador da cultura carioca, fazendo pessoas do mundo inteiro se apaixonarem pelo nosso ritmo. Ele cria pontes entre realidades e pessoas muito diferentes. Ajuda a quebrar estigmas e a ampliar o olhar sobre as nossas expressões culturais — analisa a comunicadora Fernanda Castelo Branco, de 39 anos, sua aluna. Amigo de Soli, o também dançarino RD Ritmidado, de 27 anos, diz que Soli é inspiração: — Enxergo com leveza e sagacidade a forma com que ele usa a base do passinho e da dancinha para criar suas coreografias. Seu trabalho agrega aos olhos de quem quer seguir o mesmo caminho. Um sonho: dançar com Anitta O coreógrafo nasceu na Vila Cruzeiro, na Penha, e cresceu em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio, onde vive até hoje. A pressão psicológica na transição para a vida adulta não foi o único desafio a ser enfrentado ao longo da vida. Na infância, após a separação dos pais, ele e a mãe, até então do lar, se viram desamparados financeiramente e precisaram morar de favor. Em muitas ocasiões, garrafas d'água eram os únicos itens na geladeira. Até que dona Sandra Maria da Silva, atualmente aposentada, conseguiu um emprego e alugou uma kitnet para os dois, que são inseparáveis. Anitta e Pedro Sampaio: Roberto Soli em trabalhar com os dois artistas Divulgação Agora, com a vida mais estabilizada, Soli faz planos: sonha comprar uma casa na Tijuca e, quem sabe, se mudar para o Flamengo ou Botafogo, no futuro. O plano de Roberto para este ano, revela, é comprar uma casa na Tijuca. No campo profissional, ele — que já teve a oportunidade de dançar na Copa do Mundo de 2014, nos Jogos Olímpicos de 2016 e com artistas como Ludmilla, Pabllo Vittar e DJ Rennan da Penha — também tem uma aspiração: trabalhar com Anitta e o DJ Pedro Sampaio — São dois artistas que, musicalmente, me agradam e que teriam um potencial muito grande de impulsionar o meu trabalho — avalia.