O foco da atenção israelense está dividido entre o Irã e Gaza, onde a situação continua tensa e indefinida desde o acordo de cessar-fogo proposto por Donald Trump há quase seis meses. + Leia mais notícias de Mundo em Oeste Parte da Faixa de Gaza — aproximadamente 57% — está sob controle Israel, onde segue em andamento o processo de remoção de entulhos e de reconstrução da infraestrutura urbana. Os outros 43% seguem sob governo do Hamas. Ali, pouco mudou desde a retirada das tropas israelenses, conforme exigido no acordo de cessar-fogo. Assim que os soldados deixaram como Khan Yunis e Gaza City, o grupo terrorista realizou uma onda de execuções públicas de civis palestinos acusados de colaboração com Israel. https://www.youtube.com/shorts/1ji9v2hnRzw Os caminhões de ajuda humanitária voltaram a ser desviados pelo grupo assim que passam a fronteira, e mais de 120 ataques foram realizados contra soldados israelenses posicionados além da Linha Amarela (a fronteira provisória que divide a área controlada pelo Hamas e por Israel). O grupo também lançou mísseis contra comunidades no sul de Israel, o que levou o país a reagir com um ataque aéreo, há cerca de três semanas. A infraestrutura civil continua sendo usada por terroristas do Hamas. Em 16 de fevereiro, a organização Médicos sem Fronteiras anunciou a suspensão de todas as operações médicas não críticas no Hospital Nasser , em Khan Yunis. Segundo a entidade, sua equipe relatou “um padrão de atos inaceitáveis em áreas do grande complexo do hospital”, incluindo “a presença de homens armados, alguns deles mascarados; intimidação; prisão arbitrária de pacientes; e uma situação recente envolvendo o movimento suspeito de armas”. A notícia repercutiu em veículos de informação de todo o mundo e também foi publicada no site do think tank americano Foundation for the Defense of Democracies (FDD). Board of Peace: um projeto polêmico Está claro que caberá a Israel concluir a etapa de desmilitarização da Faixa de Gaza e destituir o Hamas do poder, dois itens previstos no Acordo de 20 Pontos de Trump. Nenhum outro país se prontificou a assumir essa tarefa, e os israelenses tampouco criaram expectativas nesse sentido. Os planos de reconstrução de Gaza, amplamente debatidos ao longo do último ano de guerra, avançam lentamente no campo político. Para coordená-la, Trump lançou o Board of Peace (BoP) em setembro de 2025. O primeiro encontro das nações participantes aconteceu há pouco, em 19 de fevereiro. O evento representa pouco: o projeto permanece tão controverso quanto no momento de seu lançamento. + 'Hamas é o maior empecilho para a paz', diz major de Israel A proposta inicial, de atuar como um conselho focado na estabilização e na reconstrução de Gaza, rapidamente revelou-se distinta. Hoje está mais claro aquele que parece ser seu objetivo real: atuar como um mecanismo global de resolução de conflitos à margem da estrutura da ONU. A recusa de potências relevantes em aderir ao BoP gerou uma evidente crise de legitimidade. Não à toa, ele passou a ser sarcasticamente chamado de United Nations of Trump ou Bored of Peace. O ângulo israelense O BoP não atende aos anseios de Israel, sobretudo por transferir a terceiros decisões que afetam diretamente sua segurança. A ausência de grandes aliados ocidentais, como a Alemanha, reforça o seu risco de isolamento diplomático. Ironicamente, estão entre os membros do órgão o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, conhecido por comparar o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a Adolf Hitler. O Catar é outro dos integrantes, apesar de ter sido o principal financiador dos túneis do Hamas e de ter acusado Israel de genocídio na ONU há menos de dois anos. Até o momento, 26 países anunciaram participação no BoP. Na semana passada, a Indonésia comprometeu-se a enviar a primeira tropa, com oito mil soldados. Jordânia e Egito recusaram-se a integrar a iniciativa, embora tenham se comprometido a treinar a futura força policial responsável pela manutenção da ordem em Gaza. Em outras palavras, esses dois países, que jamais confrontaram o Hamas, serão responsáveis por neutralizar cerca de 30 mil terroristas armados. Caberá a eles moldar a doutrina, a cultura de comando e as relações entre os grupos armados do enclave. É importante ressaltar que nem esses países, nem mesmo os Estados Unidos, consideram a possibilidade de atuar militarmente na área que permanece sob controle do Hamas. A resposta do Hamas O Hamas perdeu toda a sua liderança durante a guerra contra Israel. O território está destruído, a economia em colapso e praticamente não há serviços públicos disponíveis. Ainda assim, sua reação frente à pressão internacional tem sido a imposição de condições: fim do bloqueio, retirada de Israel e manutenção de seu arsenal. Para o grupo, a guerra só termina com a criação de um Estado palestino. “Milhões de dólares continuam sendo desperdiçados todos os dias na Faixa de Gaza graças à criminalidade do Hamas, ao enorme consórcio de influenciadores e a uma nova classe de milionários que rouba quantias imensas de dinheiro e suprimentos. Neste vídeo, um volume enorme de comida — incluindo frango assado e cru, além de arroz já pronto — foi encontrado em um lixão perto de uma cidade de tendas”, escreveu no X o ativista palestino Ahmed Fouad Alkhatib, membro sênior do think tank americano The Atlantic Council. https://twitter.com/afalkhatib/status/2025728011228631229 O orçamento previsto para os dez primeiros anos do projeto é de US$ 17 bilhões e inclui a construção de uma base e de um centro de coordenação militares americanos, que atuarão em conjunto com a estrutura já existente em Kiriat Gat, em Israel. No entanto, até mesmo os americanos sabem: o BoP só terá chances de avançar depois que o Hamas for desmobilizado. O grupo já deixou claro que, sem guerra, isso não acontecerá. Israel, mais uma vez, terá que estar na linha de frente, tanto das batalhas quanto como alvo das críticas internacionais. O post A guerra em Gaza não acabou apareceu primeiro em Revista Oeste .