Ao dar entrevista a um grande jornal, depois de começar a fazer sucesso nas redes como influenciadora, Thai de Melo Bufrem achou que inventar uma “mentirinha” não faria mal. Perguntada sobre os próximos passos profissionais, respondeu, na cara dura, que estava preparando uma peça teatral. “Leonina, né? Achava que o leão que existe dentro de mim estava domado, e a mona mandou logo um monólogo”, diverte-se. “Já tinha 35 anos e fiquei com vergonha de não ter um projeto para citar.” Moda: Marca de roupas que conquistou descolados completa 10 anos com novo endereço no Rio Literatura: Edição de ‘A princesa de Clèves’ ilustrada por Christian Lacroix ganha versão brasileira Entrevista: Milton Cunha relembra sexo com amigas da faculdade Tão logo a matéria foi publicada, Thai começou a receber uma enxurrada de mensagens de amigos querendo saber sobre a novidade. “Liguei para a minha mãe chorando, e ela me lembrou que, quando criança, eu sempre transformava os trabalhos de escola em teatro”, conta a influenciadora, de 39 anos, nascida em Boa Vista e que vive entre São Paulo e Curitiba. Ressuscitada a atriz mirim de outrora, lançou no Google: “Quantas folhas A4 são necessárias para escrever uma peça de 45 minutos?”. Era o embrião do monólogo “Como é que eu vim parar aqui?”, que estreia na terça-feira, dia 3, no Rio, no Teatro do Copacabana Palace, onde fica em cartaz até o dia 12, depois de duas temporadas em São Paulo. Com direção de Bruno Guida e produção de Dani Angelotti, a montagem põe em cena uma personagem sem nome e com falas que verbalizam uma autoficção proposta por Thai. “É sobre carreira, fama, casamento, maternidade, poder e internet”, resume, embora este último tópico, tão caro à influenciadora com 205 mil seguidores no Instagram, não seja explicitamente mencionado. Aparece, contudo, no ritmo dinâmico das cenas que reproduzem a lógica rápida e recortada dos Stories. A moda é, para ela, uma importante ferramenta de comunicação Mariana Maltoni Tudo costurado com uma expressão corporal para a qual o preparo consumiu seis quilos da influenciadora antes da estreia. A desenvoltura neste aspecto foi, inclusive, um dos primeiros atributos a chamar atenção do diretor. “Ela tem uma habilidade conquistada com anos de ioga. Quando descobri isso, falei: ‘Precisamos usar em cena’”, conta Bruno. “Fomos criando uma dramaturgia com o corpo.” O figurino assinado por Flavia Lafer e Alexandre Herchcovitch contribui para fechar a equação visual. “O ponto de partida não era simplesmente vesti-la, mas construir uma camada narrativa”, diz o estilista paulistano. “As peças não estão lá para embelezar. Tensionam. Revelam fragilidades e forças.” Para chegar à autoficção da peça, Thai mergulhou nas próprias vivências. Formada em Jornalismo, ela é casada com “Marcelão” (discreto, ouve-se apenas a voz do marido em alguns vídeos), mãe de Marcelo e Lorenzo, de 16 e 14 anos, e foi “dona de casa até os 30”. “Comprei a vida que me venderam, de ter filhos e marido, mas aquilo não me preenchia. Então, comecei a trabalhar”, recorda-se, sobre a iniciativa tomada enquanto morava em Curitiba. Começou como vendedora de loja e teve a ideia de fazer vídeos “para bater minha cota”. O carisma e o jeito irreverente foram, aos poucos, chamando atenção até que ela se viu alçada a influenciadora. Com o sucesso, foi parar nas semanas de moda internacionais e caiu no gosto de marcas como Gucci e Dior, mesmo dizendo não fazer parte do métier. “Sou da comunicação, e moda é comunicação, é sobre quem eu sou e também sobre aquela mulher que está no palco”, atesta. O figurino é assinado por Flavia Lafer e Alexandre Herchcovitch Divulgação Foi nessa combinação, aliada a um humor sutil, que encontrou um caminho eficaz para abordar um assunto urgente: Thai revisita, no espetáculo, a violência doméstica praticada pelo próprio pai contra a mãe. “Ela só o denunciou quando ele desfigurou o rosto dela. Na época, eu tinha uns 8 anos e lembro-me de pensar que aquele era o limite. Mas ela acabou voltando para ele”, recorda-se, dizendo que, naquele momento, entendeu o quanto a situação era ainda mais complexa do que parecia. “E é isso que está na peça. Ela (a personagem) vai falando todas as frases e as promessas que lhe foram feitas e vai se libertando disso. Ela se cansa de esperar que a estrutura a ajude.”= Thai nunca falou sobre o tema nas redes e diz ter descoberto no teatro o lugar ideal para abordá-lo. Uma escolha que soa acertada diante da resposta do público. “A violência doméstica é uma pauta da minha vida e, infelizmente, de grande parcela da sociedade”, diz. “Muitas mulheres me contaram que se separam depois de assistirem à peça.” Diante do sucesso, o espetáculo começa o ano com exibições agendadas também em Recife, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba. Embora ainda não se considere atriz, Thai já fez ponta em dois filmes e pretende seguir abraçando todas as ferramentas de comunicação que lhe couberem. “Jamais vou abandonar a moda e as redes”, avisa. “Mas não é fácil estar em todas as plataformas. Ainda estou entendendo como viver na internet depois do teatro, um lugar que tem um impacto realmente admirável.”