Celso Amorim chama morte do líder supremo do Irã de 'totalmente condenável' e vê risco de crise prolongada

O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais e ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, classificou como “totalmente condenável” e “inaceitável” a morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em ataques atribuídos aos Estados Unidos e a Israel. Para ele, a ação representa um precedente grave nas relações internacionais. — Acho que, obviamente, matar um líder de um país, à distância, é totalmente condenável, é inaceitável. Ninguém pode se arrogar em juízo do mundo — afirmou ao GLOBO. Amorim ressaltou que não faz juízo sobre o governo iraniano em si. — Não estou entrando no mérito do governo iraniano, isso é outra questão, mas é para os iranianos julgarem e atuarem. Segundo ele, a eliminação de Khamenei não configura ajuda à oposição interna. — O que foi feito não é uma ajuda à oposição iraniana, se você imaginar, um ataque direto, enfim, um assassinato de um líder de outro país. Certo ou errado o líder, isso não me interessa, eu acho que isso é altamente condenável. Celso Amorim também avaliou que o episódio tende a prolongar a instabilidade. Ele lembrou que esteve no Irã em diferentes ocasiões, negociando a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também visitou o país, em iniciativas voltadas ao diálogo diplomático. — O que eu pelo menos constatei é que é um país que obviamente tem divisões, tem uma oposição, tem várias coisas que nós podemos criticar do nosso ponto de vista, mas não é um país totalmente dividido, totalmente enfraquecido, totalmente debilitado — disse. Para ele, o cenário é complexo e não terá desfecho simples. — É algo duradouro, não sei exatamente que direção isso vai tomar, mas não será uma questão simples. Não será, digamos assim, exagerando um pouco, um passeio, como foi a invasão do Iraque, também condenável, mas foi fácil. Nesse caso, é condenável e é muito complexa. O líder supremo é a mais alta autoridade política e religiosa da República Islâmica do Irã. O cargo foi criado após a Revolução de 1979 e concentra amplos poderes: o líder supremo comanda as Forças Armadas, tem influência decisiva sobre a política externa, nomeia chefes do Judiciário, da mídia estatal e metade dos membros do Conselho dos Guardiães, além de exercer autoridade final sobre temas estratégicos do Estado. Desde 1989, o posto era ocupado pelo aiatolá Ali Khamenei, que sucedeu Ruhollah Khomeini. Khamenei morreu, junto a outras figuras centrais do regime iraniano, após ser atingido em ataques atribuídos aos EUA e a Israel contra estruturas do Estado iraniano. A morte foi confirmada pelo governo iraniano e ocorreu em meio à escalada militar na região.